O Papa Beato Paulo VI vai ser canonizado em 2018

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Por: Abílio Louro de Carvalho

É uma revelação feita pelo próprio Papa Francisco num encontro com o Clero em Roma, no passado dia 15 de fevereiro, na Basílica de São João de Latrão, a Igreja Catedral do Papa enquanto Bispo de Roma.

Abílio Louro de Carvalho

A Sala de Imprensa da Santa Sé fez uma recolha das respostas do Pontífice às questões levantadas por diversos grupos etários de sacerdotes, a que Monsenhor Angelo De Donatis, vigário geral de Sua Santidade para a diocese de Roma, Arcipreste da Basílica de São João de Latrão, administrador apostólico de Ostia e Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Latrão, deu uma redação mais orgânica.

Francisco respondeu às questões dos sacerdotes mais jovens acautelando a necessidade de não deixar afrouxar a vocação sacerdotal, conservando o encanto do enamoramento sacerdotal e construindo um estilo de sacerdote na relação com o mundo, o que não se consegue sem o acolhimento de momentos fortes de oração pessoal.

Compreendeu a crise que pode invadir os sacerdotes de média idade, pela multiplicidade de circunstâncias que rodeiam a vida do clero e que podem gerar algum tédio e um descentrar da atenção relativamente ao que é essencial, pelo que se torna necessário um revigoramento da vocação e do cultivo da personalidade sacerdotal. É o tempo da segunda chamada, que requer o diálogo psicoespiritual, a saída dos moralismos vazios e a tomada de consciência de que somos pecadores e pessoas imperfeitas – mas chamadas a redimensionar o nosso projeto de vida e de proximidade com Jesus Cristo.

Aos sacerdotes anciãos, que já ultrapassaram a crise do meio-dia e viram desfilar pelas suas vidas muitas e diversas circunstâncias, o que lhes dá a sensação de estarem a perder a corrida, o Bispo de Roma, pede que sejam testemunhas da alegria e da entrega generosa e se decidam a enveredar pelo caminho da compreensão intergeracional.

E a todos solicitou que não decaiam do fervor da entrega sacerdotal, cultivem o sentido de pertença ao Reino e que estejam disponíveis para auscultar e ler os sinais destes tempos.

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E foi precisamente no fim do encontro que veio a comunicação que encima esta reflexão.

Mons. De Donatis tomou a palavra para dizer:

Agora, antes da bênção, agradecemos ao Papa Francisco este momento muito intenso, belo, desta manhã e recebemos um pequeno texto em que foram recolhidas, pelo Papa Francisco, meditações de Paulo VI: são trechos a utilizar neste tempo da Quaresma como segunda leitura do Breviário [Ofício de Leitura], de modo que o empenho na oração possa ser comum. E refletiremos um pouco dobre o que os nossos Bispos [Os Bispos de Roma], nestes anos, nos comunicaram sobre a vida sacerdotal. Creio que nos fará bem, porque nos preparará para outras passagens que viveremos – espero – de futuro sobre o aprofundamento do nosso modo de ser sacerdotes em Roma, hoje. Agora, os Prefeitos podem tomar os textos, assim como distribui-los e, depois, receberemos a bênção.”.

E o Papa Francisco comentou:

Eu vi isto e agradou-me imenso. São dois [recentes] Bispos de Roma já Santos [João XXIII e João Paulo II]. Paulo VI será santo este ano. Um outro, João Paulo I, tem a causa de beatificação em curso, a causa já foi aberta. E Bento e eu [tem piada] estamos em lista de espera: [A sério] rezai por nós!”.

E assim se ficou a saber que Paulo VI (Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, 1897-1978), o Pontífice que liderou a Igreja Católica entre 1963 e 1978, período em que encerrou o Concílio Vaticano II, vai ser canonizado. A data e local para a cerimónia de canonização do Papa que foi beatificado por Francisco a 19 de outubro de 2014, vão ser decididos num próximo consistório (reunião de cardeais), no Vaticano.

