Um padre pendilhense reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma

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Abílio Louro de Carvalho

Por: Abílio Louro de Carvalho

Constitui uma prova de confiança da Santa Sé e da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) a nomeação do Padre José Alfredo Gonçalves Patrício, da Diocese de Lamego, para Reitor do Pontifício Colégio Português.

Com efeito, em comunicado enviado, no passado dia um de dezembro à agência Ecclesia, é referido pelo Padre Manuel Barbosa, secretário da CEP, que, por indicação de Dom Manuel Clemente, comunicava que “a Congregação para o Clero, por Decreto de 30 de novembro e tendo em conta o parecer favorável da Conferência Episcopal Portuguesa e o acordo do Bispo de Lamego, nomeara o Padre José Alfredo Gonçalves Patrício, da Diocese de Lamego, Reitor do Pontifício Colégio Português em Roma, que assim sucede ao Padre José Fernando Caldas, da diocese de Viana do Castelo, e que tomará posse no próximo dia 14 de dezembro.

O sacerdote, de 38 anos, é especialista em Direito Canónico e era até agora defensor do vínculo e promotor de justiça no Tribunal Interdiocesano Vila-realense.

Também em comunicado enviado à Agência Ecclesia, a “comunidade do Colégio alegra-se com a nomeação do novo reitor” e informa que, “juntamente com o vice-reitor, Padre Jorge Miguel Lopes Ferreira, nomeado em setembro último, o novo reitor vai tomar posse no dia 14 de dezembro, na presença do secretário da Congregação para o Clero, D. Patrón Wong.

O Padre José Alfredo nasceu a 25 de setembro de 1979, estudou Filosofia e Teologia em Roma, onde concluiu o mestrado em Direito Canónico, na Pontifícia Universidade da Santa Cruz; ordenado sacerdote no dia 30 de julho de 2005, na Diocese de Lamego, está agora a concluir o doutoramento em Direito Canónico na Pontifícia Universidade de Salamanca, em Espanha.

Na Diocese de Lamego, o novo Reitor do Pontifício Colégio Português foi pároco de Moura Morta, Cujó, Monteiras e Almofala, de Castro Daire; diretor do Gabinete de Imprensa da diocese; e, além de Defensor do Vínculo e Juiz do Tribunal Eclesiástico de Vila Real, foi vogal da direção da Associação Portuguesa de Canonistas.

O Pontifício Colégio Português, em Roma, foi criado pela Carta Apostólica ‘Rei catholicae apud lusitanos’, de 20 de outubro de 1900, do Papa Leão XIII, para alojar os padres enviados para Roma pelos seus bispos ou superiores, com o objetivo de aprofundarem os estudos nas várias áreas do saber humano e teológico.

E o comunicado enviado pelo Pontifício Colégio Português conclui que “à nova Direção se assegura, por parte de todos os membros da comunidade sacerdotal, a certeza da oração e da colaboração para que o Colégio possa continuar a sua missão eclesial ao serviço da Igreja de Portugal e de tantas outras Igrejas irmãs espalhadas pelo mundo”.

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O Pontifício Colégio Português é uma instituição de ensino, a nível de residência e estudo – ali não se ministram aulas, mas os colegiados têm ali a sua vida de piedade, a vida comunitária e, eventualmente palestras e recoleções –, para os sacerdotes, originalmente portugueses, mas posteriormente alargada a outras proveniências, que são enviados para Roma pelos seus Bispos para continuarem os estudos eclesiásticos. Quando foi criado, o universo das proveniências para o Colégio abrangia as dioceses da metrópole e as das colónias ou territórios ultramarinos, que a predita Carta Apostólica chama dioceses “transmarinas”. Agora, os alunos vão das dioceses de Portugal e dos territórios que têm afinidades linguísticas e culturais com Portugal, nomeadamente as das ex-colónias.

