A industrialização da educação e do ensino

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(Foto: Dão e Demo©)

Por: Abílio Louro de Carvalho

Há muito tempo que a educação e o ensino deixaram de ser ocupação maioritária de amadores e os seus agentes se tornaram profissionais munidos de um estatuto que lhes confere uma carreira, enuncia os direitos e os deveres e define o seu conteúdo funcional no quadro da observância de normativos básicos em que há lugar para a autonomia profissional e isenção científica e cultural, concretizando-se tal autonomia pela escolha ou produção de materiais pedagógicos e seleção de métodos e técnicas pedagógico-didáticos, sem esquecer a liberdade da atualização científica e em ciências da educação. Além disso, torna os educadores e professores em cooperantes de projetos pedagógicos comuns em prol da cidadania e do futuro das crianças e jovens.

Abílio Louro de Carvalho – Colaborador Dão e Demo.

Todavia, a pari, a educação e o ensino foram sendo objeto de negócio muito semelhante ao relativo ao processo de industrialização, o que se torna evidente nos estabelecimentos do ensino privado e no ensino à distância. Os elementos preponderantes desta industrialização residem basicamente na procura de resultados prévia e comummente definidos (em geral de forma tácita) e aceites, através de vias uniformes e da maior economia de meios, indo desembocar numa avaliação padronizada e em quase tudo uniforme. E esta ótica invadiu a escola pública quer através da produção editorial, quer através das diretivas do governo central, quer através da depauperação que os sucessivos Ministérios das Finanças vêm inoculando no sistema educativo.

É óbvio que o Estado deve promover a economia de meios (não a miserabilização), mas sem prejudicar os desígnios da educação e do ensino enquanto fautores do desenvolvimento da personalidade e da articulação com a sociedade que desejamos edificar e desenvolver.

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O ensino à distância constituiu a forma de colmatação do acesso lacunar de todos à educação e hoje representa uma poderosa mais-valia no aperfeiçoamento formativo dos cidadãos e na complementação da qualificação profissional e académica. Com efeito, desenvolvendo-se a par dos meios de comunicação, indústria e comércio, vem enformado pelos princípios do processo de industrialização, tais como a racionalização e divisão do trabalho, a atribuição de tarefas parcelares a especialistas, a mecanização e a automatização. Assim, as analogias mais evidentes são: importância o trabalho prévio ao processo; dependência da eficácia do processo de ensino-aprendizagem de planeamento e organização adequados; divisão das funções do formador em subfunções a realizar por especialistas, de forma análoga ao processo de produção na linha de montagem; resultado da rendibilidade económica a partir da consecução de número elevado de formandos (à educação de massas corresponde a produção de massas); a necessidade de investimentos de capital, concentração de recursos e administração qualificada e centralizada.

São caraterísticas que justificam a afirmação de que esta é a mais industrializada forma de ensino, em comparação o ensino tradicional em sala de aula (já não o atual), que se aproximava estruturalmente do trabalho oficinal pré-industrial. Porém, a recente evolução na indústria mostra a tendência de abandono da típica produção em linha, optando pela organização em pequenos grupos em que o indivíduo, em vez de estar dedicado uma única atividade, se envolve em várias, num modelo em que se recriam algumas das condições das antigas oficinas. E as sociedades mais industrializadas fazem emergir e generalizar subculturas partilhando em comum posições de rejeição e critica à ordem estabelecida prenunciando nova era, a era pós-industrial caraterizada essencialmente por três alterações de natureza económica: enorme crescimento do número de empregados no setor terciário e no dos serviços; emergência de novas tecnologias e progressiva massificação do acesso; e alteração da estrutura da tomada de decisões na economia e na sociedade em geral.

O crescimento (qualitativo e quantitativo) no setor dos serviços tornou-se o maior empregador nos países industrializados, com a exigência de cada vez mais altas qualificações para o desempenho das tarefas – o que, a par do rápido desenvolvimento do conhecimento, tornou imperiosa a formação contínua e especializada, bem como a aprendizagem ao longo da vida. A utilização de computadores e sistemas de comunicação trouxe para primeiro plano a informação, fazendo alterar muito as estruturas da produção e levando a pensar que num futuro não muito longínquo a localização geográfica da empresa ou do trabalhador deixarão de ser condição determinante para a produção. Aliás, há já profissionais que não precisam de sair de casa para executar o trabalho. E a estrutura da tomada de decisão também se alterou: não é já o empresário o único a decidir, mas grupos em que os membros tomam decisões grupais, planeiam e controlam o próprio trabalho, com o controlo global a ser assegurado por complexos sistemas de informação.

