Amendoins e amêndoas

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Conhecemos aquele gesto de desinteresse de raspar as costas da mão, na toalha da mesa, prolongando-o até à ponta das unhas, como quem atira para longe as cascas ou migalhas de alguma coisa que acabou de se mastigar e nos estorva.

É um gesto de sobranceria, que atravessou o Atlântico e vemos sempre naquele olhar distante de quem parece atender-nos por dever de ofício e, nem por cortesia, se digna registar o nosso pedido, reclamação ou protesto.

Lá no fundo, estão a mandar-nos à fava, a gozar com a nossa cara e a demonstrar o desprezo pelas questões da viúva, que recorre ao “juiz iníquo”, por não ter mais ninguém que a defenda. Serão sempre razões mesquinhas e supérfluas, que não justificam cuidado nem tempo nem atenção de quem se esmera e desfaz nas cortesias do mandato.

E, se a viúva, a criança, o pobre ou o indigente insistem e persistem nas suas queixas, até que se lhes faça justiça ou dê igualdade de tratamento, a cara de enfado, para dar sossego aos ouvidos, garante, naquele eterno “vamos ver”, que o assunto não está esquecido.

Mal se viram costas, aquela alma, apoquentada por tantos casos e assuntos muito mais graves e sérios, tranquiliza a consciência, sacudindo as cascas daqueles amendoins para defender e dar prioridade ao que realmente interessa e pode trazer vantagens e celebrações.

Há quem não perca tempo a descascar amendoins ou a varrer a insignificância das cascas.

Com os assessores e chefes de gabinete, eles já se vendem torrados, salgados e apimentados, ao gosto de cada um, para aliviar os ouvidos e gestos de desprezo e a perda de tempo em  apreciar o miolo e o sentido das coisas e das causas. Já chegam descascados.

Com o cheiro doce da Páscoa e da tradição, reluzem os olhos das crianças, virados para a montra cheia de amêndoas e ovos coloridos.

Os padrinhos não podem esquecer os folares, acompanhados de um saquinho dessas lembranças redondas, embrulhadas em cores e feitios.

Os afilhados esqueceram o beijo na mão e a flor, que a tradição mandava oferecer, em dias anteriores, para agradecer os gestos de carinho e protecção dispensados desde o baptizado.

As cores e cobertura das amêndoas fazem esquecer a beleza das amendoeiras em flor e a certeza que todas elas, antes de serem aquela bolinha, envolta na fantasia do açúcar, mel ou chocolate, tiveram um caroço duro, que foi preciso descascar e partir. Desde muito cedo se esconde a realidade de cada coisa e a dureza de vida e de trabalho para alcançar os sabores que nos aparecem à mesa.

As aparências contam mais que a verdade e não interessam os queixumes pelas facilidades da vida moderna nem o desprezo pelos calos, rugas e queimaduras para trazer o brilho, a doçura e a cor àqueles saquinhos que já se trincam sem saborear.

O coelhinho brincalhão continua a esconder os ovos para iludir a renovação de ideias e comportamento que a Páscoa e a Primavera gostam de anunciar e já nem as cascas dos amendoins ou o excesso de gente a torrar as amêndoas parecem incomodar.

A tradição das empresas familiares, onde todos trabalhavam e limpavam a oficina, ao fim do dia, envolveu-se na doçura das cores e transferiu-se de armas e bagagens para outras esferas.

E a limpeza e trabalhos de casa reparte-se pelos amigos e amigos dos amigos. Porque o saber e competência da família estão fora de questão. É a estrela na testa que manda e define.

A arte de governar não se pode ficar pelas cascas de amendoins.

A ilusão das amêndoas traz muito mais sabor e importância. E os sabores e segredos, como na culinária, são para guardar, em família. Só para alguns.

Ninguém se espanta que, mesmo sem decreto, se determine que “primeiro, os nossos; depois os amigos e a seguir…se ainda houver lugar, os amigos por cor ou afinidade.

Que vivam e reinem os príncipes e monarcas, nesta república das bananas!

Algum dia se há de aprender a apreciar as amêndoas pelo seu miolo, sem lamber a cor do açúcar da cobertura, e os tremoços e amendoins pela qualidade da casca.

Até lá, que não se aprenda nem espalhe a arte de patinar em cascas de banana.

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