A seca

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António Fernandes Silva

Por: António Fernandes Silva

Pensamos sempre que as coisas tristes, más ou repentinas só acontecem aos outros.

E, quando algo menos favorável nos apanha nas curvas, encostamos à berma, a chorar baba e ranho, lamentando o infortúnio e clamando contra a cegueira dos deuses que, parecem, ter-nos abandonado numa cruz, onde os ladrões e malfeitores já não são expostos ou condenados.

Olhamos à volta, esperneamos contra a falta de apoio e de subsídios e esperamos que o céu, conforme as necessidades, as conveniências e circunstâncias, prolongue o bom tempo ou faça descer chuva abundante, carinhosa e redentora dos pastos e floresta queimados.

Se vier a chuva ansiada e repentina, capaz de encher rios e albufeiras, havemos de lamentar a sua força e falta de cuidado por entupir valetas e aquedutos e arrastar as cinzas e detritos que não fomos capazes de remover em tempo oportuno. E, quando a floresta começar a reverdecer, havemos de praguejar contra o seu crescimento porque nos tapa os caminhos que  impedem acessos fáceis a despejos de lixo, que gostamos de semear sem cuidado nem cerimónia, mesmo com algum ecoponto à porta de casa.

Parece que descobrimos a pólvora com os mandamentos e práticas para poupar água, na esperança que ela não falte. O consumo de energia também merece cuidados e cambalhotas, numa tentativa de preservar a qualidade de vida e a saúde do planeta.

Depressa se vai concluir que todos os cuidados são poucos e que todas as restrições pecam por tardias. Mas, com soluções transitórias e imediatas, esfregamos o umbigo, porque arranjamos alguma folga para tanto desespero.

E sorrimos com a ingenuidade solidária da gente simples e pobre que arranja forças e meios para lutar contra a corrente e se antecipa aos camiões que disfarçam a secura mental de quem se deixa prender nas teias da contagem do tempo e das progressões na carreira de profissionais que se arrogam direitos exclusivos na arte de ensinar a ler, escrever e contar ou de na dispensa de cuidados primários de saúde.

A gente das aldeias perdidas, que só o fogo e a desgraça tornaram conhecidas, continua de mãos cruzadas sobre o peito, à espera que os telhados da casa se cubram e as janelas se tapem para espantar o frio e a memória atordoada de sonhos desfeitos e de vidas destroçadas.

As sirenes deixaram de metralhar os ouvidos da cidade e de quantos conhecem as fronteiras do país real pela televisão. Os aviões e helicópteros podem entrar na oficina para retemperar a funcionalidade. As albufeiras e barragens podem esperar por melhores dias. Espera-se sempre   abundância de água. Toda a gente acredita que anos como este não voltarão a repetir-se. Podemos continuar a brincar às praias fluviais e aos Trabulos inaugurados duas vezes. Podemos fazer captações e centrais elevatórias decretadas pela fantasia de cartazes.

Mas não podemos – não devemos – brincar com a água nem com o fogo, porque ficamos sempre a perder. Uma seca-nos a vida. Outro queima-nos a história, a força e a alma.

A capital do míscaro é demasiado pequena para provocar os trovões que obrigam a gritar por Santa Bárbara e a acordar os sonhadores quando tudo está em perigo.

Mas, já diziam os nossos avós, “quem vai para o mar avia-se em terra”. Na linguagem de quem se habituou a viver com pouco, acautelando o amanhã, não se pode esperar que chova para comprar um guarda-chuva.

Um físico inglês do século XVII-XVIII (Thomas Fuller), que parecia conhecer-nos muito bem, deixou escrito que “enquanto o poço não seca, não sabemos dar valor à água”.

Uma simples e criteriosa lavagem das mãos ou dos dentes, multiplicada no cuidado de cada um, pode contrariar o desperdício que por aí vai. Será menos um camião de água a circular na estrada.

O planeta agradece todos os gestos de solidariedade.

Mesmo os mais pequenos.

Nem é preciso voltar a descobrir a pólvora. Basta saber ver e ouvir o tempo e o vento que passa para “saber novas do meu país”. Porque o vento não sabe “calar a desgraça”.

22.11.2017

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