Com o apoio da Santa Sé, dos Bispos Portugueses e do próprio Rei de Portugal, foi constituída uma comissão de fundadores, entre os quais se destacam os Viscondes de São João da Pesqueira Dom Luís Maria de Sousa Vahia Rebelo de Morais e sua esposa, Dona Maria Adelaide Pinto da Silva, Dom António José de Sousa Barroso, então Bispo de Meliapor e que, depois foi Bispo do Porto, Monsenhor José de Oliveira Machado, Reitor do Instituto Português de Santo António, em Roma, o cavaleiro António Braz e os padres estigmatinos italianos Gui Guzzatti e Ricardo Tabarelli, que pretendia fundar um Colégio Português destinado à formação de clérigos “tanto do Reino de Portugal como do Ultramar”.

Inspirados pelas palavras da Irmã Maria do Divino Coração Droste zu Vischering, a Madre Superiora do Convento do Bom Pastor do Porto, sobre a necessidade da formação do clero, que ao tempo era muito deficitária, e do enorme bem que disso resultaria, os Viscondes da Pesqueira visitaram o Santo Padre no dia 18 de julho de 1898, manifestando-lhe a sua inspiração para a fundação do referido Colégio, e, no dia 22 de janeiro de 1899, o Cardeal Secretário de Estado do Vaticano escreveu uma carta à comissão promotora com a exortação a que avançassem com o projeto. A ereção canónica do Pontifício Colégio Português foi concedida, como se disse, a 20 de outubro de 1900 pelo Papa Leão XIII. E a missa inaugural foi celebrada por Dom Teotónio Vieira de Castro, recém-nomeado Bispo de Meliapor, que consagrou o Pontifício Colégio Português ao Sagrado Coração de Jesus sob indicação da Beata Maria do Divino Coração, a quem ficou, inclusive, ligada a fundação do próprio Colégio e cujo retrato figura num quadro num dos salões nobres para lhe prestar a devida homenagem.

Juridicamente falando, o Pontifício Colégio Português está simultaneamente dependente da Santa Sé e do Episcopado Português, sendo o seu Reitor nomeado por aquela, mas sob proposta dos Bispos de Portugal. Por seu lado, o seu Vice-Reitor e demais responsáveis são nomeados pela Conferência Episcopal com a anuência de Roma.

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A 8 de maio de 2017, o Papa Francisco visitou a comunidade do Colégio dias antes da sua partida para Fátima “onde há 100 anos apareceu Nossa Senhora aos três Pastorinhos” – encontro que “foi para eles uma experiência de graça que os fez enamorar-se de Jesus” e em que Maria, “como terna e boa Mestra”, os introduziu “no conhecimento íntimo do Amor trinitário” e os levou “a saborear Deus como a mais bela realidade da existência humana”. E era aquilo que o Papa desejava para todos os membros daquela comunidade. Acima de qualquer outro objetivo que os tenha trazido a Roma e ali os retenha, Francisco colocava este: “conhecer e amar Cristo […] procurando conformar-se cada vez mais com Ele até ao dom total de si próprio”.

E prosseguia apelando ao crescimento contínuo de todos e de cada um no caminho da consagração sacerdotal, inspirados na vida dos pastorinhos e confiados na proteção de Maria:

“Concretamente vós, caros presbíteros, sois chamados a progredir, sem descanso, na vossa formação cristã e sacerdotal, pastoral e cultural. Qualquer que seja a vossa especialização académica, a vossa primeira preocupação deve ser sempre a de crescer no caminho da consagração sacerdotal, mediante a experiência amorosa de Deus: um Deus próximo e fiel, como O sentiram os Beatos [agora ‘santos’] Francisco e Jacinta e a Serva de Deus Lúcia. Hoje, contemplando a sua vida humilde e, contudo, gloriosa, somos levados a confiar-nos, também nós, aos cuidados da mesma Mãe. E não se trata de uma novidade. Rezamo-lo sempre na mais antiga antífona latina de Nossa Senhora: ‘Sub tuum praesidium confugimus, Sancta Dei Genitrix’. Convida-nos precisamente a procurar refúgio sob o manto d’Ela, uma mãe que nos toma pela mão e nos ensina a crescer no amor a Cristo e na comunhão fraterna.”.

