[Cinema] Três Cartazes à Beira da Estrada (2017)*

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*** (Vale a pena)

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (2017) | Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell | Realizado por Martin McDonagh | 115min.

Por: José Pedro Pinto 

É tão raro e tão bonito quando um filme consegue puxar os cordelinhos certos e fazer-nos querer espancar um tipo”

Não se deve julgar um filme pela sua primeira metade, e este Três Cartazes à Beira da Estrada é prova disso. As cenas iniciais seguem-se umas às outras atabalhoadamente, todas soando a dezenas de outras cenas que já todos vimos em dezenas de outros filmes. As personagens, o mesmo: os polícias bons e polícias maus, a mulher durona, o ex-marido violento, o filho adolescente revoltado… – todos soam a ecos de ecos de personagens mais que batidas. A música piora a coisa, puxando descaradamente pelos violininhos e pelo country nostálgico para tapar os buracos dramáticos.

Até que, chegado o filme a meio e depois de um clímax de poesia mundana numa carta de um polícia, – muito bela, por sinal, mas metida à força – há uma explosão de violência: filmado em plano-sequência, um polícia corrupto agride horrivelmente um jovem inocente. Totalmente injusto, absolutamente repulsivo, perfeitamente encenado – é tão raro e tão bonito quando um filme consegue puxar os cordelinhos certos e fazer-nos querer espancar um tipo, ou pelo menos vê-lo tropeçar e bater com o nariz no chão.

Depois dessa cena é ver o filme meter uma mudança que não se adivinhava que tinha: puxa de 1001 coincidências e nenhuma soa forçada (há algo mais belo numa narrativa que uma coincidência?), as pontas soltas e aparentemente desnecessárias juntam-se e ganham significado, os sacanas procuram a redenção através da autodestruição (há algo mais belo numa narrativa que a busca pela redenção?), os bons da fita tornam-se maus e destroem os sacanas; uma enorme onda de destino corre a narrativa toda e ata-a com uma bela fita de bondade e altruísmo. É uma proeza de argumento clássico raríssima, e muito boa de se ver. ***

*Crítica originalmente publicada na edição de 19 de Janeiro do Jornal do Centro.

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