30 regras básicas para evitar cabalas constrangedoras

0
375

Por: Paulo Neto

Ultimamente têm vindo a lume algumas notícias que mostram alguma ingenuidade por parte de directores/presidentes de direcção de cargos públicos e privados, no tocante à elementar contabilidade das instituições onde pontificam ou co-pontificam.

No entendimento do mau nome externo que tal ligeireza carreia para a Nação e dos danos sequentes que afectam os serviços – auditorias, inspecções, entrevistas escusadas à Tvi e à Sic, manchetes no CM, demissões, cabalas, nomeações, tomadas de posse et all – urge aprovar um manual básico, a entrar imediatamente em vigor, sem desfavor de se criar concomitantemente um Grupo de Missão para o aperfeiçoar a posteriori, visando implementar algumas regras essenciais, tais como as seguintes trinta:

  1. Um presidente nunca deve usar verbas da instituição sem partilhar 30% com o tesoureiro e 20% com o secretário.
  2. Um tesoureiro ou director financeiro deve aquinhoar sempre com o presidente 40% do plafond do cartão de crédito da instituição.
  3. Devem repartir-se a 50% todas as lembranças recebidas, nomeadamente em períodos festivos e de maior afluência como o Natal, em nenhum momento as mandando colocar no porta-bagagens do BM ou dos Jeeps por algum funcionário munido de telemóvel com câmara. As caixas de garrafas de Macallan 46, Dalmore Trinitas 64 e Glenfiddich 37 devem seguir sempre em sacos de plástico azul, espesso e sem quaisquer letras visíveis.
  4. Em momento algum se deve usar o cartão de crédito institucional, senão em tabernas ou armazéns de vendas a retalho e sem especificação do adquirido. Banir obrigatoriamente a Valentino, Dior, Armani, Prada, Chanel, Gucci, El Corte Inglés… Em derradeiríssima instância, deixar a Zara.
  5. Se usar, mesmo que ficcionalmente, carros das outras instituições às quais está ou esteve vinculado, em nenhuma circunstância colocar a matrícula ao abastecer — se tiver que ser usar sempre a mesma — circulando por estradas onde não haja portagens e pelas quais os quilómetros percorridos não possam ser conferidos facilmente no google maps.
  6. Peritar o veículo a fim de detectar abusivos gps, perfidamente colocados no porta bagagens, na cava do pneu suplente, ou sob o banco traseiro.
  7. Nas viagens ao estrangeiro, pagas sempre em cash, previamente “acautelado” do saco azul, em circunstância alguma os directores/presidentes/tesoureiros e/ou outros elementos da comitiva devem seguir no mesmo avião, ou pernoitar na mesma unidade hoteleira.
  8. Banir passeios de braço dado na praia, independentemente de estarem a 10 ou 10.000 kms das instituições onde têm avenças. Andarem descalços na areia, pressupõe uma intimidade que pode ser mal interpretada.
  9. Evitar serem vistos em companhia de políticos no activo ou primeiras damas desactivadas.
  10. Não arranjarem prebendas para familiares em 1º ou 2º grau, a não ser que as alarguem à direcção financeira, tesoureiro, secretário e seus parentes mais próximos.
  11. Obstar à aquisição de automóveis topo de gama de cor escura, com cilindrada igual ou superior a 2.000 cm3, não os adquirindo em leasing ou renting, por causa da facturação mensal. Optar por cores neutras como o beige, o cinza claro, o branco ou, quando muito, o azul celeste.
  12. Preferir um VW Golf full options a gasolina com 250 cv, a um Mercedes diesel com 170 cv. Custam o mesmo, mas não se suscita inveja e até mau-olhado.
  13. Furtar-se obrigatoriamente ao uso dos cartões gold institucionais.
  14. Refrear o uso de um dos vários cartões de crédito da instituição para comprar lagostas, ou “pata negra“, pois pode ser entendido tão banal acto como primário novo-riquismo. Optar pelo rodavalho, igualmente exquis mas menos conhecido. Sempre que possível, solicitar na factura referência a carapau, cavala e presunto Nobre.
