Será a luta contra as ‘fake news’ a censura dos tempos modernos?

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Por: António Fonseca (Lausanne – Suíça) – A propagação de notícias falsas através das redes sociais tem vindo a ser uma forte preocupação dos estados. Uma situação que, diga-se, igualmente me preocupa também a mim, ou não tivesse eu sido sancionado com 72 horas de silêncio no facebook sem saber o motivo.

António Fonseca

Mas, afinal, quem decide o que está certo e o que está errado?

A verdade de Washington é aceite como relevante e verdadeira em Moscovo? A verdade de Carles Puigdemont é a mesma do governo espanhol presidido por Mariano Rajoy?

Há uns anos José Rodrigues dos Santos explicava na RTP a tecnologia dos mísseis americanos na guerra do Iraque dizendo que o míssil entrava pela janela e ia explodir onde estivesse o terrorista!!! Ora aquilo era fake ou era news?

Mas, passados estes anos todos, estes mísseis de ultima geração, hoje, além de baterem à porta e irem explodir na cabeça do terrorista deixam, ao mesmo tempo, coca-cola e hambúrgueres aos filhos do terrorista! Ninguém para a tecnologia!

E quando um outro qualquer jornalista diz que uma bomba russa matou 20 crianças na Siria, é fake ou news?

A democracia não é, justamente, um espaço de debate e confronto de ideias diferentes, sancionado ou não, pelo voto de cidadãos livres, adultos e responsáveis, num quadro legal definido por leis?

Os gigantes da internet, o Google e o Facebook, por exemplo, são alvo de denúncia e ataques da parte de vários estados e veem-se obrigados a remover as tais falsas notícias (fake news) que os usuários transcrevem. Mas quem decide se são, de facto, falsas?

A priori, seria boa ideia, mas quem julga? Como será composto, e que nacionalidade terá esse comité de censura? Como ferramenta de difusão podem as redes sociais ser responsabilizadas pela qualidade das mensagens de mais de 2 mil milhões de usuários, mais ou menos talentosos, mais ou menos sérios, e mais ou menos bem informados?

Os EUA parecem queixar-se sobre a desinformação praticada pela Rússia. A Rússia diz o mesmo dos EUA, a CIA não tentou reverter as tendências políticas com informações dos EUA mais ou menos próximas da propaganda? A China encontrou uma solução pragmática e eficaz, que proíbe o acesso dos seus cidadãos a esses meios de comunicação, porém não tem qualquer receio de os utilizar quando se trata de se autopromover no exterior. E será que os estados democráticos podem fazer o mesmo?

O president Macron, esse, fala em controlo da internet.

Mas como é que os fornecedores privados de internet podem separar o trigo do joio? Numa sociedade democrática cabe aos tribunais condenar conforme a lei, e não aos gigantes americanos do computador. Quem lhes dá essa autoridade? E seria razoável que detivessem esse poder!

Em suma, o que parece à primeira vista uma boa ideia poderia rapidamente transformar-se num retorno aos bons velhos tempos da caça às bruxas e do lápis azul.

Bizarro! Acho eu.

Foto: techcrunch.com

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