Dois homens, uma luta de ‘pilas’ e um país que tira partido disto!

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Inês Pina

Por: Inês Pina

Andamos há anos a tentar ver qual o timing para a terceira grande guerra. Recordo, nos tempos de escola, a tabela de causas e consequências que antecederam as duas grande Guerras. Conseguia elencá-las e compreende-las. Os tempos que se vivem, são sem dúvida caóticos. Voltam a aparecer muitas das mesmas causas de outrora. De facto, as relações tendem sempre a viver-se numa ténue linha. Contudo, ninguém quer ser o primeiro a quebra-la. Pelo menos para já!

A 19 de setembro de 2017 na cimeira da ONU ouvimos Donald Trump dizer que “destruía toda a Coreia do Norte” Estavam a passar furacões atrás de furacões no Caribe. Pouco tempo depois o México viu morrer centenas de pessoas num sismo. Tudo à volta sentia as negadas alterações climáticas, por Trump. Todavia, este continuava igual a si próprio! Num discurso, vazio de vontade política de fazer diferente e cheio de vontade de mostrar superioridade!

Se Pyongyang fez diferente? Não. Este prometeu “dor e sofrimento” aos EUA. É um ditador, que conhecemos de cor e salteado. Está do outro lado do mundo a ansiar que o mundo olhe para ele e para a sua força. Por isso, acorda os japoneses com mísseis, como se fosse uma diversão de pequeno almoço.

O que se tem sentido é que estes dois gostam de ir largando jargões e demonstrando que têm armas a ganhar pó! Já se percebeu que nenhum dos dois quer avançar para intervenções militares. Ambos perderiam.

Quem pode ganhar com esta “brincadeira”? A China.

A hábil estratégia chinesa de ataque à liderança mundial foi testada em Davos, na Suíça, durante o Fórum Económico Mundial de 2017. Foi facilitada pela não perceção de muitos. Aproveitando a consternação da generalidade dos aliados dos EUA — sobretudo dos europeus, mas também asiáticos —, pelas intenções de Donald Trump se afastar da ordem liberal (económica e política) criada no pós-II Guerra Mundial, o Presidente da China, Xi Jinping, mostrou determinação em liderar a globalização económica e comercial. Mais do que isso, procurou também apresentar-se, aos olhos dos aliados tradicionais dos EUA, como um líder responsável e comprometido com a paz e estabilidade internacional, em antítese com o “grande desestabilizador”, Donald Trump. A China surgia como sucessor “natural” dos EUA na liderança do mundo do século XXI.

A diplomacia dos EUA face ao programa nuclear da Coreia do Norte tem tido um acumular de falhanços desde os anos 1990. Primeiro foi o falhanço de Bill Clinton. No acordo de 1994, a Coreia do Norte comprometeu-se a congelar toda a atividade nos seus reatores nucleares, a permitir inspeções internacionais e a desmantelar as instalações nucleares existentes. No entanto, os norte-coreanos violaram o acordo a partir de finais dos anos 1990, com enriquecimento de urânio num laboratório secreto. Essa violação, que já era conhecida por George W. Bush no seu primeiro mandato, não levou qualquer reação enérgica dos EUA. Barack Obama — e Hillary Clinton — acentuaram o falhanço nesta questão. A política de “paciência estratégica” apenas permitiu ao regime Kim Jong-un prosseguir com o seu programa nuclear. Na prática, não teve que enfrentar quaisquer consequências sérias. Com este historial de falhanços diplomáticos, e com Donald Trump no poder nos EUA, a China viu uma oportunidade estratégica para aumentar a sua afirmação internacional. Pretende afastar, o mais possível, os EUA da Ásia-Pacífico, substituindo a pax americana por uma pax sinica. É, também, uma vingança contra os EUA, em especial, contra Donald Trump. Este chegou ao poder apontando o dedo às práticas comerciais chinesas falando em rever a situação internacional de Taiwan (a Formosa), algo que espicaçou o orgulho nacionalista chinês — para o governo de Pequim é apenas uma “província rebelde”.

No fundo, a China faz o papel de potência responsável empenhada na paz e estabilidade internacional. Ao mesmo tempo, deixa o papel de agitador e provocador para a Coreia do Norte, que não quer desempenhar porque lhe danificaria a imagem, mas lhe é frequentemente conveniente em termos geopolíticos.

Este triângulo está bem montado!

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