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Já no dia 6 de fevereiro, o semanário da Diocese de Brescia, ‘La Voce del Popolo’, insistia na notícia que avançara no passado mês de dezembro. A este respeito, Mons. Fabio Peli, pároco de Concesio dizia: “A comunidade, quando o souber, não deixará de se regozijar”. Referia-se o sacerdote à notícia, lançada no site do Vaticano, da aprovação unânime do reconhecimento do milagre atribuído à intercessão de João Batista Montini na reunião daquele dia dos Bispos e Cardeais da Congregação para as Causas dos Santos.

Concesio, terra natal do Pontífice bresciano, espera com ansiedade a canonização, cuja data seria conhecida após a aprovação do Papa Francisco. De momento, sabe-se da intenção da canonização, faltando saber a data e o local. O mencionado pároco referia:

Estamos a preparar este evento através de encontros, momentos de oração e aprofundamento para a ele chegarmos com alegria”.

Muito já foi escrito sobre o milagre reconhecido a 13 de dezembro de 2017 e descrito pormenorizadamente na “positio” para sustentar a causa da canonização. A 23 de setembro de 2014, Vanna Pironato, de 35 anos, mãe dum menino de 5 anos e à espera dum segundo filho, já na 13.ª semana de gravidez, baixou ao hospital por ameaça de aborto devida a rutura prematura da placenta. Durante o internamento, não melhorava a situação e os médicos não esconderam da mãe a sua preocupação: esta gravidez era de risco. Agravando-se a situação, propunha-se o discreto aborto terapêutico, mas Vanna e o marido decidem levar por diante a gravidez. Passado algum tempo, por sugestão duma amiga, confiaram a aquela difícil gravidez à intercessão de Paulo VI, que fora beatificado a 14 de outubro daquele ano em virtude dum milagre operado, em 2001, sobre um feto gravemente doente, ocorrido nos Estados Unidos da América.

A 29 de outubro, Vanna e o marido vão rezar ao Beato Montini em peregrinação ao Santuário das Graças, um dos lugares que lhe era mais querido. Ali celebrara a sua primeira missa no dia seguinte ao da ordenação sacerdotal

Desde o dia da peregrinação a Brescia, o casal invoca quotidianamente a intercessão do Beato e paralelamente, através do internamento em diversas estruturas hospitalares, têm a gravidez sob controlo, que prossegue com uma constante perda de líquido amniótico. A situação avança com notícias mais ou menos preocupantes e com a submissão a terapias que os postuladores descrevem de modo pormenorizado. Entretanto, às 4 horas de 25 de dezembro, Vanna é hospitalizada com os sintomas de parto iminente. Mais de duas horas depois, na 26.ª semana de gestação, dá à luz, com parto prematuro e em apresentação pélvica, a pequenina Amanda Maria Paola. Transferida imediatamente para uma unidade de terapia intensiva neonatal, a bebé é sujeita a todos os cuidados necessários. Passados dois dias, já estabilizada, passa para uma unidade de patologia neonatal para a prossecução dos cuidados. Quase quatro meses depois, deixa o hospital em boas condições de saúde, que perduram até hoje.

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Giovanni Battista Montini nasceu em Concesio, Bréscia, na região italiana da Lombardia, e foi ordenado sacerdote ainda antes de completar 23 anos, em 1920, tendo estudado no seminário e na Universidade Gregoriana, na Universidade de Roma e na Pontifícia Academia Eclesiástica e concluído doutoramentos em filosofia, direito civil e direito canónico. O talento levou-o a uma carreira na Cúria Romana, a administração do Vaticano. Em 1937, foi nomeado Substituto para Assuntos Correntes pelo Cardeal Pacelli, o Secretário de Estado da Santa Sé no papado de Pio XI. Quando Pacelli foi eleito como Papa Pio XII, Montini manteve o cargo com o novo Secretário de Estado. Em 1944, o Secretário de Estado faleceu e o cargo foi tomado diretamente pelo Papa, e Montini passou a trabalhar diretamente sob orientação do Sumo Pontífice.

