A gadanha | Se tem que ceifar pois que ceife, ‘erva tenra’ é que não!

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Por: Acácio Pinto (*) 

Feita para ceifar, a gadanha é meticulosa e infalível na execução da sua tarefa.

Tem sempre o fio feito. Picada ou por picar está sempre pronta a abater.

Seja noite alta ou manhã rasa; com céu plúmbeo ou azul-marinho; esteja sol ou chuva grossa; com Meca à vista ou Fátima ao lado; tenha pálida ou tisnada pele; fale aramaico ou em esperanto comunique; batizado de Tiago ou Guadalupe de nome; com janeiro à porta ou julho à vista…

E há também o homem. O operador dessa ferramenta cega.

De negro ou roxo vestido, opera. Seja Tanato ou Anúbis ganha balanço e ceifa de seguida. Monocórdico, qual antártico belzebu, o homem da gadanha nada mais sabe que não seja abater.

A doçura não importa. A idade de nada conta.

Abate. Executa. Este e mais outro. Aquele também.

As ações não são tidas nem achadas. As dominicais preces esvaem-se.

E o brilho dos olhos? Nem esse é antídoto.

E o braço balança. Balança de novo. Balança sempre. E mais um corte. E mais uma vida tombou. Mais outro balanço e essoutro que partiu.

Não, os sonhos não entram neste jogo. E os amanhãs também não.

Não, os pais não são tidos na equação e os amigos de fora ficam.

Não, de nada importa a dor nem o choro do coração.

E a gadanha intrépida cumpre mais um corte aqui e outro mais a norte. Aquele tomba de viés e este de borco cai. Mais além aquele é ceifado em silêncio duro e este aqui com estrondo foi.

Sim, se tem que ceifar pois que ceife! ‘Erva tenra’ é que não!

(*) A propósito da morte de um jovem de 18 anos. A minha homenagem.

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