E, no seguimento das palavras do Reitor, disse falando da Mãe e do que se pode aprender com Ela junto do Coração de Cristo a quem foi consagrado o Colégio:

“Gostei de ouvir o Padre Caldas dizer que desde 1929, na Capela do Colégio, o olhar da Mãe de Deus acompanha as súplicas de quem se aproxima do altar. Olhai para Ela e deixai-vos olhar por Ela, porque é vossa Mãe e vos ama muito; deixai-vos olhar por Ela, para aprender a ser mais humildes e também mais corajosos em seguir a Palavra de Deus; para acolher o abraço do seu Filho Jesus e, fortes por esta amizade, amar cada pessoa segundo o exemplo e a medida do Coração de Cristo, ao qual foi consagrado o Colégio, encontrando n’Ele vida, esperança e paz. Olhemos, irmãos e irmãs, para a nossa Mãe, que está no coração de Deus. O mistério desta jovem de Nazaré não nos é estranho. Não é ‘Ela ali e nós aqui’. Não, estamos ligados. Com efeito, Deus poisa o seu olhar de amor (cf Lc 1,48) também sobre cada homem e cada mulher, com nome e apelido! O seu olhar de amor está sobre cada um de nós.”.

Depois, falou da relação com Nossa Senhora e com a Igreja, relações similares:

“A relação com Nossa Senhora ajuda-nos a ter uma boa relação com a Igreja: ambas são Mães. Vós conheceis, acerca disto, o comentário de Santo Isaac, o abade da Estrela: o que se pode dizer de Maria pode dizer-se da Igreja e também da nossa alma. As três são femininas, as três são mães, as três dão vida. Por isso, é preciso cultivar uma relação filial com Nossa Senhora, porque, se esta falta, há algo de órfão no coração. Um padre que se esquece da Mãe, e sobretudo nos momentos de dificuldade, tem falta de alguma coisa. É como se fosse órfão, apesar de na verdade não o ser! Esqueceu-se da sua mãe. Mas, nos momentos difíceis, a criança vai ter com a mãe, sempre. E a Palavra de Deus ensina-nos a ser como crianças desmamadas no colo da mãe (cf Sl 131,2).”.

Concluiu, desejando que a comunidade colegial seja um viveiro de apóstolos e rezando à Senhora para que os ensine no essencial – “crer, adorar e esperar”:

“Desejo que a vossa comunidade sacerdotal continue a ser um viveiro de apóstolos, ponto de união das Igrejas dos vossos países com Roma, unidos na caridade e no testemunho vivo do amor de Deus pela humanidade. Com estes votos do melhor futuro para o Pontifício Colégio Português, transmito do coração aos Superiores, aos estudantes, aos colaboradores e às vossas famílias a Bênção Apostólica. E rezo a Nossa Senhora de Fátima para que vos ensine a crer, adorar e esperar como os Beatos Francisco e Jacinta e a Serva de Deus Lúcia.”.

E não deixou de pedir como em Francisco já é proverbial:

“E, por favor, não vos esqueceis de rezar por mim”.

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Se não é a primeira vez que a diocese de Lamego fornece um sacerdote para Reitor do Pontifício Colégio Português – recordo o saudoso Monsenhor Manuel Cardoso Carvalho, de Penso, Sernancelhe – é a primeira vez que os pendilhenses veem lá um dos seus conterrâneos.

Só se deseja que o Padre José Alfredo Patrício cuide daquele viveiro de apóstolos e os torne servidores de uma Igreja fiel, acolhedora, livre, pobre de meios, rica de amor e misericórdia e missionária. Que os padres sejam cultos, santos e servos e nunca donos disto tudo.

2017.12.06 – Louro de Carvalho

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