“Dia da mulher 2018: Papa deixa mensagem de admiração e gratidão”

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Por: Abílio Louro de Carvalho

 O Papa Francisco assinalou hoje a celebração do Dia Internacional da Mulher com uma mensagem de gratidão, através da sua conta no Twitter, onde escreveu para os seus cerca de 50 milhões de seguidores:

Agradeço a todas as mulheres que, todos os dias, procuram construir uma sociedade mais humana e acolhedora”.

Abílio Louro de Carvalho

Francisco tem recordado em várias ocasiões as mulheres que mais influenciaram o seu caminho de fé, como a sua avó Rosa, repetindo em diversos discursos que “a Igreja é feminina, é mãe”.

Na véspera deste dia 8 de março foi apresentado um livro prefaciado por Francisco, no qual este se mostra preocupado com “a persistência de uma certa mentalidade machista”, mesmo nas “sociedades mais avançadas”.

O Papa denuncia a violência contra as mulheres, objeto de “maus-tratos, tráfico e lucro”, bem como na exploração de “certo tipo de publicidade e na indústria do consumo e da diversão”.

No prefácio que escreveu para o livro de Maria Teresa Compte, ‘Dez coisas que o Papa Francisco propõe às mulheres’ (Publicações Claretianas), o Pontífice convida a uma “renovada investigação antropológica”, para aprofundar a identidade feminina e masculina à luz dos “progressos da ciência e das atuais sensibilidades culturais”.

Embora mantenha a inibição do acesso das mulheres ao sacerdócio (mas constituiu uma comissão para o diaconado no feminino), Francisco tem dado passos significativos na atribuição que lhes vem dando de alguns cargos de responsabilidade eclesial. Assim, em fevereiro, nomeou a Irmã Carmen Ros Nortes como subsecretária da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica (Santa Sé). E, já em novembro de 2017, tinha nomeado duas mulheres como subsecretárias do novo Dicastério para os Leigos, Família e Vida (Santa Sé), reforçando assim a presença feminina na Cúria Romana. Gabriella Gambino, professora de Bioética, foi indicada para a secção para a Vida desde organismo, e Linda Ghisoni, especialista em Direito Canónico, recebeu a nomeação pontifícia para a secção da Família.

A presença feminina na Santa Sé inclui responsabilidades nos departamentos da Cúria Romana e nas áreas dos arquivos, da história e da comunicação social.

Atualmente, a jornalista espanhola Paloma García Ovejero é vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé; Margaret Archer preside à Pontifícia Academia de Ciências Sociais; e Barbara Jatta é a primeira diretora dos Museus Vaticanos desde janeiro de 2017.

E hoje, Dia Internacional da Mulher, o Papa nomeou como única voz feminina do Conselho pré-Sinodal a brasileira Irmã Irene Lopes dos Santos S.C.M.S.T.B.G., assessora da REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazónica), que fala da sua alegria pela nomeação, em representação da CLAR, Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas, para o Conselho pré-sinodal e, declarando que quer ser ‘voz de todas as pessoas da Amazónia, principalmente das mulheres, diz: “Seremos os portadores das vozes de todos os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e urbanos da área que representa mais de 60% do território nacional”.

Neste dia 8 de março, também o Vatican News (Serviço de Informação da Santa Sé) homenageia as mulheres com imagens que demonstram a admiração de Francisco por elas. Com efeito, nestes seus cinco anos de pontificado, foram inúmeras as ocasiões em que o Santo Padre manifestou seu carinho às mães, consagradas e leigas com gestos emblemáticos e palavras importantes para recordar a todos que as mulheres são capazes de ver sempre mais além.

Em sintonia com o Papa, também o Prefeito da Congregação para a Vida Consagrada, o Cardeal João Braz de Aviz, deixou a sua mensagem a todas as mulheres e, em especial, às consagradas com palavras de reconhecimento e bênção pelo seu ser, papel e ação na linha de serviço a Deus, à Igreja e ao mundo, na verificação de que não há homem que não tenha nascido de mulher e no pressuposto da complementaridade na família, na Igreja e na sociedade. Obviamente que o purpurado enalteceu sobretudo a mulher consagrada.

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Dizer que o “Papa Francisco tem tido uma palavra luminosa” configura a forma como a Vice-Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz em Portugal (CNJP) vê o modo como Francisco tem defendido a dignidade da mulher.

Em entrevista à VATICAN NEWS no contexto da nota que aquele organismo da Conferência Episcopal Portuguesa divulgou para o Dia Internacional da Mulher, Maria do Rosário Carneiro acentua que “a Humanidade é feita de homens e mulheres iguais na sua dignidade”. E, frisando que “só esta paridade, esta igualdade de situação, é que permitirá que o caminho dos povos seja feito em paz e seja feito com desenvolvimento”, aquela dirigente destaca algumas preocupações do documento da CNJP sob o lema ‘O sentido da vida e o caminho dos povos’. Desde logo a violência sobre as mulheres, “as mulheres que não chegaram a nascer porque eram mulheres ou iam ser mulheres, mulheres que são mortas à nascença porque são meninas”. Depois, refere a violência doméstica e “a desigual remuneração”, revelando alguns dados: em Portugal 80% da violência na esfera doméstica “é praticada sobre mulheres”; as mulheres “ganham em média em Portugal menos 17% do que os homens para trabalho igual”; e 31%, em média, das mulheres mais velhas têm pensões significativamente mais baixas do que as dos homens.

