Poitiers(732) e Covadonga(722), duas batalhas contra os muçulmanos

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Foto: El País

Por: Abílio Travessas

Da invasão árabe em 711, sob comando de Tárique (que dará ao Calpe o nome de Monte de Tárique, Gebaltárique, Gibraltar) li, pelos anos do liceu, o romance histórico Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano. A raça dos Visigodos “subjugara toda a Península havia mais de um século” e Herculano considera que a “mistura da rudeza dos bárbaros com uma civilização velha e corrupta” – a romana – trouxe-lhes o pior dos males, a perversão moral”. A decadência dos Visigodos facilitou a conquista da Hispânia pelos invasores árabes. Que só serão travados nas Astúrias por Pelágio na Batalha de Covadonga, permitindo a Reconquista Cristã que, em Portugal, termina com Afonso III, no séc. XIII.

Abílio Travessas

A batalha de Poitiers opôs Carlos Martel, dux Francorum, a Abd al-Rahman ibn Allah al-Ghafiqi, a comandar o exército árabe. Segundo Gouveia Monteiro – Grandes Conflitos da História da Europa – “trata-se de um dos combates em campo aberto mais representativos, do ponto de vista militar, e mais relevantes, do ponto de vista político, de toda a Europa durante a Alta Idade Média – período situado entre 450 e 900 d. C. Ainda Gouveia Monteiro: “A Alta Idade Média foi um período fulcral para a construção da Europa. Começou com as “invasões bárbaras”, conjunto de povos com características civilizacionais profundamente diferentes das dos Romanos. E terminaria também sob o signo das invasões, desta feita as dos Normandos, as dos Sarracenos e as dos Magiares, ocorridas entre finais do séc. VIII e finais do séc. IX.”

Será na Gália que a história do Ocidente se fará no essencial devido à importância de quatro líderes, Clóvis, Pepino, Carlos Martel e Carlos Magno. “Graças a eles o código genético da Europa ficaria marcado por um triplo selo: romanidade, germanidade e cristianismo”. Carlos Martel, “um dos generais mais notáveis da Alta Idade Média”,  estabelece o domínio “sobre todo o regnum Francorum e sobre os povos que nele habitavam”.

Tariq, muçulmano governador de Tânger, tinha derrotado o rei visigodo, Rodrigo, na batalha de Guadalete, subjugando a Hispânia e as aspirações árabes dirigiram-se para a Gália meridional;  Carlos Martel vai enfrentar os invasores na batalha de Poitiers.

Gouveia Monteiro “ensina história medieval europeia e história militar antiga e medieval”, lê-se na biografia da badana do livro que tenho seguido na evocação destes “grandes conflitos” e, antes de descrever a batalha, considera “imprescindível dizer algo sobre a arte militar europeia entre 450 e 900”. Para os interessados, a lição vale a pena e aqui vão os temas que desenvolve: O recrutamento militar; As armas ofensivas; As defesas de corpo; Funções e custo do equipamento bélico; Os cavalos; Fazer campanha; As tácticas de combate.

Carlos Martel queria travar os árabes e não negociou “ao longo dos seis ou sete dias de espera no campo de batalha”. Abd al-Rahman tinha um exército “que não ficava aquém do seu adversário”, ”também muito experiente, e estava além disso moralizado e disposto a defender o valioso saque que o seu trem de apoio já abrigava”. Carlos Martel manda “desmontar a quase totalidade dos seus cavaleiros e juntar-se às tropas apeadas”. Homens bem encostados uns aos outros e com duas armas: um escudo grande e espadas curtas, próprias para o combate corpo a corpo. O chefe árabe aposta na sua cavalaria e nos arqueiros que “dispunham do poderoso arco composto recurvado, feito de várias camadas de osso, chifre e madeira, com alcance superior a 200 metros”.

Perante a chuva de flechas os Francos usaram a “tartaruga”, dispositivo de origem romana que os protegia, defendendo as cabeças e as partes laterais, superando este ataque… A batalha durou horas, terminou com a morte do líder muçulmano, as tropas a desunirem-se e a baterem em retirada. E Carlos Martel a “manter os seus homens em boa formação e travar o seu inevitável instinto de perseguição”.

Consequências: fim das “ambições muçulmanas no sudoeste da Gália e extensão do domínio cristão até ao Mediterrâneo”; “unidade cultural e económica do Ocidente; a unidade política chegaria com os reis carolíngios, descendentes de Carlos Martel”.

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