De facto, a relação homem-máquina, caraterística da sociedade industrial, será substituída pela relação interpessoal, sendo as pessoas o centro da atenção e interesse, não a instituição. Mas as pessoas também terão de mudar, desenvolvendo novas competências e desempenhando novos papéis. O trabalho ser-lhes-á experiência mais criativa e satisfatória. E a organização e gestão do trabalho trarão significativas mudanças extensivas ao campo das atitudes e valores.

Voltando ao ensino à distância, verifica-se que muitos dos aspetos que o caraterizam o definem como forma industrializada de ensino. Ora, desde as origens, utiliza os meios de comunicação para a realização do processo de ensino-aprendizagem em que formadores e formandos estão separados fisicamente e realizam a sua quota do trabalho em tempos não simultâneos. O isolamento do formando obrigou a que se fomentasse a sua autonomia e independência sendo ele a determinar e gerir a própria aprendizagem. E, embora um dos deveres dos profissionais deste ensino seja disponibilizar aos formandos autossuficientes materiais de ensino, sempre se impôs a necessidade da existência de formas de interação social entre os parceiros, obrigando ao desenvolvimento de vasta gama de recursos destinados a tal interação. Assim, não há curso deste ensino que não proponha ou disponibilize aos formandos centros de apoio e de recursos, reuniões regulares com formadores ou tutores para aconselhamento ou superação de dificuldades na aprendizagem, criação de grupos de apoio mútuo por locais de trabalho ou áreas de residência, etc.. Também a apetência e utilização dos novos meios electrónicos de comunicação são uma constante no ensino à distância, verificando-se ultimamente um muito rápido desenvolvimento na utilização das novas tecnologias para comunicações bidirecionais que permitem a interação entre formandos e formadores e induzindo a criação de salas de aula virtuais a recriar a situação da sala de aula tradicional, que tem s suas vantagens.

Estas afinidades entre a industrialização e o ensino à distância e, sobretudo, o que se “sonha” para a sociedade pós-industrial e pós-moderna devem refletir-se no pensamento sobre este ensino. Desta forma, o lançamento de programas, tendo em mira o tempo presente e em especial a sua população alvo, deverá ainda perspetivar os seguintes aspetos: alterações nas caraterísticas da procura, que deixará de ser pontual e assumirá forma continuada e diversificada decorrente das necessidades de uma aprendizagem ao longo da vida; objetivos dos formandos, que deixarão de ser predominantemente materialistas e dirigidos à busca de melhorias profissionais, passando também a ser determinados por razões de natureza pessoal, social e cultural; estrutura e currículos, que deem respostas a estas necessidades pessoais e sociais emergentes; métodos, que, de centrados nos materiais e no autoestudo, encontrem as vias para o desenvolvimento de relações de tipo social, nomeadamente a criação de condições para o trabalho de grupo e o desenvolvimento do diálogo entre formadores e formandos; e uso das novas tecnologias da informação, que, para lá proporcionarem aos formandos uma informação mais acessível e rica, proporcionem a interação entre os vários intervenientes no processo de ensino-aprendizagem.

O ensino à distância, que é um produto típico da sociedade industrial por aplicar na sua ação muitos dos princípios da indústria e por responder a muitas das necessidades e problemas dessa sociedade, especialmente duma sociedade em que se conjugam a necessidade de melhores competências e qualificações profissionais e o desejo individual de melhorar o estatuto socioprofissional para desenvolver a motivação dos indivíduos, a possibilidade de atingir os objetivos sociais e individuais sem a necessidade do afastamento temporário do posto de trabalho, será um fator determinante na evolução próxima e futura do ensino.

Se a sociedade industrial se definia pela qualidade dos bens postos no mercado e pelo nível de vida, a sociedade pós-industrial definir-se-á pela qualidade de vida advinda de serviços e comodidades (saúde, educação, lazer, artes, etc.) agora desejados por todos e possíveis para muitos.

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Porém, será de rejeitar a industrialização da educação e ensino que:

– Se contente com o desenvolvimento de competências mínimas de modo que o formando, uma vez diplomado, desempenhe mecanicamente os misteres de que é incumbido, sem o bastante conhecimento técnico-científico, que fundamente a prática, e sem sentido crítico e abertura à inovação, posicionando-se na prestação dum trabalho autómato, desqualificado e mal pago;

– Albergue profissionais que se limitem à prática de atos rotineiros, recurso aos métodos e técnicas de sempre, distanciação fria perante os alunos/formandos e colegas e relação acomodada com os conteúdos a transmitir de modo invariável, no pressuposto de que está garantido em definitivo o seu trabalho/emprego – ou que se apliquem de forma errática e falsamente inovadora, por receio de uma avaliação de desempenho que os possa desligar do posto de trabalho ou de emprego;

– Procure, em termos privados, o lucro excessivo ou que, em termos públicos, persista na vertente economicista, minorando o investimento no capital humano como o mais precioso.

