[Crítica de Cinema] Paterson (2017)*

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*** (Vale a pena)
Paterson (2016) | Adam Driver, Golshifteh Farahani, Nellie the dog | Realizado por Jim Jarmusch | 118min.

* Crítica originalmente publicada na edição de 7 de julho do Jornal do Centro.

Alguém disse algum dia que “os filmes são sobre o que nos acontece enquanto os vemos”. Não me lembro quem e o google também não, mas gosto bastante dessa frase, e dessa ideia de cinema enquanto espelho – de que mais que o que se vê no ecrã e se ouve das colunas, o maior interesse de qualquer filme é a nossa reação individual à perceção desses dois elementos.

Em termos literais, Paterson é sobre um homem que acorda de manhã – uns dias um pouco mais cedo, outros um pouco mais tarde –, come qualquer coisa e vai para o seu trabalho – conduzir autocarros pela cidade americana de Paterson – até ser hora de voltar para casa, para a sua companheira e para o seu cão. Mas na verdade, não é sobre nada disso: é sobre as pequenas diferenças que há entre um dia e o próximo, insignificantes no meio de tanta coisa igual, significantes por isso mesmo.

Mas também não é bem sobre isso: é mais sobre a maneira como o motorista de autocarros repara nesses detalhes e os transforma em poesia. Ou se calhar é sobre como ele não dá por eles, e o espectador é que dá e os impinge à personagem que vê no ecrã. Sim, talvez seja ainda mais sobre isso: sobre a cara do motorista, que olha e não reage, e que nos permite por isso ver nela um reflexo das nossas próprias reações (no meu filme-espelho, vi tranquilidade, e calhou bem porque não tenho visto muita nos espelhos cá de casa).

Então se calhar, ainda mais que tudo o resto, Paterson é sobre tranquilidade e aceitação. Se bem que não deixa de ser curioso como os filmes todos que tenho visto ultimamente são sobre isso… Não deixa de ser curioso como, no fundo, todos os filmes que vi na vida são sobre mim. ***

Por: José Pedro Pinto

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