Declaro Viseu capital de Portugal!

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Inês Pina

Por: Inês Pina

Se Trump pode definir a capital de um país onde nem vive, eu sinto que também tenho direito a definir uma nova capital, mas no meu país. Sim, eu tenho os meus critérios sobre definições de capitais, apenas defino capitais no país onde vivo!

Assim sendo, elejo Viseu como capital de Portugal.

Alguém tem algo a opor?

Vejam bem, Viseu é uma cidade limpa e bem organizada, várias vezes eleita a melhor cidade para viver. Pouco trânsito, facilidade relativa em estacionar, casas mais acessíveis (ou então não, que se passa com estes preços?), parques verdes e giros, ar puro…enfim só vantagens! Uma mudança de parlamento e os nossos governantes viviam muito melhor! Toda a gente sabe que Lisboa está a abarrotar.

Estão todos comigo, certo?

Está definido?

Vá, mandem lá o Marcelo assinar o decreto presidencial e a coisa está feita. Foi isto que fez o Trump. Fácil.

Simples assim, declara-se Jerusalém como capital de Israel. Ou então não. Jerusalém não é complexa, tem em si um emaranhado de locais sagrados que ao longo da história têm sido alvo de acesas disputas entre cristãos, judeus e muçulmanos. É uma cidade com quase 1 milhão de habitantes que poderia passar despercebida não fosse o Monte do Templo, como é conhecido entre judeus e cristãos; ou Esplanada das Mesquitas, como a designam os muçulmanos. Ali, estão concentrados três locais de alta importância para o judaísmo, cristianismo e islamismo.

No primeiro caso por ali ter sido destruído o Templo de Salomão e também o Segundo Templo, do qual resta apenas o Muro das Lamentações.

No caso do cristianismo, por ali terem ocorrido vários episódios bíblicos, entre eles o julgamento e a crucificação de Jesus Cristo.

Finalmente, é o terceiro local mais sagrado para o islão (depois de Medina e Meca), por se acreditar que foi ali que o Profeta Maomé ascendeu ao paraíso e recebeu o ensinamento do segundo dos cinco pilares do islamismo.

Mediante todo este simbolismo compreende-se a fragilidade da cidade. Só para que tenhamos uma ideia já foi destruída pelo menos duas vezes, sitiada 23 vezes, atacada 52 vezes e capturada e recapturada outras 44 vezes.

Os EUA e Israel têm uma relação de grande proximidade — e muitas vezes Jerusalém entra nessa equação. É frequente os presidentes dos EUA irem a Jerusalém. Tornou-se mesmo uma tradição política e diplomática. Ora, visitar Jerusalém ou deixar-se fotografar em oração junto ao Muro das Lamentações é uma coisa; reconhecer aquela cidade como capital de Israel, indo contra aquilo que é o consenso internacional, é outra.

Até agora, os vários presidentes dos EUA têm recusado reconhecer Jerusalém como a capital de Israel. Essa posição manteve-se até agora. Em 1995 o Congresso norte-americano — com ambas as câmaras controladas pelos republicanos —aprovou o “Jerusalem Embassy Act”, que obrigava Bill Clinton, democrata, a transferir a embaixada para Jerusalém.

Porém, desde essa altura, os presidentes que se seguiram têm diferido a implementação daquele decreto, alegando a defesa dos interesses da segurança nacional dos EUA.

Agora, Donald Trump decidiu permitir a implementação desse decreto para cumprir uma promessa eleitoral. Já se sabe que o homem gosta de cumprir promessas! Com esta medida Trump está a resolver problemas domésticos. Fica bem visto junto da comunidade judaica dos EUA, que há muito tempo exige esta medida. Este é um público que, embora não massivo, tem donativos altamente cobiçados em campanha. A partir de agora, as contas podem ser mais fáceis quando chegar a altura de voltar a garantir o apoio de doadores judaicos que já investiram na sua campanha — como o empresário Robert Kraft e o magnata dos casinos Sheldon Adelson — ou outros que até agora hesitaram no seu apoio ao republicano.

Não se trata só de resolver problemas de liquidez. Trump tem em vista a resolução do problema com Fynn, (este daria pano para mangas) ganhando um aliado de peso, Netanyahu.

Basicamente estão em causa problemas domésticos. Porém, colocou-se em cheque toda uma linha frágil de cessar fogo que estava instalada.

Trump continua a achar que pode brincar aos presidentes.

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