A vê-los passar.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

“Fazer sonhar é o primeiro passo para a necessidade de agir” (Fr.Bento Domingues)

Esta frase contida no artigo semanal assinado por FreiBento Domingues, no Jornal Público do último Domingo (09DEZ2018) ficou a bailarnestes dias de tempos confusos.

Não são os coletes amarelos nem as pedreiras a invadir estradas que enfraquecem as luzes de Natal que, pouco a pouco, nos vão fazendo esquecer os confrontos e traições que se desenham mesmo à nossa porta. Nem sequer os rebuçados com que nos adoçam a boca, fazendo crer que dobramos todas as dificuldades e vivemos num país à beira de rebentar a escala da felicidade e bem estar.

Quase acreditamos que somos todos vizinhos da Alice, neste cantinho das mil maravilhas.

No dia 10 de cada mês, quando o saco do pão e do leite começa a emagrecer, damos conta que as estrelas perdem o encanto e que os números, apregoados com pompa e aplauso, sonham que aconteça o milagre de conseguir chegar ao fim do mês de cara lavada.

Só então, perante a realidade nua dos bolsos vazios, arregalamos os olhos para distinguir as luzes que só iluminam a noite em tempo de festa e as que se acendem todos os dias para nos alumiar os recantos das nossas ruas e descansam com a certeza do dever cumprido.

Já sabemos que, nas épocas festivas, os cabazes e presentes, a comida quente distribuída nas ruas e albergues, os cobertores e agasalhos fazem esquecer as agruras duma pobreza que ameaça os limites do razoável e não se compadece com iniciativas de ocasião.

Para os pobres, um simples gesto de carinho e compreensão é suficiente para os fazer sonhar.

Mas os sonhos, mesmo doces, não conseguem enganar o estômago.

É bom sonhar, porque “o sonho comanda a vida” e faz girar o mundo como bola colorida…

Mas é imperioso que ele seja o primeiro passo para a necessidade de agir, como se diz no citado artigo, para não virar angústia e desilusão.

É isso que faz falta.

Não bastam as festas e o circo, as feiras, as luzes e romarias para animar a malta.

Sonhamos todos os dias com obras e melhorias que povoam o mundo de promessas quase milenárias. Muitas têm a barba mais branca que o Pai Natal. E fica-nos o sonho sempre longe.

O Pai Natal vai aparecendo com prendas e novidades, sendo mais fácil acreditar nele do que em muitos outros que se vestem a rigor, com trajes de responsabilidade e compostura, como reis magos, e nos deixam sempre em águas de bacalhau.

É com essas águas de bacalhau que conseguem organizar consoadas de ilusão.

Os condutores de pesados sonham com o dia em que possam aliviar o calvário de entrar ou atravessar a vila onde impera a arte de bem receber. Mais que calvário é um pesadelo.

Plantaram-se sinais e desvios que só profissionais do volante, habituados a sofrer com a fantasia e arrogância de técnicos e arrivistas, conseguem respeitar.

Aquela rotunda cega do acesso desenhado e prometido ficou condenada ainda antes de ser definida. O seu dia de natal acabou antes de lhe cortarem o cordão umbilical que a ligava ao plano de urbanização. E ninguém guardou as células estaminais da decisão e do bom senso.

As outras hipóteses de solução razoável poderão surgir num dia de nevoeiro.

Felizmente, os camionistas são gente pacífica.

Mas trazem consigo coletes amarelos, ou de outras cores, para vestir quando for preciso.

Por estas bandas, quem nos poderia fazer sonhar não sente necessidade de dar o primeiro passo para agir, nem o segundo.

Valem as promessas e adiamento de soluções e urgências para melhores dias.

O carro das prendas do Pai Natal não vai precisar de andar por estes desvios e calvários; por isso, os meninos da nossa terra podem estar descansados.

Não será por estes entraves que vão faltar as prendas no sapatinho. O Pai Natal não falha.

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