Ainda como sacerdote, esteve ao serviço diplomático da Santa Sé e da pastoral universitária italiana, tendo vivido a II Guerra Mundial no Vaticano, onde se ocupou da ajuda aos refugiados e judeus. Após aquele conflito, colaborou na fundação da Associação Católica de Trabalhadores Italianos, antes de ser nomeado arcebispo de Milão, em 1954. São João XXIII criou-o cardeal em 1958 e participou nos trabalhos preparatórios do Concílio Vaticano II.

A 21 de junho de 1963, foi eleito Papa, adotando o nome de Paulo VI, e concluiu os trabalhos do Concílio “entre várias dificuldades, estimulando a abertura da Igreja ao mundo e o respeito pela tradição”.

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O futuro santo deu continuidade ao Concílio Vaticano II, que tinha cumprido apenas a 1.º sessão, promulgou as 4 constituições, os 9 decretos e as 3 declarações e publicou todos os instrumentos necessários à execução das reformas conciliares. E apresentou um rosto novo e aberto da Igreja, já sem o estigma dos anátemas ou a perspetiva do divórcio entre a Igreja e o mundo. O mistério da Igreja e a sua relação com o mundo contemporâneo brilham na Lumen gentium (Constituição dogmática sobre a Igreja), na Sacrosanctum concilium (Constituição sobre a Sagrada Liturgia) e na Gaudium et spes (Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual), com apoio na Dei verbum (Constituição sobre a Divina Revelação).

Não precisaríamos de mais documento algum para enaltecer a figura de Paulo VII se tivéssemos apenas a encíclica Ecclesiam suam, sobre o ser da Igreja e da sua necessidade de se estabelecer no diálogo. Porém, o relevo dado à Doutrina Social da Igreja está bem patente na encíclica Populorum progressio, sobre o desenvolvimento dos povos, bem como na Carta Apostólica Octogesima adveniens no 80.º aniversário da encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, sobre a questão social.

No atinente à sinodalidade, instituiu o Sínodo dos Bispos e, no concernente a grandes problemas mundiais, instituiu o Dia Mundial da Paz, o Dia Mundial do Migrante, o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Dia Mundial do Enfermo e o Dia Mundial das Vocações.

E foi colossal a sua exortação apostólica Evangelii nuntiandi sobre a evangelização no mundo contemporâneo, na linha do Sínodo de 1974; e este Papa não perdeu qualquer oportunidade de fazer apelos à paz, não só como ausência de guerra, mas como desenvolvimento e objeto de educação. Não é despiciendo referir que o Papa Paulo VI veio ao Santuário de Fátima como peregrino implorar de Maria a unidade interna da Igreja e a paz no Mundo.

Paulo VI foi o primeiro Papa a visitar os cinco continentes e, até a João Paulo II, o mais viajado, pelo que foi chamado o Papa Peregrino. Em 1970, sobreviveu a uma tentativa de assassinato nas Filipinas. Embora o Vaticano negue, provas determinadas posteriormente indicam que o papa sofreu um ligeiro golpe de arma branca no incidente. Foi o primeiro Papa a encontrar-se com o arcebispo de Cantuária e o primeiro, em vários séculos, a encontrar-se com os dirigentes das diversas Igrejas Ortodoxas orientais, dando com outras ações forte impulso ao ecumenismo.

