A importância do respeito por si próprio

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Abílio Louro de Carvalho - Colaborador Dão e Demo.

Por: Abílio Louro de Carvalho

É comum dizer-se que, se alguém quer ser respeitado, deve dar-se ao respeito. E poderemos dizer com a mesma certeza que, antes de mais, a via para granjearmos o respeito dos outros e também para os respeitarmos verdadeiramente é o cultivo contínuo e intenso do respeito por nós próprios.

O sacerdote que presidiu, ao meio-dia, à celebração da Eucaristia do XX domingo do tempo comum neste Ano B na igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, evocou o caso do pai e do filho que foram à pesca numa reserva, devidamente autorizados, mas com a condição de não pescarem espécies cuja pesca fosse proibida. Entretanto, o filho apanhou um peixe cuja recolha o pai percebeu ser ilegal, pelo que ordenou ao filho que relançasse o dito peixe na água pelo facto de se estar a cometer uma ilegalidade. Porém, o filho retorquiu: “Não está aqui ninguém”. Ao que o pai sentenciou: “Estamos aqui nós e é quanto basta”.

Aquele pai estava a ensinar que nós, para cumprirmos a lei, não precisamos de vigilância de mais ninguém a não ser da nossa. Esta atitude implica autorresponsabilidade, boa consciência e respeito por nós próprios.

Além disso, para o crente, é mais que certo que Deus, que nos acompanha sempre e em toda a parte, vê todas as nossas ações e escrutina todos os nossos pensamentos e sentimentos: perscruta-nos o coração e os rins a fim de recompensar cada um pela sua conduta e pelos frutos das suas ações (Jr 17,10).

Por isso, é anedótico para um cristão o caso que um pregador, há muitos anos, referia de um par que integrava um baile. Quando o rapaz solicitava a rapariga para algo menos decente, esta respondia que Deus estava a ver. Mas o rapaz, ao ver um crucifixo na sala, tapou-o discretamente com um pano e volveu à rapariga: “Agora podes dançar à vontade, que ele já não vê”. Era a confusão entre a imagem e aquilo que ela representa, o que infelizmente é típico de muitos cristãos superficiais, que não de atitude.

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A pregação do mencionado sacerdote gravitou hoje em torno de excertos do Deuteronómio (Dt 4,1-2.6-8), primeira leitura, Epístola de São Tiago (Tg 1,17-18.21b-22.27), segunda leitura, e do Evangelho de São Marcos (Mc 7,1-8.14-15.21-23), terceira leitura.

O pano de fundo desta Liturgia da Palavra é o cumprimento da lei natural que Deus imprimiu no coração de cada pessoa humana e que explicitou no Decálogo, desenvolvido nos livros do Êxodo (a lembrar a saída da escravidão do Egito e, consequentemente, a travessia do deserto) e do Deuteronómio (a significar “segunda promulgação da Lei”).

O Deuteronómio enfatiza o discurso de Moisés ao povo, segundo o qual Israel deve saber que tem de conhecer e pôr em prática as leis e preceitos que Deus lhe outorgou como condição de vida e de posse da terra prometida, não podendo nem devendo acrescentar nada ao que foi determinado pelo Senhor nem lhe suprimir nada.

O cumprimento de tudo quanto foi determinado pelo Senhor será a marca identitária deste povo em relação aos demais povos – um povo cheio de sabedoria, prudência e justiça e que sente a proximidade do seu Deus, sobretudo quando o invoca. Na verdade, nenhum outro povo tinha mandamentos e preceitos tão justos como Israel, nenhum sentia tão perto de si a divindade como Israel. Nenhum era tão sábio e tão prudente. E eram estas marcas – justiça, proximidade de Deus e justiça – que faziam de Israel uma grande nação. Porém, estes mandamentos e preceitos, enquanto garantiam a proteção divina, implicavam o compromisso do povo com a fidelidade à lei, sem acrescentos ou omissões.

Não obstante, o povo esqueceu-se muitas vezes da aliança que firmou com Deus e fez alianças com outros povos; caiu na idolatria, servindo e adorando outros deuses, tal como faz a esposa, que se escapa do esposo e se entrega a outros homens – situação que os profetas denunciam, anunciando o castigo divino, mas abrindo os portais da esperança porque Deus dará sempre nova oportunidade; e, embora, não tenham incorrido em notórias omissões na Lei, os doutores e os escribas acrescentaram ao Decálogo 634 prescrições especificativas e, sobretudo, fixavam-se na exterioridade oca e na ritualização mecânica do cumprimento dos preceitos, impondo-os aos outros, sem que eles próprios se empenhassem no seu cumprimento, como denuncia Jesus no Evangelho. Aliás, os profetas insistiam no valor real da Aliança e no cumprimento da Lei em profundidade, sobretudo do lado do interior, com o coração de carne e não de pedra.