  15. Eximir-se a ser visto em público com deputados, presidentes de autarquia, marquesas e secretários de estado.
  16. Simular um incêndio que destrua, sem outras consequências, folhas de pagamento, passadas e presentes, comprometedoras. Participá-lo à companhia seguradora e à PSP local.
  17. Preservar-se do uso desabusado de emails e sms, limpando semanalmente o histórico dos pc’s e as msgs dos tm’s. Mudar o disco rígido cada meio ano.
  18. Dar os telemóveis topo de gama oferecidos pelas operadoras a amigos ou familiares, usando iphone pessoal, cujo número deve ser alterado a cada oito meses.
  19. Sendo o presidente e o tesoureiro de diferente género, conter familiaridades afectivas e suster efusividades públicas, observando ainda mais recato se forem do mesmo sexo.
  20. Limpar dos motores de busca, ao abrigo da lei da protecção de dados, quaisquer episódios referentes a um passado menos abonatório. Ler atentamente toda a legislação da CNPD.
  21. Usar roupas informais e sem griffe à vista. Se forem Versace, Boss, ou Fred Perry, cortar todos os símbolos identificadores das marcas.
  22. Reprimir o uso de relógios em ouro, tipo Rolex Day-Date 40. Optar, se for caso disso, pela discreta platina e marcas menos conhecidas, como a Vacheron et Constatin ou a Girard et Perregaux. No Verão, braços nus, usar Swatch.
  23. Beijar e apertar a mão a todos os funcionários à chegada e à saída da instituição, dirigindo-lhes sempre, individualmente, um piropo ou um dito agradável e em caso algum dar um raspanete, mesmo que merecido, sem um sorriso na boca e uma palmada suave nas espaldas.
  24. Fazer uma ceia de Natal com uma ementa de bacalhau miúdo, da mercearia da esquina. As couves, o azeite e as batatas virão da quinta do secretário, trazidas em sacos de serapilheira, sem rótulo. As rabanadas, a aletria e as filhoses serão confeccionadas pelas funcionárias mais habilidosas e prestáveis. Comprar uma prenda para todos, no máximo de 3 euros, por forma a poder colocar na factura, sem descriminar, um singelo obséquio para o presidente e para o tesoureiro, de 900 e 700 euros, respectivamente.
  25. Nas fotografias e reportagens, aparecer sempre em segundo plano, de olhos baixos e mãos cruzadas no regaço, usando roupa despretensiosa, embora limpa e engomada.
  26. Nunca colocar numa rede social as férias na neve, mesmo que sejam em S. Romão ou na Torre, pois a neve é branca em toda a parte, da Sierra Nevada a Chamonix ou Courcheval.
  27. Dar as mais pindéricas das prendas recebidas dos fornecedores, no Natal, Ano Novo, Carnaval e Páscoa, aos restantes corpos sociais da instituição, a começar pelo Presidente da Assembleia Geral.
  28. Ter um banco de dados com a data de aniversário de todos os associados da instituição, a quem, na ausência de lucros a distribuir, se enviará sempre um cartão com logotipo, a fotografia do presidente/director e a sua assinatura chancelada, apondo com carimbo em cor diferente, a parecer manuscrito, “com a minha muita estima pessoal”.
  29. Ir duas vezes por semana à missa/culto com maior frequência de fiéis, e duas religiões distintas, usando do maior recato e recatado decoro.
  30. Ter conta aberta em todas entidades bancárias a operar no mercado, fazendo diariamente transferências e cruzamentos aleatórios, por forma a confundir os putativos fiscalizadores.

(…)

Muito há ainda a ponderar e a acrescentar. Todavia, pela premência temporal, estas normas devem entrar imediatamente em vigor, salvaguardando-se a dinâmica dos aditamentos à medida que os fiscais e inspectores se actualizem em acções de formação e workshops associativos, tendo sempre presente que uma equipa demora no mínimo 6 meses a ter carro de serviço disponível para se deslocar ao local a auditar.

In: Rua Direita

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.