A Catedral de Notre-Dame ardeu… Vamos reconstruir a Catedral!

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Abílio Louro de Carvalho - Colaborador Dão e Demo.

Por: Abílio Louro de Carvalho

O dia 15 de abril passará à História da Civilização como o dia do grande incêndio da Catedral de Notre-Dame de Paris, na Île de la Cité, uma das duas ilhas naturais que integram o território da cidade, no rio Sena.

Majestoso e sublime edifício”, como escreveu em 1831 Victor Hugo, Notre-Dame foi edificada em 1163 e, embora os trabalhos de construção tenham prosseguido até 1345,iniciou as funções cultuais em 1182.  No século XIX foi restaurada pelo arquiteto Viollet-le-Duc.

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O inesperado incêndio

Do fogo neste monumento gótico do Século XII não resultaram vítimas mortais, o que ajuda a minorar a gravidade do acontecimento, embora as informações oficiais confirmem dois feridos ligeiros: dois agentes da polícia e um bombeiro. A primeira informação surgiu às 18,20 horas (menos uma em Lisboa), mas não foi logo confirmado o fogo. Porém, às 17,43, já se sabia que a Catedral e os edifícios da envolvente foram evacuados e a polícia fechara várias estações de metro e cortara a circulação em algumas ruas.

O porta-voz dos Bombeiros sapadores de Paris fez o anúncio por volta das 9,30 horas locais do dia 16 de que o incêndio estava extinto. Porém, as corporações de bombeiros continuaram “mobilizadas para as fases de vigilância, de verificação da estabilidade das estruturas e, sobretudo, para fazer a evacuação das obras que o justifiquem”, como explicou o comandante Gabriel Plus, acrescentando ainda pode ser necessário “extinguir focos residuais”.

Tudo aponta para um acidente como origem do incêndio (um curto-circuito segundo disse mais tare da investigação). Assim o afirmou Valérie Pécresse, presidente da região da Île-de-France, mas o inquérito da Procuradoria de Paris pretendeu apurar os eventuais responsáveis da “destruição involuntária por incêndio”. O procurador Rémy Heitz declarou à imprensa que 5 empresas mantinham trabalhos de recuperação e restauro no local e que os funcionários já começaram a ser ouvidos, mas acrescentou:

Nada aponta para um ato intencional. As investigações vão ser longas e complexas.”.

Segundo os bombeiros, que tentaram controlar e extinguir o incêndio sem provocar mais estragos estruturais (por exemplo, não utilizando enormes cargas de água aéreas como sugeria Donald Trump aconselhando o uso dos canadairs), o fogo começou no sótão, tendo alastrado para os telhados, pelo que os trabalhos de recuperação que estavam a decorrer na zona serão passados a pente fino.

Anote-se que o teto, que desabou no fogo, datava de 1326 e tinha um peso de 210 toneladas, assentes numa estrutura em madeira de carvalho.

Ainda bem que os bombeiros não utilizaram o despejo de cargas de dezenas de toneladas de água sobre a catedral em chamas. O peso (da água) podia arruinar de imediato as estruturas; e a absorção excessiva de água pelas colunas, pilastras e vigas podia levá-las à ruína a médio prazo.

Não há por enquanto um apuramento preciso dos estragos, pois não foram apenas as chamas a causá-los, mas também o fumo e a água. Assim, como adianta Benoiste de Sinety, vigário geral da arquidiocese de Paris, o órgão estará “quase totalmente destruído”, justamente devido à água utilizada para controlar as chamas. E parte da abóbada desmoronou-se ainda na nave central. Não obstante, a perda mais evidente é a do pináculo, cuja queda será o ícone histórico deste incêndio. Porém, estão de pé as duas torres com os campanários e sinos; está intacto o altar principal e o crucifixo; salvaram-se algumas das obras mais importantes, guardadas no interior de Notre-Dame, graças à “formidável corrente humana” de bombeiros e polícias, como apontou Anne Hidalgo, presidente da Câmara de Paris; e estão guardadas temporariamente no interior do edifício da autarquia várias preciosidades. Assim, a coroa de espinhos colocada na cabeça de Jesus antes da crucificação foi salva das chamas e o ostensório do Santíssimo Sacramento, bem como a túnica que terá sido usada em 1238 por Luís IX, o rei santo de França. Também estarão intactos, a 100%, o vitral norte e as 16 estátuas de apóstolos e outros santos, em cobre, que estavam junto ao pináculo, que uma operação de restauro iniciada apenas 4 dias antes salvou.