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No Vaticano, está a decorrer, entre 6 a 9 de março, a Assembleia Plenária da CAL (Pontifícia Comissão para a América Latina) dedicada à mulher latino-americana, para a qual foi convidado, a título excecional, um grupo de mulheres. O tema escolhido pelo Papa para esta Plenária da CAL é “A mulher, pilar da edificação da Igreja e da sociedade na América Latina”. A este propósito, lê-se num comunicado de imprensa adrede divulgado:

Já que todos os membros e conselheiros da CAL são cardeais e bispos, desta vez – em caráter excecional – foi convidado para a Plenária um grupo restrito de personalidades femininas provenientes da América Latina, com diferentes cargos de responsabilidade sociais e eclesiais. Sua presença, competência e experiência serão fundamentais para enriquecer as reflexões e intercâmbio de ideias no decorrer da Assembleia.”.

O programa prevê quatro conferências: a Professora Ana Maria Bidegain destaca “os obstáculos e os pontos de força para a promoção da mulher na realidade latino-americana”; o Prof. Guzmán Carriquiry fala das mulheres que marcaram “a guinada de uma transformação cultural”; o Cardeal Francisco Robles apresenta o tema “a presença de Nossa Senhora e o papel da mulher na evangelização dos povos latino-americanos”, e o Cardeal Marc Ouellet, Presidente da CAL fala sobre “a mulher à luz do mistério da Trindade e da Igreja”. Há ainda uma série de painéis sobre temas relacionados com o universo feminino. E, no final, está prevista uma audiência com o Pontífice na manhã do dia 9 de março.

A última vez que Francisco falou da situação da mulher latino-americana foi na sua recente viagem ao Peru, em janeiro passado, quando denunciou o “machismo” na região, que comporta discriminações no trabalho, condições de pobreza e indigência e a violência que, muitas vezes, provoca casos de feminicídio.

À margem dos trabalhos da CAL, em que participa, o Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, fez hoje declarações à Rádio Vaticano, em que releva a igualdade em dignidade do homem e da mulher com base na teologia e na antropologia cristãs; as distorções a essa igualdade espelhadas na mentalidade que perfilha a inferioridade da mulher e nas relações de violência, desprezo, prepotência e injustiça bastante frequentes; o papel específico da mulher na família, na Igreja e na sociedade; e a complementaridade entre homem e mulher.

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Por seu turno, o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura em Portugal publica hoje um artigo sob o título “Papa Francisco, o mundo e a Igreja no feminino”, de Luciano Moia, traduzido do Avvenire em que se afirma que o Papa “sonha uma Igreja pobre, mas também uma Igreja ‘esposa e mãe’, porque a mulher é o grande dom de Deus, é a harmonia do mundo”. E o articulista, que vê intensidade lírica no discurso papal sobre a mulher, releva a profundidade teológica presente nas atitudes e no discurso papal. Como atitude última, ressalta a inscrição no calendário litúrgico da memória da Virgem Maria Mãe da Igreja; e, no discurso, ressalta a denúncia da “persistência de uma certa mentalidade machista, inclusive nas sociedades mais avançadas, nas quais se consumam atos de violência contra as mulheres, vítimas de maus-tratos, de tráfico e lucro, bem como reduzidas a objetos em alguma publicidade ou na indústria do entretenimento”.

Porém, segundo o autor, a “marca feminina” mais original de Francisco é “a sua atenção ao papel materno, quer nos muitos acenos dirigidos à mãe Virgem Maria e à avó Rosa, “mas sobretudo pelo que escreveu nos seus textos mais significativos. Assim, na “Amoris laetitia” (AL), ao evidenciar a queda da natalidade, frisa:

O enfraquecimento da presença materna, com as suas qualidades femininas, é um risco grave para a nossa terra”.

Assim, reconhece no “compromisso materno”, tão relevante como as “qualidades tipicamente femininas” a conferição de deveres, “já que o seu ser mulher implica também uma missão peculiar nesta terra, que a sociedade deve proteger e preservar para bem de todos” (AL n. 173).

Também são recorrentes no Papa os temas “da paridade e da reciprocidade homem-mulher”, pois a mãe, “para destacar as suas caraterísticas de maneira equilibrada, precisa de interagir com um homem-pai num plano de igual dignidade”, como recordou, por exemplo, na audiência geral de 22 de abril de 2015:

Quando finalmente Deus apresenta a mulher, o homem reconhece, exultante, que essa criatura, e só ela, é parte dele. (…) Finalmente há um espelhamento, uma reciprocidade. A mulher não é uma ‘réplica’ do homem; vem diretamente do gesto criador de Deus. Homem e mulher são da mesma substância e são complementares.”.

