Isto seria tudo mais fácil se eu fosse homem!

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Inês Pina: Colaboradora Dão e Demo

Por: Inês Pina

São milhares as vezes que ouço algo do género “isto das mulheres agora é um perigo.” “já nem se pode elogiar que é logo assédio” “calma, calma eu sei que és feminista”.

Efetivamente nunca se falou tanto de feminismo, machismo (não são sinónimos!), assédio, misoginia e por aí fora! Há cinco anos ainda era um tabu falar sobre assédio na indústria do cinema, hoje fala-se abertamente. Este é o ponto: temos de falar. Só evoluímos em sociedade com discussões, diálogos, debates.

Nós como sociedade somos historicamente responsáveis pelas opressões que permitimos que aconteçam debaixo da nossa alçada. O mundo tem de fazer a curva. A curva não é apenas feita por um só. Melhorar o mundo é a base para todos. Um homem que entende a perspetiva feminina é um homem inteligente e elucidado que percebe a necessidade de melhorar o todo da sociedade. Todos os homens têm mulheres na sua vida, mães, filhas, namoradas, esposas…

Confesso que o meu feminismo é atento. A minha luta, e a de muitas mulheres e homens de boa vontade, é pela paridade, pelo tratamento equiparado, pelo ordenado igual, pelas mesmas oportunidades.

Uma coisa é certa: se eu fosse homem faria uma carreira com maior ligeirismo. Se calhar estava a faze-la em jornalismo. Não, não me estou a vitimizar, não faz parte da minha essência estou a dizer-vos que ser homem é mais fácil.

Vejam estes relatos da Patrícia Reis no sapo 24 : “ouvi Maria Teresa Horta a dizer que coloca um alarme quando está a cozinhar para ter a certeza de que não deixa queimar nada, ela a tentar escrever poesia e a fazer comida para a casa; a Sophia de Mello Breyner que terá dito que escreveu muitos poemas enquanto fazia bacalhau com batatas; a Agustina Bessa-Luís a rir, os homens não são para levar a sério; a Inês Pedrosa a explicar que, como reivindicou Virginia Woolf (leiam o livro Um Quarto Só Para Si, edições Relógio d’Água, é maravilhoso), é preciso ter liberdade financeira e um quarto só nosso, um escritório como têm tantos homens.”

A nossa vida não é fácil. Ser mulher significa ser uma mulher de sete ofícios, pela simples razão de termos inúmeros afazeres que, por uma razão quase estranha e maléfica, nos impedem de fechar a porta do escritório e dizer: vou trabalhar, não me perturbem, não me interrompam. Ou ainda mais simples: tive um dia difícil!

A mulher tem de ter sempre uma porta aberta, não pode fechá-la e esquecer o mundo. Há sempre alguém a berrar: Mãeeeeee, preciso de papel higiénico! Tens 50 cêntimos? O que é o jantar? Ou outra coisa qualquer, porque a uma mulher não passa pela cabeça fechar a porta e dizer que quer estar desligada para o resto do mundo. Eles sim, morrem para o mundo para se dedicarem aos seus afazeres. Seja jogar um jogo, escrever um artigo, rever os cálculos do trabalho e por aí fora! Eles não fazem as coisas enquanto as batatas cozem, ou enquanto a máquina lava. Eles não têm de sair mais cedo para apanhar o miúdo e levá-lo ao médico.

Se um homem falha nos negócios, toda a gente sabe que foi o mercado que não ajudou. Se uma mulher falha na empresa é incompetente. Se uma mulher líder e “dá um sermão” está com o período ou tem falta de sexo. No caso de um homem é um durão, um líder e tanto. Se uma mulher apresenta um programa de tv é porque tem umas boas pernas, umas boas mamas ou dorme com o chefe. Já um homem é porque é um grande comunicador, um grande profissional.

Ora, eu não preciso de proteção, o que não significa que não possa apreciar os gestos cavalheirescos, preciso sim que nos encarem com a mesma seriedade com que encaram o sexo oposto, reconheçam o meu valor, me paguem o mesmo salário, me deem oportunidade de chegar aos mesmos cargos. Preciso ainda que me oiçam e percebam que o que se fez anos a fio, práticas seculares, não justificam o que continua a passar-se.

Um estudo da Deloitte demonstra que apenas 13% dos cargos de direção no nosso país são ocupados por mulheres. E quantas mulheres detêm e lideram conselhos de administração? Apenas 2%.

Acham que nos devemos calar?

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