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Ora, Jesus não veio revogar a Lei ou a Profecia, mas aperfeiçoá-las e dar-lhes pleno cumprimento, de modo que, “ainda que passem o céu e a terra, não passará um só jota ou um só ápice da Lei, sem que tudo se cumpra”. Por isso, se alguém violar um destes preceitos mais pequenos e ensinar assim aos homens, será o menor no Reino dos Céus, mas aquele que os praticar e ensinar será grande no Reino dos Céus, porque, se a justiça dos discípulos não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrarão no Reino dos Céus. (Mt 5,17-20).

Assim, o Evangelho de Marcos refere que a tradição levou a que os fariseus e os judeus em geral não comessem sem ter lavado e esfregado bem as mãos, conforme a tradição dos antigos; ao voltar da praça pública, não comiam sem se lavarem; e havia muitos outros costumes que seguiam, por tradição, como a lavagem das taças, jarros e vasilhas de cobre (cf Mc 7,2-4).

Porém, os fariseus e alguns doutores da Lei vindos de Jerusalém viram que vários dos discípulos de Jesus comiam pão com as mãos impuras, isto é, sem as lavarem. Por isso, acercaram-se de Jesus e questionaram-no sobre o motivo por que os seus discípulos não obedeciam à tradição dos antigos e tomavam alimento com as mãos impuras. (cf Mc 7,1.5).

Ora, Jesus conhecia as intenções e as manhas dos interpelantes e viu que a preocupação destes era com as exterioridades ocas, não acompanhadas pelo compromisso do coração e retomou a denúncia dos profetas, mencionando Isaías:

Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Vazio é o culto que me prestam e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos. Descurais o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens.” (Mc 7,6-8).

Depois de responder aos fariseus e doutores da Lei, chamou de novo a multidão, para lhe dizer que “nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro”, mas, sim, “aquilo que sai do homem é que o torna impuro” (cf Mc 7,15). E aos discípulos, quando estes, ao chegarem a casa, O interrogaram sobre o que dissera à multidão, garantiu que “o que sai do homem, isso é que torna o homem impuro” e explicitou:

Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos, as prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições, perversidade, má-fé, devassidão, inveja, maledicência, orgulho, desvarios. Todas estas maldades saem de dentro e tornam o homem impuro.” (Mc 7,19-22).

Ora, as tradições religiosas herdadas dos antepassados têm um valor inegável, mas apenas na medida em que traduzam concretamente os mandamentos do Senhor e desde que exprimam e favoreçam a adesão profunda a Deus e à sua vontade, sem lhe acrescentarem ou diminuírem nada. Porém, se nos ficamos pela exterioridade balofa e meramente ritual, se nos escaparmos do cumprimento dos mandamentos e os impusermos aos outros, a prática ritual, que deveria conduzir à união com Deus e ao compromisso com o próximo, nomeadamente para com os que mais necessitam, degenera em hipocrisia e falsidade, que certamente não enganam a Deus nem encantam o próximo. Quando as tradições se tornam um capricho histórico, constituem um obstáculo ou uma insuperável dificuldade. Assim, elas devem evoluir e deixar que sejam reformuladas à luz dos sinais dos tempos, uma vez que a religião que Jesus ensina é a religião do coração e das obras que resultam do compromisso com Deus e com os irmãos.

Com efeito, Jesus, quando Lhe perguntaram qual era o maior mandamento da Lei, não escolheu um dos dez preceitos do decálogo, mas formulou a síntese da Lei nos termos seguintes:

Este é o maior e o primeiro mandamento (Mt 22,38): Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente (Mt 22,37). O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mt 22,39-40).”.

E, depois, a medida do amor ao próximo já não é só “como a nós mesmos”, mas como Jesus nos amou. E esta é a novidade e a marca do discipulado e, por conseguinte, do cristianismo. Na verdade, depois da última Ceia, Jesus disse aos discípulos: “Dou-vos um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros, que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Nisto é que todos conhecerão que sois meus discípulos – se vos amardes uns aos outros.” (Jo 13, 34-35).

