O fim duma floresta encantada

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Por: Abílio Travessas

Deixar Coimbra e regressar a Gandufe, na Beira Alta,  a uma casa de gratas memórias para a minha mulher, foi decisão tomada já a década de 80 ia avançada. Paisagem tão diferente do mar, areia e aldeia de Aver-o-Mar que me moldaram o físico e a alma até aos 18 anos quando Coimbra se tornou a minha universidade, também da vida.

Gandufe, no concelho de Mangualde, proporciona prazeres diferentes para a corrida que tanto prezo, agora por caminhos e veredas na floresta, tão diferentes no contraponto com a praia. Conheço quase todos os recantos, uma beleza que me fazia gritar de alegria quando subia uma penedia e avistava a imponente Serra da Estrela, uma solidão acompanhada pela música dos programas da Antena 2.

Domingo, dia da catástrofe, pela manhã e como de costume, fiz a corrida do prazer e do controle de quase todas as maleitas próprias da idade. Tempo quente, exagero de calor, abafado, não muito diferente neste outono surreal de mudanças climáticas. A tarde não trazia novidade até que o Thomas, hóspede belga no nosso turismo em espaço rural, me perguntou, alertado pelo fumo de incêndio próximo, se havia perigo. Tranquilizei-o baseado na longa experiência de fogos nas matas das imediações sem perigarem a povoação. Uma hora depois, já noite, regressa o Thomas mais aflito ainda e então resolvi levá-lo ao sótão da casa para melhor vermos se alguma coisa de anormal de passava. Quando chegado à janela virada a sul para as Terras de Senhorim e Nelas, tive um aperto no coração: um anel de fogo a menos de 1 km fazia prever o pesadelo que se aproximava. Mas, pensei, não é possível que as casas sejam ameaçadas. Puro engano: as altas temperaturas, o vento forte que mudava constantemente, as terras ressequidas, a falta de água nos poços e furos propiciavam o avanço das chamas.

Vizinho passa de carro e alerta: “os aviários já foram!”. Não é possível! Estas construções de exploração avícola dos anos sessenta, em tijolo, estrutura em eucalipto e cobertura em telha “marselha”, como podiam arder na Quinta da Ribeira, sem árvores resinosas e feno cortado no devido tempo para alimento dos animais? Mas o fogo entrou lavrando o restolho até chegar às construções, incendiando a palha armazenada num deles através de faúlha entrada por uma janela. Nada restou; e apenas o negrume na enorme extensão do chão que era amarelo torrado trazia a tristeza a um espaço bonito de aveleiras, carvalhos, castanheiros e oliveiras.

Com pouca ajuda dos bombeiros cada um lutava pela protecção dos seus bens e ajudava como podia, solidariamente, na noite de pavor,  com os sinos da capela a tocarem desesperados. Perderam-se explorações de pastores, salvando-se os animais, mas sem alimento quer de palha armazenada quer do que comiam entre as matas que calcorreavam diariamente e cujos trilhos me serviam nas minhas caminhadas/corridas.

Regressei ao meu percurso preferido com a morte na alma tal a destruição encontrada. A chuva, pouca, ajudou, deixando fumarolas em restos de pinheiros cortados, em paisagem negra de árvores fantasmas e velhos caminhos agora bem marcados na terra calcinada.

Por fim: Galopim de Carvalho, 86 anos, professor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa, autor de cerca de 300 títulos, entre artigos científicos, de divulgação e de opinião…

O Verão quente e extremamente seco que vivemos (as alterações climáticas estão a alertar-nos para tempos difíceis) justifica a dimensão e a intensidade dos incêndios florestais que tanta dor infligiram a tantas famílias e tantos prejuízos causaram à economia do país. Mas não explica o elevado número de focos de incêndio, em locais diversos, detectados durante a noite, sem trovoadas secas nem fundos de garrafas de vidro ao sol. O calor e a secura propagam e alastram os fogos mas não os iniciam.

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