Por outro lado, a perspetiva da reciprocidade e da igual dignidade levou o Papa a acolher a denúncia sobre religiosas às vezes tratadas como escravas pelos seus superiores, sem horário de trabalho e retribuição salarial” (denúncia da revista “Donne Chiesa Mondo”, ligada ao “L’ Osservatore Romano”), tal como tem escalpelizado as situações de violência, exploração, comercialização, mutilação e descarte em relação à mulher.

É também em nome da dignidade e da reciprocidade que Francisco se refere à teoria do género. Não o faz em referência casual “a uma lógica criticada a partir duma perspetiva ideológica”, mas para “não fragilizar a ‘beleza e a verdade’ da reciprocidade homem-mulher”. Assim, a 4 de outubro de 2017, perante a Academia Pontifícia para a Vida, salientou que a “utopia do neutro”, ao invés de “contrastar as interpretações negativas da diferença sexual, que mortificam o seu valor irredutível para a dignidade humana”, tende a diminuir e até a eliminar, de facto, essa diferença por meio de “técnicas e práticas que a tornam irrelevante para o desenvolvimento da pessoa e para as relações humanas” – o que acaba por redundar “em discriminação contra a mulher”. É temática já abordada a 7 de fevereiro de 2015, perante a assembleia plenária do Conselho Pontifício da Cultura, ao encorajar “as mulheres as não se sentirem ‘hóspedes’, mas ‘plenamente participantes dos vários âmbitos da vida social e eclesial’, desejando também um maior envolvimento das mulheres nas responsabilidades pastorais”.

Neste sentido, Francisco deseja indubitavelmente “um aprofundamento teológico da presença da mulher na Igreja”. Logo a 12 de outubro de 2013, falando ao então Conselho para os Leigos, interrogava-se sobre a presença que a mulher tem na Igreja. E agora, no prólogo do livro “Dez coisas que o papa Francisco propõe às mulheres”, mostrou-se preocupado pelo facto de “na própria Igreja o papel de serviço a que cada cristão é chamado” deslizar, “no caso das mulheres, por vezes, para papéis que são mais de servidão do que de verdadeiro serviço”.

***

E, a assinalar o Dia da Mulher, se transcrevem segmentos dum texto de  Pearl Drego,  membro do Movimento Graal, Índia (In Deus é o existirmos e isto não ser tudo”, ed. Paulinas):

Quem é a mulher? – Uma criação divina.
Como é a sua natureza? – Saturada de graça.
Com que é que se parece a mulher? – Com a bondade e a inteireza.
Que destino é o seu? – Seguir Jesus e continuar a obra divina pela palavra e pela vida.

O espírito da mulher é sublime: um dom de Deus.
A sua alma é divina: chega às estrelas.
O corpo feminino é sagrado: merece o nosso respeito.
O seu trabalho é santo: que o possa realizar em paz.
O seu gesto de afeto alimenta: aceitemo-lo com alegria.
As palavras da mulher são belas: há que ouvi-las atentamente.
O cuidado feminino conforta e acalma.

O seu contributo é sacerdotal: abençoado do Alto.
O alimento é vital para a mulher: há que alimentá-la bem.
Os milagres femininos são magníficos: acreditai e rejubilai.
São como diamantes as lágrimas das mulheres: guardai-as com carinho.
A zanga das mulheres é criativa: procurai a sua razão.

(…)

A maternidade é salvífica: um privilégio para todos.
Das mulheres, a privacidade é limitada: há que dar-lhe mais espaço.
A sua esperança de vida é longa: expandi-a mais ainda.
Os gritos das mulheres ainda se fazem ouvir: correi a defendê-las.
A casa das mulheres irradia segurança: ajudai-as a manter tal segurança.
Os seus direitos dão-lhe dignidade: ajudai-as a mantê-los.
A sua coragem é contagiosa: aprendei com a sua coragem.
A legislação feita por mulheres é poderosa: elegei mais mulheres.
Quando cantam, as mulheres são expressivas: assimilai os seus temas.
O seu serviço é genuíno: possamos todas fazer florir esse impulso.
O seu sucesso é imenso: recompensemo-lo em abundância.
A firmeza das mulheres transborda ternura: aprendamos a sua força.

A sua paciência é transbordante: que em nós ressoe em profundidade.
A sua política é corajosa: assumamos a mesma bandeira.
O calor feminino dá energia: confiemos no seu olhar.
A construção feminina da paz é fonte de vida: apoiemos o seu esforço.
As mulheres sabem como rezar: Deus escuta-as sem demora.
A sua caridade é singular: dirige-se ao coração.

Que Deus abençoe todas as mulheres da Terra,
E nos abençoe a nós também!

2018.03.08 – Louro de Carvalho | Foto: Vatican News

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