A prenda de natal espanhola!

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Inês Pina

Que se está a passar com o nosso país irmão?

Tudo começou no dia 1 de outubro. Deu-se uma espécie de referendo. Digo uma espécie pois, fosse eu a democracia e tinha-me enfiado num buraco. Toda a gente deu inúmeros conselhos ao governo de Espanha, mais ou menos como fazemos com o amigo que está a passar por uma fase difícil. Houve quem dissesse que devia ter negociado um referendo, que não devia ter enviado a polícia para a Catalunha, etc. De facto, o governo espanhol podia ter feito muita coisa: por exemplo, abandonar imediatamente à sua sorte os milhões de cidadãos espanhóis que vivem na comunidade autónoma, deixando-os à mercê de alucinados (digo isto agora e já explano melhor) que montou o carnaval referendário de 1 de outubro

Percebo o dilema em que o Estado mergulhou. Se nada fizesse, deixava constituir um poder paralelo e ilegal, que o privaria de qualquer autoridade; se tentasse obstar ao separatismo, aqui d’el-rei que não quer “dialogar” e é “autoritário” — como Franco.

O primeiro grande errou foi o de dia 1 de outubro. Ao não permitir um referendo deu-se uma imagem de medo. O governo espanhol mostrou-se inseguro. De facto os separatistas na Catalunha não têm do seu lado, nem a maioria da população, que em eleições gerais nunca votou neles, nem a Constituição de 1978 ou o Estatuto de Autonomia de 2006, aprovados pelos cidadãos em referendos legais. Mas têm muita gente organizada e decidida a vir para a rua, e controlam o governo local e os comandos da polícia, que a de 1 de outubro se abstiveram de defender a lei. O “pronunciamento” passivo dos Mossos d’Esquadra explica o à-vontade dos separatistas e abre horizontes perigosos: a divisão da força armada foi geralmente a condição preliminar de todas as guerras civis. O separatismo, embora minoritário, conseguiu assim criar uma situação em que a vontade da maioria e o respeito da lei parecem vulneráveis e irrelevantes.

Nitidamente a divisão partidária em Madrid embaraça a iniciativa do Estado. A extrema-esquerda está exaltada com a ideia de uma revolução na Península. Os socialistas ainda não decidiram se devem simplesmente aproveitar a crise catalã para tentar deitar abaixo Mariano Rajoy. Rajoy, empenhado na coesão do regime, perante o separatismo, demorou a recorrer a meios decisivos, como o artigo 155 da Constituição, que lhe permitiria suspender o governo autónomo na Catalunha.

O que se passou na Catalunha revela é a imensa fragilidade do Estado democrático e de direito numa Europa em que a crise financeira e o jihadismo têm abalado instituições e consensos.

A lição catalã é severa.

Vejamos, Espanha tem de negociar a autonomias. Melhor: a solução seria procurar entrar num federalismo. Já se percebeu que a Catalunha gostou da ideia da autonomia. O que impediu a Catalunha de avançar mais, foi perceber que o líder foi o primeiro a abandonar o barco! Como assim, declarar unilateralmente independência e logo a seguir deixar o povo? Depois, foi a falta de apoio de Bruxelas. A U.E fincou bem a sua posição, não aceitaria a Catalunha!

A posição da união leva a reflexões… Lembro-me da questão do Kosovo, ou da Crimeia. Haverá dois pesos e duas medidas? Para pedir a independência tem de haver uma vitimização uma opressão visível no tempo?

Agora, a véspera de natal vai trazer uma prendinha bem embrulhada quer à Espanha quer à U.E. Rajoy pede que a maioria silenciosa se manifeste, esperemos que a prenda não lhe traga um amargo na noite de consoada.

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