Uma casa…

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(Foto: Dão e Demo)

Por: Inês Pina

“Artigo 65º – Habitação e urbanismo

Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.”

Conhecem o artigo 65º? É o que está supracitado e está consagrado na Constituição portuguesa. Há uns tempos estive a ver uma reportagem sobre o direito à habitação. A sic afirma que há 26 mil família a viverem em barracas ou casas sem condições. Vejam a reportagem aqui. É óbvio que Lisboa e Porto estão no topo desta realidade. São cidades com grandes densidades populacionais. São cidades recetoras. São locais onde todos tentam ir para explorar novas oportunidades.

Inês Pina: Colaboradora Dão e Demo

Do que se sabe, são ambas muito caras. Basta irem a sites de imobiliário para perceberem que T1 chegam aos 900 euros mês de renda mensal. E não são os píncaros do luxo. Só para relembrar que o ordenado mínimo em Portugal é de 580 euros!

Sempre senti a casa como sendo um lugar de refúgio. Não a concebo como sendo menos do que isso. Desfazemo-nos em tantas funções ao longo do dia, que chegar a casa e sermos apenas nós, é um luxo que reservamos às nossas quatro paredes. Com a minha casa perco horas e perco-me nas horas. Acreditem que passo um dia a tratar dela. Só um disclaimer: vivo num T1 e sozinha!

Entendo, e muito, que quando não temos a casa em ordem todo o resto na nossa vida se desorganize. Não se pode dormir bem com a chuva a cair na cama, não se vive bem numa casa que não está devidamente fechada, que está em esqueleto. Não se pode viver bem em família quando o nosso quarto é um sofá cama na sala. Há muitas famílias nestas condições que têm filhos e têm rotinas instaladas no caos.

Muitas destas famílias trabalham. Isso sim, é grave! Qualquer um de nós que trabalha deveria conseguir uma casa com condições mínimas. É mais ou menos o principio do fordismo- na época referiu-se que os trabalhadores das fábricas automóveis deveriam conseguir comprar os carros que produziam. Com as casas deveria ser o mesmo: trabalho, logo consigo aceder a uma casa com condições mínimas!

É muito fácil ficar do lado de cá a apontar dedos. É fácil dizer que “ah e tal eu trabalho tenho os meus filhos na escola e tenho uma casa”, ninguém sabe as condições de vida de cada um. Às vezes somos tão embrulhados pela vida que quando demos conta já não nos conseguimos desamarrar.

O mercado imobiliário tem vida própria, garanto que bastam dois cliques online para se perceber que arrendar ou comprar uma casa é um desafio para muito poucos. Ninguém quer comprometer grande parte do seu vencimento, contudo é isso que o mercado pede!

Quem quer começar sente o aperto de dar o passo. Pagar uma casa seja através de renda ou de empréstimo (ou a pronto, caso sejam desses sortudos!) é adquirir um espaço para a nossa existência e para a nossa essência. Não são as paredes, são as vivências que a edificam. Os recantos da nossa casa contam histórias, constroem-nos. Quantos de nós não se lembram dos cheiros, sons e sabores que rodeiam a casa! O crepitar da lareira, o cheiro a canela, o cheiro a assado, o silêncio, as gargalhadas…são a robustez que nos alimentam a alma. Isso só é possível na nossa casa! Não tem de ter assoalhadas infinitas, não ter de ter torneiras banhadas a ouro, nem piscina interior. Tem de ter paz e dar-nos paz! O espaço somos nós que o edificamos, somos nós que lhe damos sentido. Basta termos possibilidade para o essencial, para a dignidade.

Não se devia explorar a dignidade das pessoas desta forma! Precisamos todos de refletir sobre a forma como deixamos os mercados financeiros organizarem a nossa vida! Desde quando o mercado determina quem fica nas bordas ou quem sobrevive?

Falo com experiência de quem queria muito começar. Mas garanto que cada vez que tento o mercado inflacionado condiciona outros passos. Não é justo! Não pode ser esta a filosofia. Devíamos ter acesso às condições mínimas, esse é o papel de um estado de direito.

Quando a crise nos atacou vimos muitos a perderem a casa de toda a vida é uma gestão difícil. Também é difícil não aceder a uma casa. Os tempos são outros! Um terreno e uma casa estão a tornar-se elementos inacessíveis.

É isso que se pretende? Como se edifica uma família sem um porto de abrigo? Que o estado perceba que só terá uma sociedade feliz se houver oportunidade para os seus núcleos, as famílias!

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