O Sátão tem para dar e sabe receber…

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Carlos Paixão ganhou, recentemente, o 2º prémio, do concurso sobre reportagem promovido pela revista Descla em parceria com a FNAC.

Carlos Paixão é professor e escritor, residente em Sátão, e que concorreu com uma reportagem alusiva, precisamente, ao concelho onde reside.

É pois essa reportagem que o Dão e Demo, hoje, aqui publica na íntegra:

«Talvez não saiba que o concelho de Sátão, se situa a escassos 17 quilómetros de Viseu, talvez não saiba que o concelho de Sátão teve foral concedido por Dom Henrique e Dona Teresa, ainda antes da fundação de Portugal, também, talvez não saiba que Lopo Fernandes Pacheco, chanceler do rei Dom Afonso IV, foi nascido nestas terras e foi o primeiro português a receber das mãos do Papa a maior das distinções que por ele é concedida, a Rosa de Ouro.

Concluindo, talvez você não saiba onde se situa o Sátão, nem conheça a sua riquíssima história. No entanto queremos dar-lhe uma boa notícia: Ainda está a tempo de saber onde fica e a tempo de descobrir a sua vastíssima história e isto porque os vestígios de séculos perduram por todo o território.

Então, pés a caminho!

O concelho de Sátão situa-se na antiga província da Beira Alta, a escassos quilómetros de Viseu. Faz fronteira com esse concelho vizinho e ainda com Vila Nova de Paiva, Moimenta da Beira, Sernancelhe, Aguiar da Beira e Penalva do Castelo.

Se a opção for viajar pelo tempo, recuamos milénios até nos aquietarmos junto da Orca de Casfreires ou, um pouco mais a norte, junto da Orca de Forles e nos espantarmos com as construções megalíticas deixadas pelos nossos antepassados e que atestam a ancestralidade do povoamento deste espaço. Os vestígios castrejos, podemos encontrá-los junto da Senhora do Barrocal, na freguesia das Romãs, no alto de Santa Bárbara, com miradouro privilegiado sobre todo o Vale da Ribeira e, junto da sede do concelho, no antigo castro dos Santos Idos, de onde se contam belas lendas e se afirma que foi lugar de origem desta comunidade.

Da presença romana restam alguns troços da via de Viseu para Aguiar da Beira, ainda assinalada pelos marcos miliários de Abrunhosa, Rio de Moinhos e Silvã. Como vestígios da presença dos mouros, ainda nos encantam as lendas, como a da Serra da Pedra Maia, as laranjas de Coucão, ou as picotas que, mais do que tirar água do poço, enfeitam as belgas. Os lagares e as sepulturas escavadas na rocha espalham-se por todo o território concelhio. Estão, hoje, vazios de funcionalidade mas recheados de história e estórias de que fascinam.

Das lutas da Reconquista, fica-nos o documento escrito mais valioso, a chamada “certidão de nascimento” deste concelho. A primeira Carta de Foral de Sátão foi-lhe outorgada pelos condes, Dom Henrique e Dona Teresa, ainda antes da fundação de Portugal, em 9 de maio de 1111, por aqui terem sido bem agasalhados, bem acolhidos.

Do século XII sobram alguns vestígios na Igreja de Santa Maria de Sátão e a beleza rara do portal românico da igreja de Santo André, em terras de Ferreira.

E foi, ali, bem perto, em Lamas, que os Pachecos mandaram erguer a vetusta Casa do Paço, onde viveu o Senhor de Ferreira, Lopo Fernandes Pacheco, e onde Dom Pedro terá assinado alguns decretos régios e terá nascido Diogo Lopes Pacheco, um dos implicados no assassinato da formosa Inês de Castro. Foram terras de nobres, mas também de eclesiásticos. Dom Martinho Paes, primeiro bispo da Guarda, foi nascido nestas terras, no seio da família que, na Veiga, mandou erguer o célebre convento beneditino de Santa Eufémia. A igreja e o coro alto continuam a merecer demorada visita.

E para atestar ainda melhor da importância deste território do atual concelho de Sátão, mais vos podemos contar que na sua origem estiveram seis antigos concelhos, como o atestam os cinco pelourinhos que ainda se erguem ufanos do seu passado. Um em Gulfar, no lugar de Douro Calvo, outro pelourinho semelhante em Silvã, há pelourinho no Ladário e no Casal do Meio, na atual freguesia de Rio de Moinhos, onde compõe um conjunto harmonioso com os outros símbolos da autonomia municipal medieval, a casa da câmara e a cadeia. Garboso pelourinho é o de Ferreira de Aves. Um exemplar de tabuleiro quadrangular com cinco colunelos e diversificados elementos decorativos. Infelizmente, ninguém sabe onde se esconde ou quando, ou quem destruiu o pelourinho de Sátão. Mas há mais para ver, logo ali ao lado, na bonita localidade do Tojal, “a aldeia das sete capelas”. Já não as descobrimos todas, mas descobrimos as suas histórias e regalamo-nos com a singularidade do seu espólio artístico. A igreja do convento da Senhora da Oliva necessita de obras urgentes de recuperação mas no seu interior sentimos a marca de uma época em que o Sátão se afirmou pelas obras e pelas gentes. Cá fora, adivinhamos a grandeza do convento e espantamo-nos com a volumetria da capela de Santo António.

