Não me matem o interior!

0
550
Inês Pina

Por: Inês Pina

Nem acredito que volto a escrever sobre isto! Escrevo com uma dor tão intensa e tão sólida que a garganta tende a embargar! Já tinha escrito como me sentia face aos incêndios, aqui também falei sobre pedrógrão e pensei que este tema voltasse a fazer parte dos meus textos pelo menos até ao final do ano.

Um tempo tórrido. Que loucura estes 30 e tal graus! Estes são definitivamente novos tempos. Tempos, onde o tempo tem novas contagens e onde nós nos temos de encaixar. Ou então, temos de tomar medidas drásticas!

Sou filha do interior, nascida e criada. É um legado que amo e que quero preservar. Uns tempos a viver na capital, fizeram-me perceber que o meu cantinho é este. Sim, tem os seus contras, mas os seus prós, na minha balança, pesam muito mais.

Escrevo, depois de uma viagem no IP3. É possível que o IP 3 seja a estrada da minha vida! Foi nos seus trilhos que fiz a minha licenciatura. Depois o Mestrado. E mais recentemente voltei a fazê-la para obter uma das maiores conquistas da minha carreira. Já são alguns anos a percorre-la. Hoje não vou falar nas intermináveis obras, nem nas suas vias sufocantes, nem do trânsito. Hoje falo de um IP3 de luto. Negro. Cheirava a morte. O arrepio na espinha é paralisante. As lágrimas corriam sem pedir licença.

Desde o dia 15 que me sinto anestesiada. Mexeram com o meu cantinho. O meu verde! Vimos uma língua gulosa a avançar sobre nós. Lambuzou-se e deixou o negro de morte, de dor, de sofrimento.

Os dias 15 e 16 deixaram-nos a todos de luto. Mesmo quem nada perdeu, sentiu que algo maior se perdeu. Quando perdemos algo maior, a dor dissemina-se e cobre-nos por completo. Ver o rosto carimbado de sofrimento, é de bradar aos céus. Ninguém merece. A nossa gente não merece. Tudo o que se tem é fruto de muito trabalho, ver tudo em cinzas é dantesco. Que gula! Levou o trabalho de uma vida e muitas vidas.        Os dias seguintes, não foram melhores.

Que geringonça foi esta de partidos políticos a apontar dedo uns aos outros? Acham que queremos saber qual foi o Governo que errou?

Foram TODOS.

Acham que demissões apagam a dor, a morte e a perda? Não. Não queremos que ninguém se demita, nem queremos que apontem dedos. Queremos que TODOS trabalhem, que TODOS nos ajudem a ajudar, que TODOS nos levantem!

Erramos TODOS.

Que negligentes. Estas alterações climáticas são culpa nossa! O abandono da floresta é culpa nossa! Devemos limpar, cuidar, plantar, tratar. TODOS! Quantas vezes não passamos e atiramos o lixo para o chão? Quantas vezes não reciclamos? Quantas vezes não plantamos? Quantas vezes arrasamos o nosso verde, para satisfazer os interesses da economia?

TODOS estamos no rol de culpados. Escrevo isto sem hipocrisia – aponto o dedo imediatamente na minha direção.

Viver no interior é um carimbo para o resto da vida.

Desde há muito que sinto que somos os parentes pobres do país. Este é um recanto esquecido. Quem aqui vive tem incrustada na pele a essência de um viver, recheado de trabalho, de resiliência e de luta. Não temos todas as oportunidades ao virar da esquina, temos de lutar e criá-las. Não somos uns coitadinhos, nada disso! Somos é gente de raça. Gente que não se resigna.

Aqui não se preocupam com os nossos acessos. As estradas são caras e nem sempre boas. Não temos Uber ou Metro. Ainda se apanha boleia com o vizinho, e a carreira para ir para a cidade. Não se preocupam com a desertificação. Só quando convém, para mostra políticas ridículas de apoio à natalidade. Às vezes quando olho para o nosso retângulo, vejo a inclinação para o litoral.

Somos poucos, mas unidos. Importamos uns com os outros (às vezes por cusquice é certo!) mas sabemos bem quem somos ninguém fica esquecido.

Neste recanto ainda se dá a fusão do analógico e do digital. Nós sabemos fazer antes das máquinas, antes dos telemóveis, antes da internet! Temos enxadas, sachos e sacholas e muito mais, com eles trabalhamos a terra que nos dá os melhores frutos e os melhores legumes. Pisamos a terra com os pés descalços, porque a tratamos por tu.

Somos todos família. Dizemos todos “Bom dia”. Há sempre uma porta aberta. Há sempre pão, vinho e bons enchidos na mesa.

Há uma vivência com rostos, com formas de estar. Podemos não ter muito, mas somos muito. Com o pouco fazemos muito.

Em tempos onde se lançam muitas medidas, que esperemos que tenham fundamento e não sejam apenas para inglês ver, espero que haja uma vontade maior de reerguer este recanto.

Não matem a nossa essência, nós vamos reerguer-nos. Somos gente de garra, mas por favor não nos matem o interior. Que este não seja um golpe de misericórdia. Que este momento não seja mais uma maratona de memória curta. Queremos que se lembrem nos próximos anos. Isto vai demorar anos! Não se esqueçam de nós!

Convido a que venham visitar este interior, muitas vezes. Temos paisagens de cortar a respiração. Vamos recuperar os120 mil ha ardidos!

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.