A “grande coligação” alemã e as questões da energia

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Por: António Fonseca (Lausanne – Suíça)

As negociações entre Angela Merkel e Martin Schulz para a formação de uma “grande coligação” em Berlim deveriam realizar-se durante esta semana à porta fechada. Mas as negociações quase não começaram e já a imprensa publica cópias de alguns textos escritos pelo Partido Democrata Cristão (CDU) e pelo Partido Social Democrata (SPD), incluindo a sobre a política energética.

António Fonseca

Os dois principais partidos políticos na Alemanha concordaram que os objetivos de reduzir as emissões de CO2 em 40% índice de 1990 eram inatingíveis para 2020 como estabelecido nos acordos de Paris. Esta “grande coligação” – se acontecer! – está a dar-se  um novo objetivo: uma redução de 55% dos objetivos até 2030.

Para os especialistas do meio ambiente esta é uma grande derrota uma vez que quer Angela Merkel quer Martin Schulz prometeram manter os objetivos durante a campanha eleitoral. Simplesmente os lobbys do carvão e da energia estão a dar cartas e a fazer recuar os políticos. “Falta de coragem política”, diz Tobias Austrup, do Greenpeace.

Quando Merkel negociou com ambientalistas, em dezembro passado, para a formação de um governo (falido), ela estava pronta a aceitar o encerramento imediato de metade das centrais elétricas a carvão para alcançar o objetivo de 2020. Mas desta vez a chanceler tem menos  margem de manobra com o SPD. Os sociais-democratas sempre se opuseram a uma saída do carvão demasiado brutal com o pretexto de que ameaçava milhares de empregos nas principais regiões produtoras (Renânia do Norte-Vestefália, Brandemburgo, Saxónia e Saxónia-Anhalt), estados  com maiorias à esquerda. Uma saída “suave” seria, obviamente, muito mais do agrado dos seus aliados tradicionais, assim como dos sindicatos, que preferem uma transição da energia sem quebras  sociais.

Se o carvão ainda representa 40% da produção de eletricidade do país, a Alemanha não está ameaçada com um black-out. Como desenvolveu nos últimos anos o sector da energia renovável, a Alemanha  até conseguiu uma superprodução elétrica.

A força dos lobbys

“Nós nunca exportámos tanta energia”, diz Claudia Kemfert , especialista em energia do Instituto de Pesquisa Económica de Berlim . “O abandono dos objetivos seria um desastre para o clima”, adverte a especialista. “Para um país que sempre se apresentou em conferências internacionais como um estudante ambiental modelo, seria um sinal muito ruim para ceder ao lobby do carvão”, refere esta especialista.

Mas Merkel e Schulz garantem que os acordos de Paris e os objetivos europeus “não serão postos em causa”. Uma afirmação que os especialistas refutam: “Os acordos de Paris, obviamente, não serão alcançados se a Alemanha não cumprir com os seus próprios objetivos”, diz Claudia Kemfert.

“Também é hora de uma mudança na política de transportes”, acrescenta a especialista. No entanto, de acordo com as informações do semanário Der Spiegel, os negociadores também rejeitaram a fixação de uma data para o abandono do motor de combustão. Negociadores da “grande coligação” não teriam nem mencionado o abandono  dos motores a gasóleo ou gasolina como tem vindo a ser prometido por Merkel .

Outros países, como a França, já anunciaram intenções de sair dos acordos europeus. Novamente, o lobby do automóvel, como o lobby do carvão, mostra todo o seu poder e influência. É uma indústria poderosa na Alemanha que representa 800 mil empregos e um quinto das exportações alemãs. No entanto, a menor decisão de mexida nesta área é sempre um risco eleitoral. Há um ano Donald Trump anunciou a mesma coisa e logo foi sacrificado por todos os media internacionais!

Já com a França ou Alemanha os media assobiam para o lado… pontos de vista digo eu.

Foto: RTP

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