A loja do tio Abreião, meu pai.

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Abílio Travessas: Colaborador Dão e Demo - jornal digital

Por: Abílio Travessas

No meio ficava, ladeada pela casa de lavoura do Tio Aderbal e a padaria do Sr. Moreira, num pequeno largo delimitado pela estrada municipal, que levava à parte de baixo da freguesia e continuava até à Póvoa, o mar sempre ao lado. Mas, no largo, era a casa do Dr. João Amorim que se destacava, abrasileirada. As três portas da loja – estabelecimento de comércio de vinhos e mercearia – posicionavam-se simetricamente por debaixo das janelas do 1º andar. Para lá da estrada ficava a Casa Paroquial, a Casa da Lavoura, a igreja e o terreiro, lugar de todas as aventuras, de todos os jogos possíveis nesse espaço de encantamento, do futebol ao eixo, à estrancela,  pião,  hóquei sem patins, corridas de bicicleta.

Entrados, acedíamos ao balcão que, do lado esquerdo, estava preparado para a venda do vinho verde, branco e tinto; para a direita, a balança A. Pessoa. Depois, a faca, fixa, de cortar o bacalhau; os de mais fracos recursos compravam-no já demolhado/dessado, 1 escudo a unidade; num pequeno armário, rede deixando ver o pão: broa de milho, cozida no forno de lenha caseiro, pela minha mãe, o trigo e a sêmea, pão de mistura vendido também aos quartos, 50 centavos cada.

Duma mesa comprida recordo as bacalhoadas pantagruélicas servidas a mulheres felinianas e seus homens, intermediários no negócio da batata. Estonar (descascar) as saborosas batatas  acompanhantes do fiel amigo também me tocava, antes do jantar,  agora almoço. Depois era a corrida para a escola de Refojos, Obra da ditadura nacional, onde me esperava a disciplina e o saber do prof. Elias.

Nesta mesa, a leitura exaustiva de O Primeiro de Janeiro, lençol aberto, as notícias do desporto, do futebol ao hóquei mas também o ciclismo e as voltas a Espanha, França e, já no Agosto, a Portugal. E os clássicos da literatura, portugueses, de Júlio Dinis a Herculano, os da Biblioteca dos Rapazes, os românticos ingleses, Walter Scott.

A mercadoria estava exposta em vitrines, O tabaco em maços, Paris, Três Vintes e os mais baratos, Provisórios e Kentucks, os populares mata-ratos, extremidades torcidas para que nada lhe caísse – fazia companhia a tabaco de onça, o Virgínia, mais suave, e o Holandês, mais escuro e comprado pelos pescadores. Na parte de baixo das vitrines e para venda a retalho armazenava-se, em compartimentos de madeira, os lotes, o açúcar, o arroz e a massa. Atrás dos armários, num espaço aberto cabiam as pipas de branco e tinto, estas maiores, de 500 l, que obrigavam a perícia mais do que força para as levar da porta de entrada, deixadas ali depois de deslizarem do carro de bois por duas traves unidas por um gancho, para o seu lugar, assentes nos mancais. Ah! Do lado direito e no topo deste espaço com janela gradeada para a rua, agora do Sobe e Desce, a máquina extractora do azeite, a medidora, no topo dum bidão de 100 l. Mesmo ao lado da medidora do azeite, uma escrivaninha (que bonita palavra, vinda do séc. XIII) guardava os livros do deve e haver, do fiado. Esta escrivaninha traz- me o horror duma publicação com as terríveis fotografias dos corpos dos massacres perpetrados pela UPA –União dos Povos de Angola – no início da guerra colonial, e que o governo central enviou para os presidentes das juntas de freguesia, numa política de propaganda contra os movimentos que reivindicavam, pela luta armada, a independência de Angola.

Onde, o lugar do meu pai, neste universo de memórias infanto-juvenis? Severo em extremo para com alguns filhos, oito nascidos e criados na velha casa; os carinhos que distribuía eram parcos pelo que recordo um dos poucos que me prodigalizou: a defesa enérgica perante estúpida perseguição de dois GNRs que me apanharam desprevenido a jogar – a bola absorvia-me, era um dos meus mundos – no adro da igreja, pela manhãzinha. Mas beijo, nunca, não era de seu feitio. Que se reflectiu na minha dificuldade em exprimir afectos…

Mas foi um homem à frente do seu tempo, corriam os anos 50 do séc. 20, na capacidade de pôr alguns filhos, cinco, a estudar. E ainda me questiono, porquê no Liceu, escola das elites, a maioria que prosseguia os estudos entrava na Escola Comercial e Industrial. Talvez porque meu pai fora emigrante em França, muito jovem, e no Brasil onde não enriqueceu. Foi no trabalho de comerciante de sucesso que angariou algum pecúlio. Leitor de Eça e Alexandre Dumas, tinha prazer em contar os enredos, à mesa; um rádio deixou-me ressonâncias na memória, de folhetins radiofónicos, relatos de futebol e do hóquei em patins que nos trazia as poucas alegrias desportivas internacionais.

E, não menos importante, dele herdei também o amor pelo cinema.

Abílio Travessas

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