Educar sem facilitismos!

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Inês Pina

Por: Inês Pina

Há uns tempos estava uma grupeta em amena cavaqueira. Era um final de dia muito esgotante, com poucas horas dormidas, alimentação pouco adequada e com muito esforço físico. Mas, o final do dia pediu um momento de relax antes da ida para casa. Uns puxaram do cigarro, outros serviram-se de um copo. Os corpos aterraram desleixados e desmazelados nas cadeiras.

Conversa puxa conversa e quando demos por nós, havia uma disputa.

Não me recordo como começou, provavelmente alguém disse algo: “eu faço 2000!” e pronto, tudo a querer provas e factos. Cronómetros em riste, júris em linha reta, tudo a postos.

Estávamos a falar de flexões. Havia aí uns dez homens (neste grupo cada um deles gosta de medir quem é o maior) e umas quatro ou cinco mulheres. O desafio estava montado. Os mais afoitos atiraram-se ao chão. Sacaram as suas mega habilidades. Ele era flexões com palmas à frente, palmas nas costas, flexões com pinos… tudo servia!

Olharam para as alminhas que até então lançavam bitaites e pedem que se juntem. O repto estava dado.

Eu sou muito pouco preparada fisicamente. Estou ao nível de uma lontra. Tenho muita atividade física, mas, muito pouco exercício físico. Às vezes corro, porque me liberta a mente. Outras vezes faço uns exercícios localizados. Mas, basicamente é quando me lembro que estou a chegar aos trinta. Depois passa e volto à lenga, lenga de que não tenho tempo e bla, bla…

Porém, quando toca a desafios eu lá me chego à frente e faço peito. Por acaso, até tenho força física, e por acaso até acho piada a flexões.

Lá me fui a baixo para logo a seguir me erguer, orgulhosamente com os meus dois bracinhos. Fiquei a fazer par com um colega que, em virtude do trabalho, todos os dias faz flexões, abdominais e outros que tais.  Portanto, a pica era maior. Lembro-me de que houve o momento de desistir, mas lá fiz mais algumas (a minha mãe, nos bolos da páscoa, costuma dizer: mete mais uma colher de açúcar e azeite para as alminhas) eu lá fiz umas quantas flexões para as alminhas.

Perdi.

Não foi o perder que me deixou aziada, foi o fato da minha colega (quando chegou a vez dela) ter pedido para fazer flexões mais fáceis. Lembro-me de nas minhas aulas de educação física, ter a opção de fazer flexões com as pernas cruzadas. Quando me foram apresentadas, disseram que era para as meninas. Na altura não refleti sobre isso. Sempre fui má a educação física, mas sempre fiz tudo com o mesmo grau de dificuldade. Nunca fui muito apologista de facilitismos.

Sou uma grande defensora de que a a corrida deve ser corrida por todos. É óbvio que uns partem descalços. Eu nunca parto de uma corrida descalça apenas e só, por ser mulher! Isso é premissa basilar. Se me põem pedras no caminho por eu ser do sexo feminino, quem as coloca é que está errado. O mesmo se aplica a cores de pele diferentes, a opções sexuais e por aí fora.

Facilitar, só dificulta.

Sempre que estamos a facilitar, não estamos a dar a carapaça para a luta. E meus caros, na hora da luta tem que se lutar, ou caso contrário sucumbimos. È aqui que se cria o ciclo vicioso: não preparados = a mais frágeis /mais, frágeis = estereótipos.

É aqui que se encerram muitas diferenças num ciclo vicioso e inquebrável. Facilitar e categorizar é talvez dos maiores handicaps sociais. Como se combate? Com uma educação forte. As armas são os livros, as canetas… Se estes vêm comprometidos, não estamos a educar. Não estamos a preparar para a luta da evolução. Estamos a regredir.

A educação é a aliada dos desafios, o confidente nas viagens. Nunca se podem manipular, não pode ser castradora de uma liberdade que se quer difundida neste mundo. Não pode criar barreiras, não podem categorizar.

A educação é a arma de uma sociedade que tem de voar sem barreiras, sem gavetas. Nunca nos pode limitar, só libertar!

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