No sesquicentenário de Gandhi, o apóstolo da dignidade

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Abílio Louro de Carvalho - Colaborador Dão e Demo.

Por: Abílio Louro de Carvalho

No próximo futuro dia 2 de outubro, assinalarão os calendários os 150 anos do nascimento de Mohandas Karamchand Gandhi, que nasceu a 2 de outubro de 1869 em Porbandar, no Estado de Gujarat, na Índia, e entrou para a história como um dos idealizadores e fundadores do moderno estado indiano e defensor dos protestos sem uso de violência.

O nome “Mahatma”, por que é conhecido e que lhe foi atribuído por Ravindranath Tagore, significa, em sânscrito, “grande alma”.

A sua família pertencia à casta dos comerciantes, conhecida por ‘vaisia’. Foi criado sob a crença no deus hindu Vishnu, que tem como preceito a não-violência. Como era costume, Gandhi teve um casamento arranjado aos 13 anos de idade. Nessa época, a Índia estava sob o domínio britânico. Foi para Londres estudar Direito e em 1891 voltou ao seu país para exercer a profissão de advogado.

Destacado pelas suas façanhas e pela sua maneira ‘única’ de agir, é considerado o ícone do AHIMSÁ (lê-se arrimsá), termo sânscrito que significa não-violência. Trata-se de um código de ética da tradição hindu que vai muito além do simples não agredir fisicamente, referindo-se fundamentalmente ao respeito incondicional por qualquer forma de vida e abrangendo, por exemplo, o não agredir por palavras, atitudes e pensamentos. 

Atribui-se-lhe a seguinte frase sentenciosa: “Olho por olho e o mundo acabará cego”.

Em 1893, Mahatma Gandhi foi morar na África do Sul, à época também colónia britânica, onde sentiu pessoalmente os efeitos da discriminação contra os hindus. Em 1893, iniciou a política de resistência passiva em protesto contra os maus tratos sofridos pela população hindu. Em 1894, fundou a secção do Partido do Congresso indiano, destinada a lutar pelos direitos do seu povo.

Em 1904, Gandhi começou a editar o jornal “Opinião Indiana”. Nessa época, além dos textos religiosos hindus, leu os Evangelhos, o Corão, e as obras de Ruskin. Tolstoi e Henry David, quando descobriu as bases da desobediência civil. Em 1908 escreveu “Autonomia Indiana”, em que põe em discussão os valores da civilização ocidental. Em 1914 retornou ao seu país e começou a difundir as suas ideias.

Terminada a 1.ª Guerra Mundial, a burguesia na Índia, desenvolveu forte movimento nacionalista, formando o Partido do Congresso Nacional Indiano, tendo como líderes Mahatma Gandhi e Jawaharlal Nahru. O programa preconizava: a independência total da Índia; uma confederação democrática; a igualdade política para todas as raças, religiões e classes; as reformas socioeconómicas e administrativas; e a modernização do Estado.

Em 1922 uma greve contra o aumento de impostos reuniu uma multidão que queimou um posto policial e Gandhi foi detido, julgado e condenado a seis anos de prisão.

Libertado em 1924, Gandhi abandonou por alguns anos a atividade política ostensiva. Em 1930, organizou e liderou a célebre marcha para o mar, quando milhares de pessoas andam mais de 320 quilômetros, de Ahmedhabad a Dandi, para protestar contra os impostos sobre o sal.

As rivalidades que existiam entre hindus e muçulmanos, que tinham como representante Mohammed Ali Jinnah e que defendia a criação de um Estado muçulmano, retardaram o processo de independência. Em 1932, a sua greve de fome chamou a atenção do mundo inteiro. Com o início da Segunda Guerra Mundial, Gandhi voltou à luta pela retirada imediata dos britânicos do seu país. Em 1942, foi preso novamente. Por fim, em 1947 os ingleses reconheceram a independência da Índia, contudo mantendo seus interesses económicos.

