Remendos e costuras

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António Fernandes Silva

Por: António Fernandes Silva

Ouve-se, em todo o lado, que “isto está a rebentar pelas costuras”.

O mais difícil de identificar, neste generalizado lamento, é a extensão real e o centro geodésico deste furacão. As dúvidas e desconfianças obrigam a fechar a porta, não vá o remoinho invadir-nos a alma e perturbar as formas de viver e de pensar de cada um.

Do nosso refúgio, espadeiramos contra os moinhos e os medos que nos atormentam, saltando de canal em canal, de botão em botão, esticando o dedo, a apontar erros e defeitos, sem coragem para enfrentar o sol e a praça, em busca de soluções capazes de remendar esta manta esburacada e de costurar novas peças que nos protejam dum inverno frio e solitário.

Voltamos ao tempo da vida nas cavernas, em que o mundo se resumia à luz que se avistava daquele buraco entaipado e às peles arrancadas a animais caídos em armadilhas.

Só a coberto da noite ou de nevoeiro espesso se ousa pôr o nariz de fora dos labirintos das nossas indecisões e assumir a condição de gente capaz e interventiva, em busca da liberdade que define a condição do homem como ser independente e livre de ligações a qualquer sistema. Nem damos conta das manobras de bastidores ou de negócios escuros, feitos às claras, que nos envergonham e deixam amarrados a dívidas que nem os nossos netos conseguirão pagar.

As desculpas e remendos conseguem iludir crimes e culpas com presunções de inocência, como se tudo fossem procedimentos correntes e legais.

Passam os juízes a réus e os policias a ladrões. Os militares perdem as armas e deixam as botas no caminho. As mortes e assaltos têm direito a música e aplausos, com libertação de ladrões e assassinos, arvorados em heróis do tempo moderno. A fome de bombeiros exaustos não se pode comparar ao esforço e dedicação de ministros, secretários e assessores, a pensar nos decretos de reordenamento florestal para resolver a praga de incêndios. A reconstrução de casas ardidas e o realojamento dos seus moradores é menos urgente que a inauguração de alojamentos turísticos em bairros da cidade, para atrair visitantes e riqueza.

Esta inversão de sentido obriga a não fazer fumo dentro da caverna para escapar ao referendo de “ouvir e calar”, de “comer e não bufar”, guardando silêncio para não ser importunado.

E vamos gravando na pedra cifrões de roubos e desvios, misturados em auréolas de santos e asas de anjos que nos fazem sonhar com o paraíso perdido, a navegar na barca do inferno, onde se castigam os inocentes e esfomeados com migalhas e se entrega aos poderosos, com prémios chorudos, o destino do barco e o direito de espezinhar quem se atrever a abrir a boca.

As costuras na pele deixam cicatrizes que nem o tempo consegue riscar das gravuras da vida.

Não se poderá dizer que o mundo gira ao contrário ou que esteja de pernas para o ar. Porque os pés estão bem firmes e assentes na terra. Falta, apenas, coragem de afirmar a posição.

Mas os loucos – e todos temos alguma dose de culpa e de loucura – estão a fazê-lo rebentar pelas costuras e a trocar-lhe os olhos, na velocidade a que gira.

O que temos de mais sagrado, a vida e a dignidade, sofre violência a cada instante.

Há que sair da caverna da indiferença e erguer bandeiras contra os invasores. O primeiro passo, nesta batalha, é não vender a alma ao diabo nem trocar a liberdade de agir e de pensar pelo enxabido prato de lentilhas, mesmo quando se apresenta com lacinhos de promessas de emprego garantido ou pintarolas de remendos ilustrados nos passadiços do poder.

Como gritavam os nossos antigos, mesmo encurralados por traições e assaltos, “Antes morrer livres, que em paz sujeitos!”

Está em causa o direito de manter os olhos abertos e a garganta sem laços de servidão.

Que haja força para entoar “trovas no vento que passa” e dignidade para resistir aos feitiços das parcas e sereias, a tecer em trapos velhos!

As feridas desta luta curam-se mais tarde.

06.09.2017

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