A greve e o crowdfunding

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Paulo Marques: Colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: Paulo Marques

O direito à greve é garantido através do artigo 57.º da Constituição da República Portuguesa.

É um direito de todos os trabalhadores, independentemente da natureza do vínculo laboral que detenham ou do sector de actividade.

O dia de greve não é pago. A greve suspende, no que respeita aos trabalhadores que a ela aderirem, as relações emergentes do contrato de trabalho, nomeadamente o direito à retribuição e, consequentemente, o dever de assiduidade.

É absolutamente proibido coagir, prejudicar e discriminar o trabalhador que tenha aderido a uma greve.

Estes são os pressupostos de uma greve como, por exemplo, a “greve cirúrgica” dos enfermeiros, que começou há meses e está longe de terminar, estando já agendados mais 45 dias de greve.

Não vou, minimamente, aflorar se os motivos para a greve são ou não justos, se devem ou não fazer greve.

Limito-me a alertar para uma questão ainda não ponderada e que pode ser, a meu ver, muito grave e perigosa para o nosso Estado de Direito.

“Conseguir mais de 400 mil euros para financiar uma greve é, não só estranho, como algo que deveria ser investigado.”

Usar o crowdfunding para financiar uma greve não é um facto de somenos importância. Conseguir mais de 400 mil euros para financiar uma greve é, não só estranho, como algo que deveria ser investigado. Segundo os últimos dados foram cerca de 10000 as pessoas que contribuiram, ou seja, em média, cada uma delas deu 40 euros para que os enfermeiros possam fazer greve.

Obviamente que cada um faz o que quer com o seu dinheiro mas a verdade é que nunca a plataforma utilizada para o crowdfunding teve um resultado sequer parecido com este. Não houve nenhum investimento em Portugal que merecesse tamanho montante.

Deixo duas interrogações: Não estará o sector privado a financiar a greve dos enfermeiros de modo a que, saindo obviamente prejudicado o SNS (Serviço Nacional de Saúde), resultem daí grandes proveitos para estes?

Não poderão estar os Hospitais privados a “investir” nesta greve para depois receberem esse investimento multiplicado por milhões garantindo assim a sua sobrevivência?

É necessário investigar de onde vem este dinheiro de modo a que não haja dúvidas sobre a sua proveniência ou sobre a “nobreza” das dádivas.

Salientando que não estão em causa os motivos para a greve, alguns até bastante ponderosos e com toda a razão de ser, esta greve cirúrgica, através do crowdfunding, falha num pressuposto tão essencial como a sua garantia constitucional.

Não há uma verdadeira greve quando quem a faz não perde o direito à retribuição. Ou seja, a greve é suposto incomodar e transtornar os cidadãos que necessitam dos serviços em greve, da mesma forma e na mesma proporção que é suposto prejudicar os grevistas na sua remuneração. Falhando uma destas duas premissas não há uma verdadeira greve, o prejuízo não pode ser apenas para uma das partes.

Sou absolutamente a favor do direito à greve e respeito muito quem a faz porque sai prejudicado financeiramente pela sua luta.

Não me parece que seja este o caso, e temo que possa estar a haver uma instrumentalização dos enfermeiros por parte de interesses privados que querem pôr em causa o SNS, e o histórico da Bastonária dos Enfermeiros em nada apazigua este meu temor.

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13 COMENTÁRIOS

  1. Greve sem perda de remuneração pelo pilotos aeronaves e pelos funcionários da CP… 2 exemplos de trabalhadores que ao fazerem greve não perdem salário… é assim ha anos…
    Agora na greve dos Enfermeiros já fazem filmes???
    10.000 contribuições para o crowdfunding da (matematicamente) 40euros por contribuição, que nem é assim tanto dinheiro visto meio depósito de combustível fica mais ou menos nesse valor… mas o que é certo é que muitas dessas ofertas foram depósitos unitários mas referentes a muitos Enfermeiros que fizeram recolhas nos serviços (dezenas de Enfermeiros) e apenas foi feito depósito por uma pessoas, portanto a matemática não vai bater certo 😉
    Mas que se investigue pois os dados dos depósitos estão todos na plataforma, são cerca de 70.000 Enfermeiros em portugal e mais uns milhares no estrangeiro, 5euros a cada um e chega e sobra para o fundo de recolha 😉