Entretanto, as autoridades assumem que foram identificadas “vulnerabilidades” na estrutura da Catedral, especialmente na abóbada, como referiu Franck Riester, Ministro da Cultura, e Laurent Nunez, Secretário de Estado do Interior. O trabalho de proteção da estrutura deve durar 48 horas e, só a partir daí, poderá ser mais preciso o balanço dos estragos.

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A imprensa destaca a ação do padre Jean-Marc Fournier (na casa dos 50 anos), capelão da brigada de incêndio de Paris, agora considerado um herói por ter salvado relíquias como o ostensório do Santíssimo Sacramento e a Coroa de Espinhos de Jesus Cristo da catedral entre as chamas.

Foi esse mesmo padre que rezou pelos mortos e consolou os feridos e os que perderam entes queridos aquando do ataque terrorista no Bataclan, em Paris, a de 13 de novembro de 2015, onde morreram 89 pessoas. Agora é considerado um herói depois de salvar, na noite do dia 15, duas relíquias religiosas que se temia terem sido perdidas para o fogo. Lida com a vida e a morte diariamente sem mostrar medo, como afirmou um membro dos serviços de emergência franceses, citado pelo canal Sky News. E Etienne Loraillere, editora da rede da televisão católica francesa KTO, disse que Fournier “foi com os bombeiros para a Catedral de Notre-Dame para salvar a Coroa de Espinhos e o Santíssimo Sacramento”. E as reações nas redes sociais sublinham que o capelão do corpo de bombeiros é o homem que salvou do fogo o SS.mo Sacramento e a Coroa de Espinhos. Segundo a imprensa internacional, há quem peça que seja considerado “santo” pelos seus atos heroicos.

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As reações ao acontecimento

A par das autoridades que se deslocaram ao local e da polícia e bombeiros que intervieram como é requerido nestas circunstâncias, a população passou de estupefacta à atitude de rezar e cantar emocionadamente; e o Presidente francês Emmanuel Macron foi célere a prometer que a Catedral, um dos monumentos históricos mais visitados da Europa, será reconstruída, no que foi secundado pelo presidente do Conselho Europeu Donald Tusk, que instou todos os países da União Europeia a participar na reconstrução. E logo se desencadeou uma grandiosa onda de solidariedade em palavras e atos em prol de Notre-Dame. Das grandes fortunas francesas a fundações, passando por uma cidade húngara e por um reino costa-marfinense, a reconstrução da Catedral devastada está a gerar uma vaga de doações à escala mundial em virtude do estatuto verdadeiramente excecional da Sé arquiepiscopal de Paris.

A mais de 1.500 quilómetros de Paris, Szeged (no sul da Hungria) vê as suas autoridades a anunciar a doação de 10 mil euros para ajuda na reconstrução deste símbolo de França, lembradas de que, há mais dum século, Szeged (hoje com cerca de 160 mil habitantes) ficou destruída por grandes inundações tendo a cidade recebido ajuda da capital francesa para se reerguer. E a autarquia de Szeged, cidade que deu a uma das principais avenidas o nome de Paris em sinal de gratidão, apela aos seus habitantes a que façam doações individuais para a reconstrução da Catedral, como frisou à AFP François Debiesse, líder da associação Admical, que promove o mecenato corporativo. De África, nomeadamente da Costa do Marfim, antiga colónia francesa, surgiram palavras de solidariedade e incentivo para a reconstrução de Notre-Dame. O rei de Krindjabo, capital do reino de Sanwi, da etnia akan (grande grupo que se estende da Costa do Marfim ao Togo), no sudeste do país, anunciou que vai contribuir para a reconstrução da Catedral onde foi batizado, na década de 1700, Louis Aniaba, príncipe daquele reino que foi agraciado com a insígnia ‘Ordem da Estrela de Notre-Dame’. Disse à agência France Presse (AFP) o rei Amon N’Douffou V, sem especificar valores:

Estou em plenas consultas com os meus notáveis e vamos fazer uma doação para a reconstrução do monumento (…) As imagens perturbaram-me o sono e não consegui dormir, porque esta catedral representa uma forte ligação entre o meu reino [Sanwi, um protetorado francês após julho de 1843) e França.”.

