[Cinema] O Boneco de Neve (2017)*

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** (Não vale a pena)

The Snowman (2017) | Michael Fassbender, Charlotte Gainsbourg, Rebbeca Ferguson | Realizado por Tomas Alfredson | 119min.

Por: José Pedro Pinto

Costuma-se atribuir a Scorsese a sábia frase de que “o cinema é uma questão do que pôr dentro do quadro e do que deixar de fora”. É uma formulação que merecia ser expandida, porque igualmente importante é a relação que o que está dentro estabelece com o que está fora, e vice-versa, e o papel do som nisso tudo. De qualquer maneira, é uma frase interessante, que me ocorreu antes de ver O Boneco de Neve, de Tomas Alfredson.

Quando vi o seu filme anterior – A Toupeira (2011) – tive a certeza que estava na presença de um novo Scorsese, ou de um irmão Coen separado à nascença dos outros dois: um virtuoso com controlo total dos meios técnicos e artísticos do cinema, e com controlo total da sua audiência. Manipulando agilmente tempos e espaços, dando pistas subtis para ocultar as óbvias, e escondendo tudo o que não era essencial mostrar, o realizador dessa obra parecia, à partida, perfeito para dirigir uma adaptação de um policial escandinavo. Mas após ver O Boneco de Neve, o único mistério interessante no filme é o do desaparecimento desse virtuoso prometido.

O Boneco de Neve é um filme trapalhão, sem rasto do génio que se adivinhava no trabalho anterior de Alfredson (já o seu Deixa-me Entrar [2008], apesar de distante do género policial, tecia uma atmosfera opressora absolutamente magistral, e olhando para trás parece-me justo chamá-lo o melhor filme de amor juvenil deste século, a par do Moonrise Kingdom de Wes Anderson).

Neste filme, há Fassbender, e há Charlotte Gainsbourg, dois desses misteriosos entes do cinema que parecem ter descoberto, já de há uns tempos para cá, o segredo de serem fascinantes só pelo ato de estarem no ecrã – estranha alquimia reservada a poucas pessoas, e a ainda menos atores. E de resto, há competência técnica e competência artística – comuns características de metade dos filmes que chegam às nossas salas, e de ainda mais que não chegam. **

*Crítica originalmente publicada na edição de 27 de Outubro do Jornal do Centro.

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