  2. Essa ideia de que se deve investigar de onde provêm o financiamento não é propriamente nova e eu concordo com ela!!! Aliás, eu próprio ja fui investigar e uns 70 ou 80% dos que contribuíram dekxaram os seus nomes na plataforma, secção comunidade, salvo erro! Além desses, há 20 ou 30% que não são conhecidos, são os chamados anónimos. Com montantes alguns deles residuais! Agora, registo de quem os fez, há, mas são apenas do conhecimento dos gestores da pagina do crowdfunding. Se as autoridades decidirem investigar, acredito que os participantes anónimos deixarão de o ser! E digo que estes são conhecidos porque, caso o montante pretendido não fosse atingido, o dinheiro de cada contribuição sería devolvido à conta de origem…

  3. Boa noite, convido a ver o facebook, enfermeiros.sns, tem um artigo que disseca os contributos para o crowdfunding . E após ficarei grato que escreva aqui a sua análise.
    Se mantiver a sua leitura , aconselho a apresentar queixa as autoridades competentes.

  4. É uma não questão o financiamento desta greve. Acompanhei-o de muito perto, as redes sociais assim o permitem e a greve está muito organizada nesse âmbito. Fiz 3 donativos, faria outros tantos se fosse necessário. Foram feitas recolhas em centenas de serviços e departamentos de saúde, portanto não foram somente 10000 os que contribuíram. Foram efetuadas centenas de donativos colectivos. A diáspora colaborou de forma excepcional.
    A classe de enfermagem tem sido, ao longo dos anos, muito maltratada. Está completamente desgastada, “basta” é a palavra de ordem. É uma classe que não é instrumentalizável, nunca o será.
    Trata-se de uma luta inédita e aceito que crie estranheza e desconforto em muitos sectores. Mas é legítima, isso é inegável.

  5. Só queria questionar o cronista, qual a sua opinião relativamente às greves da CP, e ao fundo de maneio dos respectivos sindicatos…

  6. Caríssimo autor. Demonstra um grande desconhecimento dos factos. Aliás com a quantidade de artigos sobre este mesmo tema arrisco-me a dizer que apenas “papaguiou” outros jornalistas.
    Mas vamos a factos. Acha que se está greve atingir os objetivos e o Estado pagar melhor aos enfermeiros e contratar mais enfermeiros ,o privado não sai a ganhar? Antes pelo contrário, terá de pagar mais para ter mão de obra de qualidade. Aliás se os enfermeiros que tem duplo emprego deixarem de precisar de trabalhar nos privados, vai ser catastrófico para os mesmos. Acredite ou não, os grupos privados de saúde nada tem a ganhar com a satisfação das reivindicações.
    Então será assim tão estranho conseguir 400.000€ de uma assentada?
    Bem…caríssimo autor! Estranho e não saber fazer contas e debitar opiniões sem a mínima pesquisa.
    Cabe-me então elucida-lo! Os enfermeiros inscritos na ordem são 70.000, dos quais 42.000 exercem no SNS. Foram feitas inúmeras coletas em serviços hospitalares e em cuidados de saúde primários. Bastava que cada enfermeiro a exercer no público contribuisse com 9.52€ para se chegar a esta proeza. Aliás até menos… porque alguns enfermeiros do privado também contribuíram, pois sabem que também eles têm a ganhar.
    Espero que tenha ficado um pouco mais esclarecido.
    Bem haja.