– Permita a delapidação do erário, o esbanjamento de recursos, a degradação do património ou as atitudes contra o ambiente, vindo posteriormente lançar apelos desesperados aos agentes económicos, sociais e culturais com vista à saúde do planeta;

– Recorra desnecessariamente ao recrutamento e seleção de agentes sem a habilitação adequada e sem o conhecimento do setor profissional ou científico em que ministram o ensino;

– Promova a falsa competitividade entre estabelecimentos de educação e ensino, favorecendo o despique, os rankings, o mal-estar social e a falta de estatuição de parcerias numa ótica de desenvolvimento sustentável, global, integrado e integrador;

– Manipule a população escolar, de forma indiferenciada e massificadora, ao serviço do capital.

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Em contraponto, será de acolher e promover a industrialização da educação e ensino que:

– Disponha de espaços físicos adequados ao desenvolvimento de competências gerais e específicas, à luz das grandes competências-chave, que edifiquem um perfil de educando e de diplomando ajustado ao seu nível etário e às justas expectativas colocadas no nível escolar consentâneo com a idade ou com o grau de formação e qualificação que se pretende para o exercício duma atividade profissional e/ou de intervenção cívica e política;

– Mobilize profissionais e agentes adequadamente habilitados, conhecedores do meio e do setor de atividade em que profissionalmente estão empenhados;

– Dinamize práticas de direção, gestão e administração pautadas pela definição de objetivos estratégicos, setoriais e específicos na ótica de procura da excelência e na postura permanente de avaliação (auto e hetero), utilizando métodos e técnicas inovadores, com vista à eficácia educativa e à preparação para o mundo do trabalho e/ou prossecução de estudos superiores e especializados – ou seja, pretendendo a empresarialização em nome da eficácia e alocação dos recursos, mas visando o fundamental da ação pedagógica, científica e cultural;

– Exercite a comunicação interna que propicie a gestão de afetos e conflitos, imprima coerência, eficácia e qualidade às atividades, favorecendo o mesmo sentir no essencial e a liberdade de opinião e ação nas matérias em que ela deve ser incentivada;

– Dialogue, coopere e estatue parcerias com instituições, organismos, serviços e unidades de produção/transformação com vista ao desenvolvimento pessoal e social dos educandos e formandos e à sua inserção no mundo da realidade comunitária e laboral;

– Prepare os clientes da educação, formação e ensino para o exercício da atividade profissional gradualmente mais sustentada, qualificada, inovadora e bem remunerada;

– Crie desconforto a quem se encastele nas atividades rotineiras ou no surto intriguista, mas estimule quem se entregue, de alma e coração, à criação e desenvolvimento do sentido autonómico, do espírito crítico e da cultura do respeito, responsabilidade e exigência;

– Potencie a industrialização das matérias, atividades, setores e lugares com apetência para tal, na senda da rendibilização, da resposta diferenciada às aspirações das massas, da mobilização de todos os recursos e da valorização da pessoa, da comunidade, do trabalho e do capital, mas sendo a escola a assumir-se como o motor do desenvolvimento e não a deixar-se manipula pela onda mercantilista;

– Edifique a intervenção cívica e o contributo pessoal e grupal para o desenvolvimento, progresso e bem-estar de todos;

– Tire partido da utilização da inteligência teórico-prática, da componente emocional e do conveniente sentido de humor, em parâmetros do são humanismo e da efetiva modernização.

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Em suma, postula-se uma industrialização que retenha o significado latino de “indústria” (industria, ae – zelo, atividade, cuidado, aplicação, diligência, trabalho, dedicação) e que avance em razão da eficácia e qualidade, mas considere o valor da pessoa humana, da família e da sociedade. Além disso, deve exigir-se que, seja qual for a modalidade e o objeto da educação, do ensino e da formação, se reserve um tempo suficiente para a arte, o lazer, o tempo livre e mesmo o divertimento. Com efeito, o ser humano nunca pode deixar de ter sido em conta no planeamento, organização, desenvolvimento e avaliação de qualquer atividade.

2018.06.04 – Louro de Carvalho

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