Ciência do travesseiro.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Sempre se disse que, nas decisões complicadas e definitivas, se deve pedir conselhos ao travesseiro. Por outras palavras,  as decisões importantes, na vida de cada um, requerem tempo e ponderação, antes de serem levadas por diante. Os nossos avós, antes de qualquer negócio ou tomada de posição, diziam, simplesmente, que iam “dormir sobre o assunto”. E, nesses casos, a “noite era boa conselheira”.

Claro que “dormir”, na linguagem dessa altura, queria dizer “pensar e pesar” e não “deixar passar” nem esquecer ou adiar, porque a ponderação exige serenidade e distância.

Já havia quem confundisse a ciência do travesseiro, em que se partilhavam receios, dúvidas e hesitações e se pesavam causas e mediam consequências, com os segredos de alcova. E logo se estabeleceram fronteiras e se demarcou a diferença entre almofada e travesseiro.

Embora cumpram a mesma função, a almofada cheira a luxo, a perfume e requinte, enquanto o travesseiro se fica pelo encosto e aconchego da cabeça sem especificar competências ou garantir comodidades no sono. Dito de outra forma, a almofada permite sonhos e devaneios; o travesseiro ajuda no descanso merecido, após um dia de trabalho aturado.

Nos devaneios da almofada, perdeu-se o direito à privacidade, misturando e vendendo, debaixo dos lençóis, o sigilo profissional com a avidez de beijos e notícias de vidas paralelas, a competência com exibição e desempenhos gostosos, a dignidade com influências e os lucros com a distribuição de alvíssaras e comendas.

E a evolução social deixou para trás a dureza e rigor de um travesseiro esquecido nas aldeias desertas, onde ainda se continua a amassar o pão com o suor do rosto.

As canseiras da cidade e o anonimato de quem veio esgravatar melhores condições de vida cancelam a verticalidade e a memória dos bons costumes, atirando para a vala comum do “salve-se quem puder” os pruridos, conselhos e boas intenções de quantos apostam na forma digna de subir a pulso numa carreira de trabalho e dedicação.

Cada vez mais se confunde dignidade com provincianismo e saloiice.

Chega-se ao ponto de criar círculos fechados de competência e cultura, específicos de nomes e famílias.

Manda-se à fava a democratização do ensino e do poder, porque a seriedade, o saber e a isenção moram no condomínio fechado dos filhos e parentes das elites dominantes.

Se não for ministro, será adjunto ou secretário, assessor ou chefe de gabinete, num rodopio de moscas à volta da estrumeira, como no tempo dos reis e grandes senhores da terra.

Os donos disto tudo estão em todo o lado, cada vez mais arrogantes, senhores do seu nariz, sempre descontentes com os capitais que continuam a surripiar à má fila.

Já perderam a vergonha de afirmar e exibir a sua “capacidade de intervenção”.

Seria bom não esquecer que é por estes caminhos que se firmam as oligarquias. E todos sabemos as consequências. E todos conhecemos o inferno onde vai parar. E não há retorno.

O tão denegrido Estado Novo, até na sepultura, dá voltas de vergonha com tantos abusos e injúrias. Da sua história, não se conhecem tamanhos roubos e desvarios.

Talvez o defeito esteja mesmo no recheio e qualidade do travesseiro.

A macieza da almofada estraga a lucidez da razão e as elementares e tradicionais regras de bom governo e porte a condizer.

Já ninguém acredita que as cinzas na cabeça e a contensão da Quaresma consigam reverter e corrigir tantos folguedos e desmandos. É Carnaval todos os dias! Nem a chuva o sustem…

A penitência e os apertos, sem escolher orçamentos, caem sempre para o mesmo lado.

O problema – ou a solução – é que, de repente, a carga vai ao mar e o povo fica saturado deste Carnaval, interesseiro e trapalhão, que se exibe na praça, a toda a hora.

Alguém vai ter de se esconder no armário, como o Miguel de Vasconcelos, que, sendo ministro do reino, em 1640, já aplicava aos mais fracos e descontentes pesados impostos e sanções.

Acabou atirado pela janela do palácio e lambido pelos cães, no Terreiro do Paço.

Parece que ninguém quer aprender a lição. Mas a história pode repetir-se a qualquer hora…

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