Logo após a independência, Gandhi procurou evitar a luta entre hindus e muçulmanos, mas os seus esforços de nada adiantaram. Em Calcutá, as lutas deixaram um saldo de 6 mil mortos. Por fim, o governo decidiu aprovar a divisão da Índia, por critérios religiosos, em duas nações independentes – a Índia, de maioria hindu, governada pelo Pandita (Primeiro-Ministro) Nehru, e o Paquistão, com maioria muçulmana. Essa divisão gerou violenta migração de hindus e muçulmanos em direção opostas da fronteira, que resultou em sérios conflitos.

Gandhi foi obrigado a aceitar a divisão do país o que atraiu o ódio dos nacionalistas.

Em 20 de janeiro de 1948, Gandhi sofreu um atentado, mas ninguém ficou ferido. Porém, pouco depois, no dia 30, foi morto a tiro, em Nova Déli, por um hindu radical. O seu corpo foi cremado e as cinzas lançadas no rio Ganges.

Nomeado por cinco vezes para Nobel da Paz, Gandhi nunca foi agraciado com o prémio. Décadas depois, o comité organizador do Nobel assumiu o erro.

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O semanário Expresso, deste sábado, dia 19 de janeiro, clamando que a Índia o celebra, mas “não segue o seu legado” (no campo da política externa, a filosofia da não-violência não faz sentido para a Índia ao declarar-se como potência nuclear em 1998 e ter travado várias guerras com o Paquistão e a China), iniciou a publicação de 5 volumes (o 5.º será publicado a 16 de fevereiro) sob o título “A minha vida e as minhas experiências com a verdade”, a autobiografia do próprio Mohandas K. Gandhi, em tradução de Manuel Cardoso e coedição do Expresso e da Glaciar.

Estes cinco volumes constituem segundo Manuela Gocha Soares, do Expresso, “uma viagem pelas memórias deste protagonista que é uma referência ímpar para os movimentos sociais do século XX e início deste”.

Depois de se formar em direito e se habilitar para o exercício da advocacia em Londres, foi trabalhar para a África do Sul (à época, uma colónia britânica como a sua Índia), aos 24 anos de idade, pois a vida profissional na Índia não lhe sorriu quando regressou, talvez por ter adquirido hábitos europeus.    

A sua iniciação na atividade política começou depois de sofrer discriminação racial durante uma viagem de primeira classe num comboio na África do Sul. Obviamente entendia que a profissão, o fato e a gravata e o bilhete que adquirira pelo pagamento do respetivo tarifário legitimariam o acesso à carruagem de 1.ª classe. Porém, quando lhe pediram, em 1893, que passasse à 3.ª classe por não ser branco (a 1.ª era destinada ais caucasianos), Gandhi recusou. Por isso, foi atirado para fora do comboio na estação de Pietermaritzburg, pois estava a desrespeitar as leis da segregação. E, reparando que, tal como ele, ou até mais, havia muitíssimos indianos discriminados e que muitos viviam em condições extremamente precárias, iniciou sua luta contra a discriminação racial e contra a injustiça. E, por conta disso, teve a prisão decretada várias vezes.

A 22 de setembro de 1921,outra viagem de comboio levou-o a optar pelo uso permanente do xaile e dhoti, a roupa dos indianos pobres, por ter sentido que, para defender estas pessoas, deveria vestir e viver como elas. E, assim, o traje, que levou Churchill a apelidá-lo de faquir em 1931, tornou-se um símbolo de protesto contra a colonização britânica.

Foi um participante ativo no movimento pela independência da Índia, sendo contra a divisão do país em dois Estados, o que acabou por acontecer com a criação da Índia, predominantemente hindu, e do Paquistão, de maioria muçulmana, sendo que as rivalidades entre hindus e muçulmanos retardaram o processo de independência, que só foi conseguida no contexto da 2.ª Guerra Mundial, como se disse. E ficou internacionalmente famoso pela sua política de desobediência civil e o uso do jejum como protesto. Uma das suas estratégias era o boicote aos produtos importados, como os tecidos ingleses e a incitação ao não pagamento dos impostos. Fez 17 greves de fome à época.

