Uma etapa na Vuelta

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Por: Abílio Travessas

A passagem da caravana da volta a Portugal em bicicleta por Aver-o-Mar, estrada nacional nº 13, era um acontecimento único e marcante nas longas férias escolares do Verão. Uma festa trazida ao pé da casa, numa estrada de que a memória me traz o calcetamento pelo mestre Amadeu, empreiteiro da freguesia, no início da década de cinquenta.

Abílio Travessas

A festa começava com a passagem da caravana publicitária, o arremesso de propaganda – a maneira talvez mais eficaz de as empresas se darem a conhecer e aos seus produtos – e a correria do rapazio, as motas da BT prenunciando o pelotão. Passava num instante e só o ruído dos pneus no “paralelo” e a ânsia de identificar os nossos ídolos – começou pelo Fernando Moreira mas Alves Barbosa foi o mais idolatrado – me ficaram, mais o descortinar o “camisola amarela” abelha mestra no meio da colmeia de ciclistas. Depois vinham os carros de apoio do Sporting, FCPorto, Benfica, Sangalhos, Ginásio de Tavira, Académico do Porto do grande Ribeiro da Silva, que os deuses levaram muito jovem duma carreira que mais se poderia aproximar da de J. Agostinho. E a festa terminava com o “carro vassoura” a morder a roda do último corredor.

A comunicação social pela Emissora Nacional e pelo Primeiro de Janeiro, jornal nortenho da minha infância e juventude, traziam-me o relato das etapas, sendo a 1ª em pista, normalmente no velho estádio José de Alvalade e à noite. Um dos nossos maiores “pistards” foi Américo Raposo, sportinguista, crónico vencedor, que envergava, por isso, a camisola amarela. “Forçados da estrada”, “fina flor do ciclismo português”, expressivas sentenças dos tempos heróicos dos “gigantes do pedal”; a 2ª foi aplicada quando uma passagem de nível fechada obrigava os ciclistas a ultrapassarem-na com a bicicleta aos ombros com grave risco de serem colhidos pelo comboio e lá se perderiam os melhores da velocipedia nacional. Mas não me sai da memória um contra-relógio ganho por Alves Barbosa, disputado na sua Bairrada, e que levou a Emissora Nacional a falar de “golpe de teatro”pela espectacular reviravolta na classificação individual, apeando Ribeiro da Silva do 1ºlugar.

O futebol, o hóquei em patins, o atletismo e o ciclismo eram as modalidades preferidas e praticadas, embora o hóquei não usasse patins e os “sticks” fossem rudimentares. Mas tudo era exercício físico com o adro da igreja como palco mais os caminhos da aldeia e o mar sempre perto. Não havia obesos e doenças associadas, pragas dos tempos e dos jovens dependentes de telemóveis, televisões, consolas, internet e sei lá que mais.

Quanto ao ciclismo, a ideia de subir uma montanha duma grande volta, concretizei em Espanha e a escolha não era difícil: a ascensão, nos Picos da Europa, da mítica etapa dos Lagos de Covadonga, La Ercina e Enol.

E não foi difícil porque Joaquim Agostinho tinha ganhado nos Lagos no ano em que ficou em segundo, com um contra-relógio na última etapa a deixar muitas dúvidas na cronometragem. O “beneficiado” foi um espanhol, Fuente. Para concretizar esta aventura alojámo-nos – tive da minha mulher a condução do carro de apoio – em Soto d’Onis, a 7km de Covadonga, onde, nos começos do séc. oitavo, o cristão Pelágio travou o avanço dos árabes na conquista das Espanhas; e a 20 Km da meta, nos Lagos.

Segundo a Marca, diário desportivo, o ascenso de 12,5 Km vai dos 235 m aos 1120. Mas, dirão, não é muito, a nossa Serra chega aos 2 000 m; mas o que define esta subida é a inclinação das rampas, as pendientes que vão dos 7 aos 15% na decisiva La Huesera. Opinião da Marca: “Como sucede com a etapa de Alpe d’Huez no Tour de França, os Lagos também têm a sua própria lenda em Espanha”.

Parando sempre que o ritmo cardíaco acelerava lá consegui chegar aos Lagos…

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