As doações de empresas e das grandes fortunas francesas para financiar a reconstrução da Catedral superavam, na tarde de 16, os 600 milhões de euros e, na de hoje, dia 17, ultrapassavam os mil milhões. A família herdeira do grupo L’Oréal, Bettencourt-Meyers, e a multinacional francesa de cosmética anunciaram uma doação de 200 milhões de euros, montante que se junta aos 200 milhões de euros anunciados pela família Arnault (a primeira fortuna de França) e pelo grupo do segmento de luxo LVMH, que detém marcas como a Louis Vuitton, a Dior, a Bvlgari e a Marc Jacobs. O grupo petrolífero Total e a família Pinault, dona do grupo de luxo Kering, o 2.º grupo mundial no setor do luxo e que detém marcas como a Gucci, a Yves Saint Laurent e a Boucheron, anunciaram uma doação de 100 milhões de euros, respetivamente.

Numa altura em que alguns especialistas admitem serem necessários 10 a 15 anos para restaurar Notre-Dame, a vaga de doações para a reerguer está a mobilizar anónimos, organismos estatais e regionais e fundações privadas. A Fundação do Património é um desses exemplos, tendo criado uma página na Internet para angariar fundos, que registou um forte congestionamento. Na manhã do dia 16, já tinham sido angariados mais de 11,5 milhões de euros, com o objetivo atingir os 100 milhões de euros. A Câmara de Paris, através da presidente, anunciou uma contribuição de 50 milhões de euros e a autarca avança com outra medida:

Vou propor ao Presidente que organizemos juntos, nas próximas semanas, uma grande conferência internacional dos doadores (…) com o objetivo de conseguir os fundos necessários para a restauração”.

Por sua vez, a região Ile-de-France (Paris) desbloqueou 10 milhões de euros de ajuda de emergência para a arquidiocese poder avançar com os primeiros trabalhos. Outros municípios franceses (Chalon, Rennes, Nantes, Bordeaux, Toulouse, entre outros) seguiram-lhe o exemplo. Também a Liga Francesa de Futebol está comprometida com o financiamento, como garantiu a presidente Nathalie Boy. E o Ministro da Cultura Franck Riester congratulou-se com o facto dizendo:

Quando existe uma tal energia, um tal desejo de solidariedade entre os nossos compatriotas, um amplo número de personalidades, de pessoas em todo o mundo que querem contribuir para a reconstrução de Notre-Dame, devemos apoiarmo-nos neste entusiasmo”.

Entre os sinais de solidariedade fora de fronteiras, está a associação French Heritage Society (Nova Iorque), dedicada à preservação do património arquitetónico francês, que lançou um apelo de doações entre os seus 450 membros. E, em Estrasburgo (França), no Parlamento Europeu, foi colocada, uma urna à entrada do hemiciclo para recolher os donativos dos eurodeputados.

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As catedrais que tombaram, mas que não se perderam

O Expresso on line publicou um texto de Mafalda Ganhão sob o título vertido em epígrafe enfatizando que as catedrais “desafiam o passar do tempo”, referindo que muitas foram mortalmente atingidas por cataclismos ou pela ação humana (pela via das guerras). Porém, há belos exemplos das que sofreram, mas que recuperaram o antigo esplendor, constituindo “uma memória feliz” a ter em conta em dia de amargura em Notre-Dame. E menciona as seguintes:

– a Sé de Lisboa – templo românico iniciado em 1147 e um dos mais afetados pelo terramoto de 1755, com a destruição da Capela do Santíssimo, parte da torre sul e a decoração da capela-mor, incluindo os túmulos reais e o claustro. Na 1.ª metade do século XX avançou a obra de restauro devolvendo-lhe parte da aparência medieval, tendo o edifício sido reinaugurado em 1940.

– a Catedral de São Paulo (a primeira igreja inglesa construída em madeira), em Londres. O objetivo era evangelizar os anglo-saxões da região e o lugar foi sendo reformado até 1087, após o que foi destruído por um incêndio. Fizeram-se obras, mas a restauração definitiva só aconteceria em 1633, ganhando a fachada neoclássica e a cúpula de madeira. Em 1666, atingiu-a outro incêndio, ruindo novamente a cúpula. E a igreja foi reconstruída sob a direção do arquiteto Christopher Wren, que a desenhou ao estilo barroco. Após minucioso estudo, Wren percebeu que os planos foram incluindo sempre cúpula demasiado grande para a estrutura e demoliu todas as ruínas para recomeçar a obra de raiz. Os trabalhos terminaram em 1710.

