Faleceu Artur Carlos, locutor de rádio, ele que fez do Lar Sol a sua “residência”

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Em memória de Artur Carlos Abreu – locutor de rádio e repórter em Moçambique, e que, atualmente, colaborava com diversos órgãos de comunicação social da região – falecido esta segunda feira, dia 1 de janeiro, republicamos, hoje, a entrevista que ele concedeu ao Dão e Demo em 29 de janeiro de 2016.

Acrescentamos ainda que no dia 24 de dezembro estivemos com ele, vestido de Pai Natal, a distribuir alegria aos idosos que com ele compartilhavam o Lar Sol, em Carcavelos, freguesia de São Pedro de France, concelho de Viseu, lar que ele adotou como “a sua residência”, precisamente, até este início de 2018, data da sua partida.

Obrigado.

EIS O TEXTO INTEGRAL DA ENTREVISTA

É natural do Buçaco – Luso, concelho da Mealhada, de uma povoação, como ele nos diz, “perdida nos finais da Beira Litoral, fronteira com a Beira Alta.”

Falamos de Artur Carlos da Silva Abreu, o nosso convidado para esta entrevista, ele que residiu muitos anos em Moçambique, onde desempenhou muitas atividades profissionais e que, neste momento, reside no Lar Residencial Sol, em Carcavelos – São Pedro de France, no concelho de Viseu, sendo colaborador assíduo de vários órgãos de comunicação social, entre os quais a Rádio Alive FM, com sede em Sátão.

E nesta conversa, Artur Carlos começou por nos falar da sua terra, do Buçaco, e da história a ela associada para dizer que é uma povoação “que parou no tempo, mas muito grande na História de Portugal. Foi a 27 de Setembro de 1810 que as tropas anglo-lusas sob o comando do General-Tenente Arthur Wellesley, duque de Wellington, derrotaram o famoso exército francês comandado pelo Marechal Massena.”

E prosseguiu o nosso convidado, dizendo que “este trajeto bélico foi quase o final da Guerra Peninsular que viria a ter o seu ponto final na célebre Batalha das Linhas de Torres.”

Mas Artur Carlos Abreu quis também enfatizar outros aspetos da sua terra: “Para além da parte histórica que já relatei, muito sucintamente, o Buçaco orgulha-se da sua luxuriante mata, obra dos Frades Carmelitas que ali se instalaram por ordem do Bispo de Coimbra. A Mata do Buçaco com 400 hectares, toda vedada, é a prova de um trabalho carregado de glória dos Frades Carmelitas que construíram também o Convento de Santa Cruz do Buçaco entre os anos de 1628-30. Ainda hoje podemos admirar junto do Convento uma oliveira, onde Wellington prendeu o seu cavalo enquanto descansava no Convento numa cela dos Frades Carmelitas. O Palácio Hotel é outra grande obra com uma história magnífica.”

Sobre a sua vinda para o Lar, onde atualmente reside, Artur Carlos fala-nos com particular emoção: “A minha vinda para o Lar-Residencial Sol, foi uma decisão pessoal para continuar a acompanhar a minha esposa que estava gravemente enferma. Acompanhei-a até ao seu último momento de vida, no quarto 21 desta magnifica instituição particular.”

E prossegue: “Após a morte de minha mulher, poderia sair para continuar a minha vida, mas… há sempre um MAS na vida. A vivência muito íntima com os utentes e demais pessoal, a liberdade que me foi dada para poder continuar a exercer a minha vida pessoal e profissional, tudo com o devido respeito, a autorização para a instalação de um pequeno estúdio, onde trabalho, pesquiso e preparo parte dos meus trabalhos de Rádio… tudo isso pesou.”

“O lar Sol faz parte do ‘meu eu’, onde empregados e utentes já fazem parte também da minha família.

E acrescenta: “O lar Sol faz parte do ‘meu eu’, onde empregados e utentes já fazem parte também da minha família. Aqui estou autorizado a sair das instalações, fazer o meu dia-a-dia no exterior, apenas com a obrigação de informar os responsáveis das horas de saída e regresso. Escolhi, penso eu, o melhor para o resto da minha vida.”

