A velha bicicleta do Estado Novo

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(Foto: Blog Rodas de Viriato)

Por: Abílio Travessas

O Portugal que conheci, na infância e juventude, anos 50/60, era pobre, burocrático, mesquinho e fechado nas modestas fronteiras continentais. A autoridade não se questionava – “não discutimos a autoridade e o seu prestígio” (Salazar – Discursos, Vol. II) e exercia-se com violência. As forças policiais e repressivas causavam medo, fosse a GNR ou o padre, o regedor, o Galante, nem por isso, falo da minha freguesia.

Abílio Travessas – colaborador Dão e Demo

Já os anos 80 se acabavam quando tive experiência, numa viagem de bicicleta até à Viana do Lima, de como a herança dos tempos de repressão não era facilmente esquecida. Sentados a retemperar as forças para o regresso, fomos inquiridos por agente policial sobre os documentos e placas identificadoras dos velocípedes. Apesar dos protestos, o zeloso agente fora do tempo, levou-nos para a esquadra, insólita procissão… Em chegados, dois presumidos carteiristas – era domingo de Festa da Srª da Agonia – poem-se em fuga vindos do interior do edifício-prisão levando à  perseguição pelos dois polícias, um deles o plantão. Pelo que ficámos livres para o regresso.

É uma “estória” cómica mas elucidativa da persistência da mentalidade das forças policiais. O uso da bicicleta, a imagem da bicicleta, estava ainda associada ao trabalhador na deslocação para o trabalho. Para que estes tempos não se esqueçam, reproduzo alguns artigos da Licença para Condução de Velocípede passada pela Secretaria da CM da Póvoa de Varzim, 2ª via, de 7 de Maio de 1979. Código do ciclista com a indicação das multas respectivas: 12. Usa uma buzina ou campainha de som agudo mas só em caso de necessidade para segurança do trânsito, mas nunca para chamar as pessoas, como é hábito (mau hábito) do padeiro, do azeiteiro ou do correio – 100$00. Trata-se o titular da licença com uma familiaridade afectuosa que não era prodigalizada ao condutor de automóvel… 18. Se tens filhos menores de 12 anos, não os deixes andar na bicicleta nas estradas nacionais – 200$00. Aos dez anos comecei a deslocar-me diariamente para o Liceu da Póvoa, de bicicleta. Não havia transportes públicos. 4. Nunca dês boleia, nem leves a mulher na bicicleta – 200$00. Além da multa é apreendida a carta e o velocípede. Era vulgar o homem levar a mulher ou o filho no quadro; normalmente o “suporte” era usado para mercadorias ou instrumentos do trabalho.

Como mudaram os tempos!  De meio de transporte mais usado no dia a dia, passou a meio de fazer actividade física para minorar o sedentarismo. Por mim, uso-a sempre que não chove – bastaram-me sete anos de luta contra a nortada, a chuva, o frio – na nossa Póvoa tão planinha, com pista que, esperemos, preencha  a que foi destruída e que nos levava da Vila ao Porto, na N13.

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