A surpreendente descoberta da pobreza.

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José Carreira - colaborador Dão e Demo.

Por: José Carreira

A socióloga Maria Filomena Mónica, embora só tenha descoberto a pobreza aos 16 anos “num bairro da lata onde as freiras do colégio que frequentava a levaram para que as meninas ricas, grupo a que pertencia, aprendessem a ser caritativas”, tem assumido “notável destaque no debate” relacionado com a pobreza que “não pode ser admitida como fenómeno normal, visto ser evitável. A sua existência exprime o insucesso de políticas que são enunciadas como democráticas mas que, objetivamente, depois, não os são.” (Francisco George, Prevenir doenças e conservar a saúde, FFMS, 2019).

Para conhecer melhor o pensamento de MFM recomendo a leitura complementar dos livros “Os Pobres” (2016) e “Os Ricos” (2018), ambos editados pela Esfera dos Livros.“Durante muito tempo, pensei que nada existia no mundo para além da tribo que, ainda criança, conhecera em Cascais. Alguns dos meus amigos tinham antepassados que provinham da aristocracia de corte, coisa que, na altura, ignorava. Muitos teriam pais mais ricos do que os meus, mas nunca reparei em tal facto.”  

Se compreendo a surpresa pela “descoberta” dos pobres, por parte de uma menina “bem”, aos 16 anos, no Portugal de 1959, torna-se-me mais difícil assimilar a estupefação do nosso Primeiro-ministro António Costa:   

Assisti à primeira projeção do filme ‘São Jorge’, do Marco Martins, e fiquei surpreendido e chocado”, confessou, no Seixal, António Costa, numa cerimónia simbólica de entrega de uma chave de um imóvel a uma antiga moradora do bairro que começa agora a ser demolido.” (TSF, 21 de dezembro de 2019).

A surpresa do líder do Governo foi confirmada pelo realizador do filme: “O primeiro-ministro esteve na estreia e ficou muito impressionado com uma realidade que desconhecia. “

A invisibilidade destas comunidades guetizadas só é quebrada quando os confrontos com a polícia abrem os telejornais e dão o almejado palco a comentadores e decisores políticos que discorrem sobre o tema, como se tivessem nascido, crescido e vivido num dos bairros periféricos, sem que alguma vez lá tenham colocado o rasto do sapato feito à mão, a não ser, quem sabe, numa ação de campanha com a habitual promessa de uma vida melhor.

A propósito do filme São Jorge, que sensibilizou (ainda bem) e levou António Costa a agir (vale mais tarde do que nunca), escrevi um texto para a Revista Amar[ do qual retiro o parágrafo que se segue:

“O som de fundo constante e os grandes planos da degradação das urbanizações deixam a nu o ambiente difícil, hostil, a agressividade latente, um certo caos organizacional que parece contagiar os moradores…”

O Papa Francisco, numa celebração ecuménica na Basílica de São Paulo, sentenciou:

“Quando a sociedade deixa de ter como fundamento o princípio da solidariedade e do bem comum, assistimos ao escândalo de pessoas que vivem em extrema pobreza ao lado de… símbolos de incrível riqueza”.

A guerra contra o racismo só será ganha com sucessivas vitórias no combate à pobreza. Se há negros que não são bem recebidos na Avenida da Liberdade em Lisboa – os manifestantes oriundos dos subúrbios – outros há que são recebidos com pompa e circunstância nas melhores lojas de moda da capital.

A cor do dinheiro tem mais força do que a cor da pele.

Recomendo o novo filme de Peter Farrelly, Green Book – Um Guia para a Vida, que tem como protagonistas “um pianista negro em tournée, e um segurança branco que, apesar de racista , dava mais importância ao livro de cheques do que ao preconceito.” (Francisco Ferreira, E, 26 de janeiro de 2019) .

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