Poluição mental.

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António Fernandes Silva

Por: António Fernandes Silva

A brevidade do tempo e do espaço em que vivemos obriga-nos a desprezar a rapidez do próprio tempo e a montar arraiais fora dos limites a que estamos confinados.

As etapas da vida humana – infância, adolescência, juventude, idade adulta e velhice – deixaram de estar compartimentadas pelo decurso natural e espontâneo do crescimento de cada um. Sempre se admitiram diferenças de desenvolvimento pessoal, mas os padrões da idade não deixavam de ser próximos e semelhantes.

E aceitavam-se regras de comportamento próprio, específicas para cada etapa.

Cada grupo acompanhava a sintonia dos seus pares: ”cada qual com seu igual”. Embora os padrões sociais pudessem acentuar diferenças, nos modos de vida, nem por isso as crianças deixavam de brincar como crianças, os jovens de navegar em fantasias e os adultos de olhar o mundo de forma madura e abrangente, procurando, cada um, fazê-lo avançar, com trabalho e persistência, na tentativa de abrir caminhos de riqueza e progresso para si próprio, para a terra onde vivia e para a sociedade do seu tempo.

As crianças gostavam de aprender com os mais velhos e todos cuidavam delas com o mesmo carinho com que se trata uma flor e um jardim. Os idosos eram os sábios e guardiões dos costumes e tradições das famílias e nações, zelando pelo equilíbrio da paz social e bem estar de todos os cantinhos da aldeia.

O isolamento a que nos fomos condenando, deixou as aldeias vazias e fez descarrilar o entendimento entre as pessoas, deixando no ar estilhaços de distância entre as famílias, como se todos os dias se erguessem muros de rejeição entre quem até aí se estimava.

E a velhice, outrora um digno clube de sábios, virou um peso social e familiar. As crianças são maltratadas, desprezadas na sua fraqueza e encurraladas em horizontes negros de maldade.

Como as mulheres e os idosos sofrem toda a espécie de violência.

Apesar de tanto progresso e desenvolvimento, está comprometido o entendimento de gerações e a troca de experiências e de conhecimentos.

Curiosamente, ou talvez não, os maus tratos e o abandono de animais foram penalizados, antes de se criminalizar a onda crescente de abandono de idosos e dependentes.

Como disse um filósofo da Grécia antiga, “um povo que não sabe respeitar o seu passado, não tem presente nem merece ter futuro”.

O nosso estilo de vida actual encosta os idosos e os mais fracos, em geral, em prateleiras de esquecimento, retirando-lhes o lugar e o papel de utilidade numa sociedade cada vez mais desumanizada. Este isolamento faz ignorar as fracas condições em que se movem, a pobreza crescente em cada patamar, a origem de focos de violência e esta onda descarada de encolher os ombros perante a realidade fria destes dias e noites.

A poluição dos nossos rios e nascentes é dramática.

A poluição mental que se espalha pelas ruas da nossa terra e pela frontaria das nossas casas é assustadora e preocupante.

A ligeireza com que enfrentamos esta enxurrada pode condenar o futuro da nossa vida em sociedade, transformando as praças e jardins da nossa terra em asilos.

Não basta trazer os meninos em idade escolar para as vilas ou cidades, garantindo-lhes almoço, transporte e aulas divertidas.

A vida começa nas aldeias, que eles deixam entregues aos pais e avós e a que, com o tempo, não vão regressar.

É aí que a coisa está preta e mais preta se tornando.

07.02.2018

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