A Maldição da memória do Infante D. Pedro e as origens dos descobrimentos portugueses

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Por: Abílio Travessas

Pranto pelo Infante D. Pedro das Sete Partidas

(poema escrito na noite de 17.12.1961 e interrompido pela notícia da entrada dos soldados indianos em Goa)

Nunca choraremos bastante nem com pranto /  Assaz amargo e forte /  Aquele que fundou glória e grandeza / E recebeu em paga insulto e morte.

Abílio Travessas

A história de Portugal aprendi a gostar desde a Primária com os feitos dos nossos heróis contados na Escola de Refojos pelo professor Elias. Sabia de cor os reis e cognomes, navegadores e descobertas, conquistas africanas, as tomadas de Lisboa e Santarém aos mouros. Mais tarde, no Liceu da Póvoa, não tive professores que incentivassem este amor e os Compêndios de António Mattoso não eram muito apelativos, embora José Mattoso, seu filho, afirmasse que estavam bem sistematizados. Mas a história continuava a glorificar os feitos de heróis sem mácula, a manter os mitos, a memorização sempre dominante. Nada de contestações.

Depois de Abril começaram a cair muitos mitos que abundavam na historiografia do Estado Novo. Um deles, o do papel quase exclusivo do Infante D. Henrique, dito O Navegador,  nos Descobrimentos e na idealização dum pretenso Plano da Índia. Em contraste com este terceiro filho de D. João I, Alfredo Pinheiro Marques tem lutado pela reabilitação do papel do irmão, D. Pedro, duque de Coimbra, regente na menoridade do sobrinho, o futuro Afonso V. Este historiador, que durante vinte anos foi professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, é especialista em cartografia – Origem e desenvolvimento da Cartografia Portuguesa na época dos descobrimentos e autor de outros livros sobre a temática dos descobrimentos.

Foi tema de conversas na Antena dois, no programa Quinta Essência, sábados às dez, o seu livro biográfico que titula esta crónica, durante 5 semanas. É autor que muito aprecio e conheço desde as páginas do Jornal de Coimbra já na defesa da memória deste segundo filho de D. João I, comentando os painéis de azulejos sobre a vida do Infante das Sete Partidas no Palácio da Justiça da cidade do Mondego.

O livro, edição do Centro de Estudos do Mar, Figueira da Foz, tem alguma história, desde que o comecei a ler na Biblioteca Rocha Peixoto na Póvoa, passando pela Biblioteca Municipal de Mangualde, até o comprar em Viseu, na Livraria Sidarta, por preço algo proibitivo. Mas tinha que o comprar!

Quer no livro quer nas conversas com João Almeida, na Antena dois, Pinheiro Marques tem o propósito de desmontar o mito do Infante Navegador. Foi um prazer ouvi-lo  sobre os homens que fizeram as navegações, pilotos, homens do mar, do norte de Portugal, – especiais capacidades das populações do Litoral Noroeste em relação a todas as actividades marítimas…Ainda recentemente os pescadores, por exemplo da Póvoa de Varzim – no tempo de figuras como o “Cego do Maio” – eram perfeitamente únicos no seu género. Na sua perícia, na sua coragem não podiam ser comparados com nenhuns outros – de Aveiro, do aparecimento da caravela, das intrigas do bastardo D. Afonso, representante maior da aristocracia senhorial, contrária à expansão mercantil, mais interessada na conquista e saque no norte de África, que conseguiu, em Alfarrobeira, assassinar o seu meio-irmão… sem esquecer o grande D. João II, o verdadeiro responsável pelo Plano da Índia.

(Brevemente: 2ª parte) 

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