  7. Proponho ao sr paulo marques que mova o que for preciso para promover a investigação para se perceber de onde vem o dinheiro de apoio à greve cirúrgica 2.
    Se não for possível convidou-o a acompanhar brevemente (caso haja necessidade) o da greve cirúrgica 3.
    Para terminar resta só ressaltar o facto de que o bom jornalismo e bons jornalistas de baseiam em factos, em informações verídicas e não em especulações. Seria de facto importante saber exercer a sua atividade da forma correta. Por isso investigue sr paulo. Não se esqueça é depois quando obtiver resultado de escrever artigos desmentindo-se a si próprio e com pedido de desculpa aos que julga e ofende sem conhecimento daquilo que diz

  8. Sr Paulo Marques antes de “vomitar” barbaridades investigue por favor e assim poderá na realidade prestar um bom serviço público, se é isso que pretende. Não fale do que não sabe. E já agora, não foram só 10000 que investiram. Como não está bem informado não reparou que existiram centenas de depósitos de forma coletiva. Mas investigue por favor. O meu none está lá, com muito orgulho.

  9. Sr Paulo Marques, quando se quer fazer comentários jornalísticos convém, antes de iniciar discursos incongruentes e demagógicos informar-se… Posto isto é visto que o seu tempo de estudo sobre o tema em causa deve ter sido no sofá em frente ao televisor. Passo a informà-lo, desta vez gratuitamente, porque a vida faz-se de aprendizagens! Então, a “greve cirúrgica é legal como ficou provado em tribunal constitucional, segundo nunca ficou uma única vida em perigo pela dita greve e nunca ficará! Terceiro, o facto de ter apenas cerca de 10 mil apoiantes não significa que sejam apenas 10 mil pessoas, foram 10 mil doações colectadas por vários serviços, vários familiares e amigos de enfermeiros, até utentes do SNS! Mais, houve doações do Reino Unido, da Suíça, do Dubai, até da Austrália por enfermeiros que decidiram ajudar os colegas portugueses! Já agora, aproveito para mandar um recado ao PSD e aos hospitais privados, já que ficaram com a fama de ajudar os enfermeiros, contribuam com qualquer coisa! Sr. Paulo Marques, como prometido no início da “lição” está informação foi gratuita. Já agora queira saber que há muitas greves em que os trabalhadores são ressarcidos do dia que perdem na greve (Pilotos da TAP, CP, estivadores, etc), porquê? Porquê pagam quotas sindicais para “bons sindicatos” que quando necessário têm dinheiro guardado. Sabe que a função de um sindicato de enfermeiros não é proteger o SNS ou o utente é proteger quem financia o sindicato, neste caso os enfermeiros! A protecção do SNS deve ser do governo e a protecção dos utentes pertence a toda a equipa multidisciplinar de saúde!

  10. Poderão os contribuintes ser apenas enfermeiros cansados de serem enxovalhados e enganados há mais de 20 anos pelos sucessivos governos e que agora estão dispostos a tudo?
    Porque não se assume a realidade?
    Pois que investiguem publiquem essa investigação.

  11. “Não há uma verdadeira greve quando quem a faz não perde o direito à retribuição. Ou seja, a greve é suposto incomodar e transtornar os cidadãos que necessitam dos serviços em greve, da mesma forma e na mesma proporção que é suposto prejudicar os grevistas na sua remuneração. Falhando uma destas duas premissas não há uma verdadeira greve, o prejuízo não pode ser apenas para uma das partes.”

    Tendo em conta que é um serviço de saúde onde se tem de garantir os mínimos, e toda os serviços estão em mínimos por si só… A que permissa se está a referir? É que se faltamos com os mínimos somos cruéis, se fizermos greve auto-financiada somos criminosos…

    Já agora quanto ganha por mês?

    Por último e não menos importante, investigar a origem do dinheiro não irá contra qualquer lei que defendeu esses corruptos? O que vos deveria preocupar (a vocês treinadores de bancada) seriam aspectos bem mais importantes, como não haver culpados em processos por corrupção em 2019, ainda… Não deveriam ser às capelinhas dos outros.
    Ou o Sr. Também participa em reuniões das lojas do grão mestre, como os nossos abencoados e iluminados políticos? Eu contribui, pq ao contrário de si (que não tem o mesmo problema) estou preocupado com o meu futuro. E atenção que no nome não tenho José de Mello ou algo do género..
    Há muito dinheiro de enfermeiros revoltados envolvido… Não me venha com mesquinhices políticas…

    Saudações terráqueas!

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