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Também São Paulo, na sequência do ensinamento referido por Marcos (Mc 7, 19-22), nos destrinça os frutos do Espírito  e os frutos da carne, mandando que andemos “no Espírito” e não cumpramos “a concupiscência da carne” (cf Gl 5,16). Com efeito, para vencermos as obras da carne, precisamos de andar segundo os ditames e as moções do Espírito. Na verdade, a carne deseja o que é contrário ao Espírito e o Espírito o que é contrário à carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façamos o que queremos, mas o que o instinto dita. Ora, se nos deixarmos guiar pelo Espírito, não estamos já sob a mera alçada da Lei. (cf Gl 5,17-18).

E Paulo especifica, contrapondo as obras da carne e os frutos do Espírito:

As obras da carne estão à vista. São elas: a fornicação, impureza, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contenda, ciúme, fúrias, ambições, discórdias, partidarismos, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas. […] Por seu lado, é este o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio.” (Gl 5,19-21a.22-23a).

Depois, conclui que aqueles que praticarem as coisas ditadas pela carne “não herdarão o Reino de Deus”, mas, uma vez que não há Lei contra as coisas do Espírito, “os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com as suas paixões e desejos”. Por isso, “se vivemos no Espírito, seguiremos também o Espírito” e não nos tornaremos vaidosos, nem a provocar-nos uns aos outros ou a ser invejosos uns dos outros. (cf Gl 21b.23-26).

Na Epístola aos Gálatas, Paulo, de maneira brilhante e contundente, trata o assunto, mostrando o embate existente entre a carne e o Espírito. Faz uma exposição da luta que se inicia, internamente, quando aceitamos Jesus como Salvador e procuramos viver segundo a sua vontade. Ora, não é possível vencer a natureza carnal mediante o autoflagelo, mas deixando-nos dominar pelo Espírito Santo de Deus. É preciso sermos diariamente cheios do Espírito Santo, pela oração de coração, pessoal e comunitária, cantando entre nós salmos, hinos e cânticos espirituais (cf Ef 5,18-19). Na verdade, se os crentes viverem uma vida controlada pelo Consolador, terão plenas condições para resistirem à sua natureza pecaminosa. Se nos abrirmos ao Espírito permitirmos que nos domine e guie, produziremos o fruto que nos leva a agir como discípulos de Cristo (cf Gl 5,16) e nos dá a força de apóstolos e o dinamismo andarilheiro de missionários com preocupações universais.

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E o apóstolo São Tiago, reconhecendo que todo o dom vem do Alto, d’ Aquele que nos gerou pela palavra de verdade para sermos como que as primícias das suas criaturas, quer de nós o acolhimento integral da Palavra, sendo, não apenas ouvintes, mas cumpridores, sob pena de nos andarmos a enganar a nós mesmos.

Prático como Paulo, Tiago não se contenta com intenções, promessas, mas exige factos, obras. Diz-nos que a verdadeira religião – pura e sem mancha – consiste, aos olhos de Deus Pai, em duas coisas: visitar os órfãos e viúvas em suas tribulações; e manter-se limpo do contágio deste mundo. Os órfãos e viúvas, pelo despeito a que eram votados na sociedade judaica, significam todos os que estão em dificuldades, como refere o discurso do juízo final (cf Mt 25,31-46). E o manter-se limpo do contágio deste mundo ou desta geração perversa corporiza o que diz a carta a Diagoneto, que os cristãos vivem no mundo, mas não são do mundo:

Vivem na sua pátria, mas como se fossem forasteiros; participam de tudo como cristãos e tudo suportam como estrangeiros. Toda a pátria estrangeira é sua pátria e cada pátria é para eles estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos.”.

E correspondem ao pedido de Jesus Cristo ao Pai formulado na oração sacerdotal: “Não te peço que os retires do mundo, mas que os livres do Maligno” (Jo 17,15). E justificou: “Entreguei-lhes a tua palavra, e o mundo odiou-os, porque eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. […] De facto, eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo.” (cf Jo 17, 14.16).

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A própria cidadania poderá colher da Bíblia a ideia de que a Lei deve ser justa e equânime; não é um fim em si mesma, mas um meio para a realização da pessoa humana na sua dignidade e justas aspirações, bem como para a regulação da vida social e promoção da sã convivência, nunca se deixando pautar por interesses mesquinhos ou de vingança pessoal e/ou institucional. Mais proximidade, menos burocracia! Menos atos isolados e mais atitude! Menos arrogância e lassidão e mais respeito por si, por Deus e pelos outros!

2018.09.02 – Louro de Carvalho

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