O Sátão poderá, e bem, ser apelidado como “terra de capelas e igrejas”, que as tem em elevado número e detém um enorme potencial para o turismo religioso. Não as podendo referenciar todas, há uma que merece de todos as melhores referências, pois não há muitos exemplares barrocos, em todo o país, que se possam igualar à Capela de Nossa Senhora da Esperança, em Abrunhosa. Visitar a Senhora da Esperança é contemplar a arte sacra em todo o seu esplendor, tanto a nível da pintura em perspetiva, como da particularidade da azulejaria, da magnificência da escultura e da opulência da talha dourada. Para além disso, todo o cenário decorativo é uma deslumbrante lição de catequese.

Festas e romarias continuam bem vivas por todo o concelho e têm o seu expoente máximo na romaria do Senhor dos Caminhos, em Rãs, que todos os anos recebe milhares de visitantes, que se incorporam ou ajoelham ao passar da sumptuosa procissão. Mas atrativo é também experimentar uma subida ao Convento do Senhor Santo Cristo da Fraga e, dali, contemplar o imenso horizonte e o bucólico lugar. O vale verdejante e o Vouga, ainda a correr de mansinho, prendem-nos ao silêncio e à contemplação. Não será de estranhar, por isso, que Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, sábio homem das letras, autor do brilhante: “Elucidário das palavras, termos e phrazes, que em Portugal antigamente se usaram, e que hoje regularmente se ignoram”, optasse por passar aí os últimos anos da sua vida.

Não nos quedando nós por aqui, por termos mais para andar e visitar e porque nem só de arte religiosa vive o Homem, escolhemos outros belos exemplares da arquitetura oitocentista para nos encher o olhar e entranhar na história de cada uma das localidades, do concelho e do país.

Os Albuquerques ergueram o seu solar e cinzelaram o seu brasão, em Vila de Igreja. Foi adaptado, recentemente, para Biblioteca Municipal, com capela dedicada a Santo Aleixo, onde hoje se instala a Loja do Cidadão. Com a mesma nobreza e orgulho no seu passado, a família Oliva mantém a Casa Grande de Casfreires, transformada em Turismo de Habitação, os Viscondes do Banho têm residência em Rio de Moinhos, defronte para a Casa Aguiar. Em Decermilo foram os Machados da Silveira quem quis perpetuar no granito a fidalguia das suas gentes, como já o haviam feito os Bandeira Galvão, no Ladário.

Todavia, é também nas obras mais simples que reconhecemos o caráter e a dignidade de um povo, como o atestam a Igreja de são Pedro, em Mioma, as capelinhas do Senhor da Agonia, em Avelal, a de São Tiago, em Vila Longa, a imagem de Nossa Senhora da Penha do Vouga, em Águas Boas, ou as peculiares alminhas das Pedrosas, no Largo da Fonte Velha.

Para além de todo este vasto património construído, o Sátão, não temos dúvidas, foi abençoado pelas dádivas da natureza. Um anel de verde rodeia toda a vila, com expressão maior nas serras do Seixo e do Facho. No monte da Ucha erguem-se, em busca da luz, ramos e folhas policromados, incapazes, no entanto, de nos testemunharem o feito das gentes de Sátão, aquando das invasões francesas e que, ali, retardaram os exércitos invasores, contribuindo assim para a vitória das tropas portuguesas na serra do Buçaco.

Na saída poente lá tem o Sátão, também, um pequeno mas airoso parque natural, apelidado de “Buçaquinho”.

E, como sabemos, todo o ouro verde tem mais sentido se houver uma moldura azul que o envolva. Foi o Sátão brindado com as águas do Vouga, do Paiva e do Coja, e os homens souberam aproveitá-las para irrigarem os campos, edificarem os seus moinhos, arquitetarem levadas e, recentemente, oferecerem aos habitantes e visitantes belos parques de lazer, como é bom exemplo a Praia Fluvial do Trabulo.

É esta permanente ligação entre o homem e a natureza, entre o passado e o futuro que nos pode e deve conduzir ao Sátão, onde há feriado municipal a 20 de agosto, dia de feira e festa anual, em honra de São Bernardo, e onde, em inícios de novembro, há Feira do Míscaro, de que esta terra se vangloria de ser a capital.

Açorda e arroz de míscaros, míscaros estufados, mas também a vitela na padela, o borrego assado, as castanhas de ovos, as cavacas, tudo bem acompanhado com os néctares tintos ou brancos do Dão, são apenas mais algumas boas razões para conhecer estas terras e estas gentes.

Afinal, o Sátão tem muito para dar e sabe receber…»

Reportagem (texto e fotos) publicada na revista digital Descla, a 24 de outubro, no âmbito do concurso reportagem Descla / FNAC Viseu 2017.

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