Gandhiji assumiu o papel de líder e guiou o movimento pela liberdade com o apoio de outros líderes como Subhash Chandra Bose, Jawaharlal Nehru e Sardar Patel. E liderou diversas campanhas não-violentas contra o Império Britânico, como a Marcha do Sal, o movimento de desobediência civil e o Quit India Movement, que ganharam o apoio das massas em toda a Índia. A culminação desses movimentos resultou na decisão britânica de abandonar a Índia em 1947.

O conhecido como Bapu, o Pai da Nação Indiana, levava um estilo de vida muito simples e pregava que se devia “viver de maneira simples para que outros pudessem simplesmente viver”.

O compromisso de Gandhiji com a não-violência e sua crença em uma vida simples (fazia as próprias roupas, era vegetariano e jejuava como maneira de autopurificação e de protesto) continua a inspirar e a ser um raio de esperança aos oprimidos e marginalizados ao redor do mundo.

O seu compromisso inabalável é evidenciado pelos seus inúmeros jejuns em prol de causas como a harmonia religiosa, pelos protestos contra a opressão de pessoas carentes, intocáveis e contra a violência.

O grande líder espiritual, social e político da Índia, é considerado a figura mais reverenciada dos nossos tempos. Para Albert Einstein, “as gerações por vir terão dificuldade em acreditar que um homem como este realmente existiu e caminhou sobre a Terra”. E assim ele permanecerá graças à sua eterna mensagem de paz, amor e ao cada vez mais relevante princípio da não-violência.

Ficou conhecido pela sua maneira única de lutar, com métodos diferentes dos empregados por outros que lutavam pela paz, a opressão e agressão britânica eram revidadas com a resistência não-violenta. Na sua estratégia apelava às massas e a outros setores da população.

Em reconhecimento pelo seu enorme contributo na luta pela liberdade no mundo e pelos direitos humanos, bem como pelo ‘Satyagraha’ (método de mobilização em massa) contra a opressão, o dia 2 de outubro, aniversário de Gandhiji (o sufixo “ji”, em hindi, tem o propósito de demonstrar respeito), foi declarado o Dia Internacional da Não-Violência, reconhecido por 193 nações. Gandhiji é conhecido como o pai do movimento dos direitos humanos do século XX e o pioneiro da luta pela paz e justiça da modernidade. A sua mensagem e os seus ensinamentos têm significado ainda mais especial no mundo conturbado da atualidade, repleto de divisões políticas e religiosas, preconceito racial e exploração humana.

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A atividade política de Mahatma (grande alma) esteve sempre ligada ao seu pensamento filosófico da não-violência, o único caminho para a conquista da igualdade. Opor violência a violência só aumenta o mal. Para ele, a libertação da alma humana, em relação à servidão terrestre, só pode ser alcançada através de uma disciplina diária, uma rigorosa meditação, jejuns e orações que conduz a um completo domínio dos sentidos.

Sem conhecer Tolstoi, seguiu-o, pois leu a “Carta a um Hindu” que o escritor escrevera ao nacionalista indiano Tarak Nath Das, publicada em 1908 pelo jornal Free Hindustan e em que afirma que fica assegurado que “os indianos somente se libertariam do jugo colonial britânico pelo protesto não violento e pela resistência pacífica”. A leitura da carta levou a que Gandhi passasse a corresponder-se com Tolstoi até à sua morte em 1910.  

Gandhi é considerado uma importante referência histórica para os movimentos pacifistas ocorridos no mundo. Os seus ensinamentos têm plena atualidade hoje, mas, para terem viabilidade prática, é preciso criar consciência sobre dos condicionamentos que nos envolvem e agir em torno duma sadia educação comportamental.

Desde crianças aprendemos a normalidade do murmúrio e da crítica destrutiva sobre a vida alheia e a naturalidade de se fazer aquilo de que não se gosta, agredir a quem nos ama, odiar o trabalho que nos dá sustento e a reclamar o tempo todo, de tudo e de todos.

Todas essas situações são graus diferentes da não observância do ‘ahimsá’. Portanto, se calhar, precisamos de nos reeducar. E, para que tal experiência seja autêntica, precisa de estar inculcada de forma profunda em nossos valores, sem qualquer preconceito. Que a celebração dos 150 anos de Gandhiji é a reafirmação de seus valores.

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