– A Igreja gótica de Santa Maria do Mar, em Barcelona. A sua 1.ª pedra foi lançada em 1329 sobre as fundações de igrejas anteriores. Bombardeada em 1714 e reconstruída, foi afetada por um incêndio de 11 dias, no início da guerra civil. As chamas destruíram o altar barroco, as imagens religiosas e o arquivo histórico. Todas as entradas viriam a ser tapadas posteriormente.

– A Catedral da Santíssima Trindade, em Dresden. Ficou seriamente danificada na II Guerra Mundial e foi reconstruída nos anos de 1980, sob o regime da Alemanha Oriental.

– A Catedral de Nossa Senhora, em Reims (região de Champagne). Construída no século XIII, para substituir uma antiga igreja destruída num incêndio, foi bombardeada na I Grande Guerra, a 20 de setembro de 1914. Com a abóbada seriamente danificada, após o final da guerra iniciaram-se as extensas obras de recuperação, que viriam foram concluídas em 1937.

– A Catedral de São Martinho, Ypres. É um dos edifícios mais altos na Bélgica (mais de 100 metros) e a primeira igreja românica da região. Iniciou-se em 1230, mas só ficou concluída em 1370 e resistiu ao tempo até ser mais uma das mais atingidas na I Guerra Mundial. A sua reconstrução terminada em 1930 deu-lhe o esplendor original com uma torre ainda maior.

– A Catedral de Colónia (património da humanidade desde 1996) começou a ser erigida no século XIII, demorando mais de 600 anos a ser concluída. Na II Guerra Mundial, sofreu o impacto de 14 bombardeamentos aéreos. As abóbadas das naves principais caíram, perdendo-se o órgão e os vitrais do século XIX, entre outros danos. A reconstrução ficou pronta em 1956, embora na base da torre noroeste tenha ficado visível, até ao final dos anos 90, um reparo de emergência, feito com tijolos tirados duma ruína próxima, em que se interveio para fidelidade ao original.

– A Catedral de Berlim. Situada nas margens do Spree (e edificada da entre 1895 e 1905), foi atingida por ataque aéreo na II Grande Guerra. A cúpula sofreu incêndio, não controlado por o acesso ao local ser difícil, e ficou destruída. Em 1953, foi construído um telhado temporário para tapar a catedral e proteger o que restou do interior. A reconstrução viria a ser iniciada em 1975.

– A Catedral de Léon, em Espanha. Atingida por um raio em 1966, sofreu enormes danos com o incêndio. Deixou-se arder o teto e a estrutura de madeira (que seria reconstruída) para o excesso de água não alterar o peso da pedra (por retenção da humidade) levando toda a catedral a tombar.

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É preciso recuperar a Notre-Dame

É efetivamente imperioso recuperar a Catedral que é um símbolo religioso e cultural de França e da sua capital e um dos monumentos mais visitados da Europa. É uma das belas joias que “A filha mais velha da Igreja” (“La fille ainée de l’ Église) ostenta. O Presidente francês o prometeu e todos o querem.

Porém, a recuperação da Notre-Dame é um trabalho que irá precisar de “anos de obras”, como indicou Eric de Moulins-Beaufort, o novo presidente da Conferência Episcopal francesa. Macron estima que os trabalhos de restauro demorem 5 anos.

E a onda de donativos é eloquente em relação à vontade de reconstruir a Catedral. Todos os cidadãos, instituições privadas e países amigos de França parecem empenhados na obra. A própria UNESCO garantiu disponibilizar todas as suas energias, cientistas e técnicos para, com o conhecimento adquirido, ajudar na boa recuperação da Catedral parisiense. Não obstante, aproveitou o ensejo para chamar a atenção de todos para a necessidade de fazer a manutenção do património, que é o trabalho de todos os dias e que não está a ser feito por falta de zelo de governos, autoridades e administradores, como apontou o embaixador de Portugal na UNESCO.

Tal como antigamente um pedreiro, ao ser interrogado sobre o que estava a fazer (enquanto aparelhada a pedra para a futura catedral), respondia ufano “Estou a construir uma catedral”, também hoje, cada um dos cidadãos, grandes mecenas, autoridades, trabalhadores, técnicos e cientistas, crentes, líderes religiosos podem dizer com ufania “Estamos a reconstruir a Catedral”.

E, assim, Catedral ardida, Catedral reposta!

Sim, Vamos reconstruir a Notre-Dame, onde todos se podem reencontrar.

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