Um amola-tesouras em Sátão. Se a profissão está em extinção, o ‘corte’ não.

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Por: Acácio Pinto

A gaita dava o sinal.

A pequenada corria porta fora e lá estava ele na rua. Era o amola-tesouras.

Por entre um fascinante emaranhado de bugigangas, ferramentas e correias de transmissão de movimento ele continuava a tocar a gaita para chamar a clientela (hoje é por push, mail, sms, call to action, newsletter…!)

Ele apresentava-se ali, bem à nossa frente, com uma geringonça, à antiga, que deixava os olhos da criançada completamente esbugalhados.

E depois da avalanche infantil lá vinham os homens com as facas e as navalhas de estimação (qual o homem que não trazia sempre uma navalha no bolso?) e as avós, depois, com as tesouras que já não cortavam o cotim nem as ‘casacas’ das vizinhas com quem andavam de candeias às avessas.

Era assim. Ali nas nossas barbas o esmiril afiava, afiava. Acotovelávamo-nos, até, para ver qual de nós estava mais em cima das operações.

Hoje este quadro é bem do passado.

Não é que não haja tesouras, facas e navalhas para amolar, pois na ‘internet’ ainda não se amolam (lá virá o tempo!), só que a sociedade agora rege-se pela cartilha do ‘use e deite fora’ (meta no contentor da reciclagem, digo eu!).

Folgámos, todavia, há tempos atrás, quando esbarrámos com um amola-tesouras no desempenho da sua atividade, ali, na rua principal de Sátão.

Gostámos.

(Foto: Dão e Demo)

Amolou, com que destreza!, várias tesouras e facas que já ‘nem queijo fresco cortavam’. Estava ali mesmo, no passeio, de novo bem à nossa frente.

A sua geringonça, que podia suscitar dúvidas, no início, aos mais céticos, ou aos debutantes, funcionou na perfeição. O amola tesouras demonstrou ali todo o seu know-how (antigamente dizia-se saber fazer!). A rotação da pedaleira chegava sincronamente ao esmeril, que rodava de acordo com a aceleração. Depois era o domínio do ângulo com que colocava tesouras e facas em fricção faiscante (não será atrito?) com o esmeril.

E, não restem dúvidas, todas as que passaram pelas suas mãos e pela sua eficiente e eficaz geringonça, ali, naquele tempo (tão pouco!), dali saíram com o seu fio ‘d’aço’ perfeito. Tesouras e facas. Aptas para continuarem a sua saga. A saga do corte. Na casaca ou no vestido, aquelas, e no pão ou no presunto (cada vez menos da salgadeira!), estas.

O corte sem tesoura, esse, continua sempre de vento em popa, pois as línguas, que saibamos, nunca precisaram de ser amoladas para cortarem bem!

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