Artur Carlos especifica mesmo algumas atividades que desenvolve no próprio Lar: “Colaboro com a gerência na elaboração diária do jornal do Lar, com notícias de última hora a níveis nacional e internacional, lembrando também, através de leituras, os mais importantes momentos históricos que fazem parte da nossa vida. O Natal, que é a festa mais importante da família, também tem a minha colaboração, fazendo de Pai Natal. Profissionalmente presto a minha colaboração na Rádio onde sou locutor, produtor e realizador de programas, sobretudo os meus. Na Rádio Alive FM cada colega é um amigo.”

“…em Moçambique aprendi a ser homem…”

Mas a conversa avança também para Moçambique onde Artur Carlos Abreu passou muitos anos da sua vida profissional. E sobre Moçambique diz: É o meu segundo país e a cidade da Beira, a minha segunda terra natal. Em Portugal e no Buçaco, o Artur Carlos veio ao mundo, em Moçambique e na cidade da Beira aprendi a ser homem, onde trabalhei muito.”

E recordando esses tempos diz-nos: “Fui para Moçambique, na altura uma Província de Portugal, como a Beira Alta, e fui para lá assim como tantos milhares de Portugueses, com carta de chamada, como se fosse para o Brasil ou para França.”

E aqui, Artur Carlos fala deste aspeto como tendo sido “um dos maiores erros do Governo de Ditadura de então. Tantos milhares de Portugueses que quiseram emigrar para as nossas terras de além-mar e foram impedidos porque o governo de então, não permitiu.”

Para de seguida dizer: “Mas o Destino marca a hora e marcou na entrega de Moçambique provocando a maior onda de regresso a Portugal de tantos milhares de portugueses e naturais a que chamaram ‘Retornados’.”

Quanto às atividades profissionais desenvolvidas, Artur Carlos explana-as todas: “Fui profissional de rádio, produtor de programas, realizador, locutor de estúdio, apresentador de espetáculos, noticiarista, programador, fiz reportagens, teatro radiofónico, mas antes de me ligar à rádio fui empregado de restaurante. Foi mesmo esse o primeiro trabalho que exerci em Moçambique. Mas também fiz seguros, estive muito ligado à produção de cana-de-açúcar, etc, etc.”

Quanto ao fim da sua presença em Moçambique diz-nos: “Regressei a Portugal porque houve um 25 de abril de triste memória que ditou a pouca sorte de milhares de portugueses residentes em Moçambique, Angola, Guiné-Bissau.”

Quanto a histórias marcantes vividas em Moçambique diz-nos: “Estive preso pelo Governo de Moçambique por ser Português e também me marcou muito a reportagem para acompanhar o Presidente da República Almirante Américo Tomás.”

Mas fala ainda de outros momentos, das “reportagens a vários países africanos, das aventuras na mata africana, no ar e no mar e que foi muito marcante ter conhecido e apresentado grandes artistas portugueses e estrangeiros. Guardo, aliás, com saudade a apresentação da nossa grande D. Amália Rodrigues e outros grandes valores da música portuguesa e internacional.”

“Se não tivesse existido a palavra retornado os portugueses estariam em todos os setores vitais de Moçambique.”

Sobre os recursos naturais de Moçambique e sobre a ajuda de Portugal e da Europa diz: “Se não tivesse existido a palavra retornado os portugueses estariam em todos os setores vitais de Moçambique.”

Finalmente quisemos que Artur Carlos nos falasse do apoio dos Estado aos idosos, em Portugal. E sobre isso ele disse-nos: “Quanto ao apoio do Estado aos idosos, o que sinto é que Portugal é o Velho do Restelo e ainda não olharam a sério e com respeito para os idosos de hoje, que foram jovens ontem, que ajudaram a fazer Portugal dessa altura, de hoje, de amanhã e de sempre. Tenho muitas sugestões para este grave problema, mas os jovens de hoje, também têm uma palavra a dizer!…”

Artur Carlos Abreu não deixou de dizer a terminar “quero agradecer-lhe o convite para esta conversa, apresentar os meus cumprimentos aos leitores do seu jornal e as maiores e melhores felicidades para o seu trabalho”, porém quem tem que agradecer somos nós e é por isso que DÃO E DEMO apresenta um reconhecido agradecimento ao senhor Artur Carlos por esta entrevista em que de uma forma solta escalpelizámos alguns aspetos da sua vida, mas sobretudo falamos, na primeira pessoa, de vida vivida e do seu olhar retrospetivo sobre a mesma.

Obrigado e felicidades.

Fotos: António Mendes | Alive FM

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