Tommy Simpson, o doping e a morte na Volta à França

0
552
Foto: wikipédia

Por: Abílio Travessas

Se foi a primeira morte dum ciclista na estrada, não posso assegurar. Simpson, ciclista inglês, morreu na ascensão do Ventoux, um dos míticos cols do Tour. A ele, Ventoux, contrapôs Joaquim Agostinho, quando perguntado se era difícil subi-lo, as agruras que tinha passado na guerra colonial.

Abílio Travessas

“Há muito que o Ventoux se tornara um fetiche dos amantes do ciclismo. 20 km íngremes, extremamente ventosos. No Tour de 67 o ciclista britânico Tommy Simpson morreu no Ventoux, esforçando-se para lá dos seus limites físicos num estado de confusão induzido pelo doping. Mas não foi tanto a droga que matou Simpson. Foi o Ventoux. Existe hoje um monumento a homenageá-lo, um símbolo do fatalismo romântico da modalidade e dos sofrimentos ímpares que o Tour inflige” (Lance Armstrong, O Ciclista – Livros de Hoje). A imagem do ciclista ziguezagueando até à queda fatal perdura na memória dos tais amantes do ciclismo; forçados da estrada, como a imprensa portuguesa se referia aos ciclistas nos anos 50/60 do século passado, em que a droga, principalmente anfetaminas, fazia parte da dieta…

Foi a morte de um ciclista, bem conhecido à época, com a ambição de ser o primeiro britânico a vencer o Tour a qualquer preço. Trouxe-me à memória uma entrevista  no jornal A Bola, com Emídio Pinto, ciclista que atingiria maior notoriedade como treinador do campeão Marco Chagas, “o meu menino” como carinhosamente se lhe referia. Ficou-me gravada, pese embora a distância dos anos, pela descrição entre o trágico e o cómico, da primeira etapa, depois do prólogo na pista de ciclismo do Estádio de Alvalade – com pista de atletismo, ainda – que atravessava o Alentejo na canícula de Agosto. Emídio Pinto e outro ciclista do FC do Porto começaram a ficar atrasados, qualquer fonte era paragem para descanso e matar a sede. E, para ajudar a chegar à meta, mais uma pastilha quando as forças escasseavam. Mas conseguiram chegar antes de fechar o controlo. A equipa pernoitou numa pensão com ferrador no rés-do-chão, moscas muitas. Deitado para a massagem reparadora ouviu notícia que o deixou em pânico: “Pois é, dois espanhóis já foram com fato de chumbo! É o resultado  da droga com este calor!”

Tudo terminou bem com uma corrida ao hospital. No dia seguinte lá estavam, os dois, no pelotão, aguadeiros dos colegas candidatos à vitória. Para a história ficou a vitória de Alves Barbosa na etapa e na volta.

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.