Sou do tempo em que chovia!

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Por: Inês Pina

Estou a escrever com a árvore de natal montada, e sem robe. Para ser sincera acendi uma vez a lareira, mais para manter um ambiente cozy do que para me aquecer. E eu sou bem friorenta. Abaixo de 15 graus já está frio.

Se o ar está mais quente e eu sou friorenta seria motivo para ficar bem feliz. Porém, escrevo este texto com muita angústia. Estou a percecionar que a mudança climática veio para ficar. Por vezes ouço a minha mãe a dizer: “no meu tempo apanhava a azeitona em janeiro” este ano foi apanhada em princípios de novembro e em mangas de camisa! Aliás, das memórias que mais tenho da apanha da azeitona é das ervas cobertas de geada onde se escondiam as azeitonas. O meu irmão ainda pequeno, escondia as mãos nos braços da camisola e apanhava as azeitonas com a camisola a fazer de luva. Escusado será dizer que a camisola ficava encharcada e o puto com as mãos geladas. Mas pronto era fruto da época!

Inês Pina

Temo que também eu vá dizer aos meus filhos algo do género “sabem antigamente havia um provérbio que dizia: dos santos ao natal inverno natural!” Hoje, estamos muito longe de ter chuva nos últimos meses do ano. Já não se fazem natais à lareira com o som da chuva!

Efetivamente estas minhas curtas décadas mostram-me que os filmes e as previsões de grandes catástrofes climatéricas não estão assim tão distantes, nem são muito irreais.        Portugal está a sentir na pele! A hipocrisia dos acordos continua. Ainda há pouco os chefes de estado lá se voltaram a juntar para se fingirem interessados em mitigar os efeitos das alterações climáticas.

Oh santa hipocrisia!

Enquanto se discute sobre quem fica fora e dentro do Acordo de Paris, o mundo aquece, o Ártico derrete e a Antártida fica um bocadinho mais verde. Não são projeções ou especulações, são constatações que estão em relatórios de cientistas que continuam a medir os efeitos das alterações climáticas no planeta Terra.

E Portugal? Há muitas coisas que já mudaram à nossa volta. Como vos relatei no início, sinto que este será um ano de viragem climática e já estamos a sentir na pele.

Já viram o deserto em que se está a transformar o Alentejo? Que as ondas de calor se tornaram mais frequentes? Que a floresta de Portugal está a diminuir, consumida pelos incêndios? Que a chuva já não cai como antes? Que os Invernos estão mais curtos? Que, devagarinho, acontece uma subida do nível do mar? São apenas alguns dos efeitos das mudanças climáticas em Portugal.

A diminuição da precipitação é gritante, qualquer um vê. O problema, não é exclusivo de Portugal e abarca toda a Península Ibérica onde, segundo estudos da EEA, a precipitação anual diminuiu até um máximo de 90 milímetros por década, desde 1960.

Infelizmente, este mau indicador parece manter a sua tendência. Este ano é mais um exemplo disso. Estamos a ter uma precipitação reduzida, relativamente à média de há 60 ou 70 anos. Isto tem impactos muito significativos na agricultura. Por outro lado, também se percebe que o padrão da chuva mudou e que, quando realmente chove, chove muito e durante pouco tempo. O que, entre outros efeitos, significa muitas vezes cidades inundadas por cheias.

Nas cidades sentem-se as cheias mas não a falta da chuva que, aliás, (quando cai) incomoda muita gente.

A privilegiada localização deste cantinho da Europa à beira-mar também tem desvantagens. A subida do nível do mar que as projeções mais extremas apontam para uma subida média de um metro em 2100. A verdade é que, para já, as mudanças do clima não afetam muito o dia-a-dia da maioria da população portuguesa. O pessoal até gosta de fazer praia em outubro! Os problemas nos países desenvolvidos são mais facilmente resolvidos porque temos situações económicas mais favoráveis. Mas se pensar no Sahel, em África, no Mali, na República Centro Africana, na Nigéria, na Etiópia, na Somália, o que se está a passar é dramático! Eles também estão a ter secas mais frequentes, mas não têm condições para se adaptar, se a agricultura falha as pessoas têm fome.”

Os problemas em África não parecem ter uma voz mediática mas há um “grito” que se ouve desde o Árctico, que nos últimos anos registou temperaturas invulgarmente elevadas e uma perda de gelo marítimo recorde. “O Ártico e a Antártida, mas sobretudo o Ártico, são uma espécie de altifalante das alterações climáticas. É uma coisa completamente evidente e é por isso que os senhores decisores políticos vão visitar o Árctico para verem com os seus olhos que realmente há qualquer coisa que está a mudar profundamente no nosso planeta.”

Se não se cumprir o Acordo de Paris, de acordo com vários estudos o futuro do Sul de Portugal e de Espanha apresenta uma grande tendência para a desertificação. Se em Portugal tivermos um aumento de temperatura média global superior a dois graus Celsius até ao fim do século, o ecossistema do montado do Sul dificilmente resiste.

Por isso a decisão de Donald Trump de retirar os EUA do Acordo de Paris é egoísta! Está a defender os interesses das grandes companhias e o lobby dos combustíveis fósseis, mas os países mais vulneráveis – e Portugal é vulnerável no contexto europeu mas há muitos outros países numa situação bastante mais vulnerável –, vão sofrer com isso.

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