Alves Barbosa e Ribeiro da Silva, dois ciclistas dos anos cinquenta

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Por: Abílio Travessas

A história dos grandes ciclistas e suas rivalidades levam adeptos à idolatria nos grandes palcos da modalidade – França e o Tour, a Itália e o Giro, a Espanha e La Vuelta. São corridas centenárias, com exceção da espanhola, que acompanho na televisão também pelo prazer de a realização mostrar paisagens, monumentos e apontamentos de reportagem sempre de interesse. No cardápio do “amante” da modalidade entram ainda as “clássicas”, Paris-Roubaix talvez a mais famosa devido à dureza do pavé, Milão-S. Remo, Fleche Vallone, etc, etc… Para nós, portugueses, a Volta tem  história com começo em 1927, gerando os ídolos Trindade e Nicolau na década de trinta. Um novo ídolo surge em 1938, José de Albuquerque, o “Faísca”, natural de Mangualde, vencedor de duas Voltas, e que ainda conheci, em 1975, regressado de Angola, vagueando pelas ruas, morrendo atropelado depois de tragédia que lhe levou a família na guerra da libertação daquela colónia.

Alves Barbosa foi o meu primeiro ídolo e a rivalidade com Ribeiro da Silva marcou a velocipedia dos anos 50. Barbosa,  ciclista da região da Bairrada, natural de Montemor-o-Velho, corria pelo Sangalhos e distinguia-se dos restantes corredores por ser estudante, o que certamente contribuiu para o elegermos, eu, irmão e irmãs,  nosso preferido. Além das Voltas ganhas, ficou-me o 10º lugar no Tour de 1956: “Não havendo nesse ano qualquer equipa mista internacional, Barbosa foi integrado na turma do Luxembrgo , que tinha como leader o fogoso, irrequieto e valente Charles Gaul” (Gil Moreira, A História do ciclismo Português).

Ribeiro da Silva, do Académico do Porto, era um jovem ciclista, uma promessa com provas dadas a nível internacional; ainda como amador tinha vencido a clássica Paris-Evreux, vencera também no alto do Tourmalet (França) e terminou em 4º lugar na Vuelta de 57, com Alves Barbosa no 10º lugar. Morreu, jovem como querem os Deuses, num acidente de motocicleta. Iria ser o melhor, ao nível de Agostinho, talvez…

Esta rivalidade foi-me recordada por um programa da ESPN em A Bola-TV, baseado no livro Le Mond e Hinault – a maior volta a França de sempre. Os dois ciclistas faziam parte da mesma equipa, La Vie Claire, patrocinada pelo bem conhecido, nem sempre pelos melhores motivos, Bernard Tapie, que ofereceu 1 milhão de dólares ao americano. Era o Tour de 86 e a história começara no ano anterior com a 5ª vitória de Hinault, o Texugo, com a ajuda do americano contratado por Tapie para o objectivo. Na euforia da vitória o francês prometeu ao colega de equipa que o ajudaria a ganhar o seu primeiro Tour no ano seguinte. A reportagem começa com a etapa decisiva de Alpe d’Huez (ganha também por Joaquim Agostinho com nome em placa numa das 21 curvas em cotovelo) com vitória de Hinault e Le Mond, de amarelo, na sua roda, os dois isolados na meta. Mas quando tudo parecia na “paz dos anjos”, Hinault faz declarações que poem em causa a palavra dada ao dizer que a volta ainda não tinha terminado. “Fiquei estupefacto. Foi aqui que entrei em paranoia. Não se pode acreditar numa palavra que este tipo diz”- Greg Le Mond. A partir daí foi a guerra com o casal Le Mond (a mulher acompanhou-o sempre) a desconfiar de todos, até da comida e bebidas  fornecidas. Mas acabou com a 1ª vitória dum americano no Tour.

O desporto é um caldo cultural onde todas as virtudes  e maldades de que o homem é capaz aparecem com nitidez, sendo campo de estudo como qualquer outra área do homem como protagonista. A solidariedade, a amizade, o individualismo, o pior e o melhor estão sempre em qualquer modalidade, com destaque para as colectivas.

Foto: O Praticante

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