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Foi quem abriu o precedente da dispensa das obrigações do ministério sacerdotal aos que a solicitaram, incluindo a autorização para contrair matrimónio, embora nem sempre o discurso sobre esta matéria fosse de todo benevolente. E, apesar de fundamentar bastante bem a opção celibatária por motivos de serviço ao Reino de Deus, a sua encíclica Sacerdotalis coelibatus não foi recebida com grande conforto, dado que o manteve obrigatório para os sacerdotes de rito latino, embora tenha oferecido a ordenação diaconal a homens casados. Nesta matéria, o Pontífice não se revelou audaz, mas também não sabemos se o resultado da possível audácia não seria contraproducente ao tempo. Pena é que a evolução esteja em ponto morto.

Porém, o que mais desconforto causou na opinião pública e em muitos cristãos foi a publicação da encíclica Humanae vitae, mal recebida por muitos elementos do Episcopado, alegadamente por se desviar quase na totalidade das conclusões da comissão que constituiu para estudar a matéria. Nela sustenta a visão tradicional da Igreja sobre métodos anticoncecionais artificiais e aborto – posição reiterada e reforçada por João Paulo II na exortação Familiaris consortio e na encíclica Evangelium vitae. A Humanae vitae serviu de base fundamental para dois outros documentos do Magistério da Igreja as instruções Donum vitae e Dignitas personae, ambos sobre moral sexual e ética reprodutiva.

A encíclica foi considerada pelos opositores como um retrocesso em relação ao Vaticano II iniciado por João XXII, mas vem na linha da encíclica Mater et Magistra, do próprio João XXIII, entre outros pontos afirma: A vida humana é sagrada, desde o seu alvorecer compromete diretamente a ação criadora de Deus. E vem na continuidade da Constituição Pastoral Gaudium et spes, do próprio Vaticano II, que deixou expresso no capítulo que trata da família (ns. 47 a 52) que se haveria, na regulação da natalidade, de recorrer à castidade conjugal:

Quando se trata, portanto, de conciliar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, a moralidade do comportamento não depende apenas da sinceridade da intenção e da apreciação dos motivos; deve também determinar-se por critérios objetivos, tomados da natureza da pessoa e dos seus atos; critérios que respeitem, num contexto de autêntico amor, o sentido da mútua doação e da procriação humana. Tudo isto só é possível se se cultivar sinceramente a virtude da castidade conjugal. Segundo estes princípios, não é lícito aos filhos da Igreja adotar, na regulação dos nascimentos, caminhos que o magistério, explicitando a lei divina, reprova.”.

Neste aspeto, o Papa Francisco sublinha que Paulo VI foi um visionário porque anteviu o recrudescimento do neomalthusianismo, resultante, a meu ver, do hedonismo campeante e do consumismo, bem como da dificuldade em articular a vida de trabalho com a vida familiar. A mentalidade disseminada em muitos países espelha-se no spot publicitário aparentemente inocente, mas cheio de egoísmo grassante, posto na boca do bebé: O papá diz ‘preservativo’, a mamã diz ‘pílula’ e eu digo ‘surpresa!’. Quer dizer que o filho ou é programado ou é tolerado, não? É curioso que os dois milagres do seu processo estão conexos com problemas de gestação!

Montini foi tão profético e audaz como hesitante: viagens, interrompidas pela artrose; abdicação da tiara, sede gestatória, algum aparato pontifício; reforma da Cúria; ecumenismo, sinodalidade e diálogo; receio do recrudescimento do tradicionalismo e do excesso do progressismo; tentativa da preservação do depósito da fé e a abertura à exposição doutrinal em novos moldes.

A biografia exposta aquando da beatificação rezava que Paulo VI “sofreu muito por causa das crises que afetaram repetidamente o corpo da Igreja”, tendo respondido com “uma corajosa transmissão da fé, garantindo a solidez doutrinal num período de mudanças ideológicas”. E manifestou grande capacidade de mediação em todos os campos, foi prudente nas decisões, tenaz na afirmação dos princípios, compreensivo com as fraquezas humanas”.

Muito me agrada a canonização deste Papa. A História há de reconhecer os seus méritos!

2018.02.17 – Louro de Carvalho | Foto: Renascença

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