Antes que cases

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Sentado no bloco de pedra escura, à sombra da parreira, assistia aos jogos e brincadeiras da pequenada, que resistia à ditadura ritual da sesta e do calor de Verão.

Em cada tarde, aquele olhar pequenino vinha sentar-se na frescura da sombra e garantir a ordem, no desassossego de um recreio ansioso pelo recomeço da escola.

Parecia mirar-nos e sentir o calor dos jogos entre os dedos que seguravam o cigarro.

Quando o fervor das lutas aquecia, quando os mais espigadotes queriam impor-se pela força e ganhar os desafios a qualquer preço, estalava o assobio, que impunha respeito e verdade no jogo. Mesmo contra a vontade, respingando contra aquele olhar cansado, sentia-se o abrandamento da luta, o tento na língua e o regresso à lealdade e respeito pelas regras.

Estranhava-se, quando o banco ficava vazio. Antes de começar o jogo, apuravam-se as razões, não fosse alguma má educação ter melindrado aqueles cabelos brancos.

Parecia conhecer cada um como a palma da mão e adivinhar-lhe as fintas e pensamentos.

Sentia todas as derrotas, como suas ou como se tivesse estado no terreiro. Mas abria-se em sorrisos com os vencedores da jornada, lembrando a todos que, na vida, num dia se ganha e noutro se pode perder, sendo, por isso, importante saber ganhar e aprender a aceitar as derrotas como parte do jogo.

A experiência e as sentenças daqueles olhos serenos seguiam-nos para o recreio da escola e sentavam-se ao lado de cada um, nos bancos daquelas mesas inclinadas, onde se aprendia a desenhar as letras e a arte de deitar contas à vida.

Era aí que, pouco a pouco, com o empenho de cada um e a dedicação dos professores, se ia descobrindo o país e o mundo, abrindo janelas e horizontes, desenhando planos e desafios que haveriam de nos lançar à conquista dos sonhos pintados naquele olhar pequenino.

Sonhos arriscados de saltar do ninho e voar. Sonhos de correr o mundo e dobrar ventos e oceanos. Sonhos de avivar as cores da bandeira que, religiosamente, nos liga aos quatro cantos do mundo, na cultura da língua e dos costumes, no abraço a “quem vier por bem”.

Voltam à memória aqueles pontapés na bola, que não podiam ser dados ao acaso.

Volta a vontade de vencer. Voltam os passos serenos de escolher a equipa e indicar o caminho. Volta a finura do olhar que adivinha a necessidade de uma vara, para apoiar ou corrigir, sabendo que o relógio não volta atrás nem se compadece ou aceita os assobios de quem pretende interromper o jogo ou pedir descontos de tempo para pensar e decidir melhor.

Porque os compromissos e decisões são de curta duração. Porque as regras do jogo se mudam a qualquer momento e são interpretadas pelo telintar das moedas.

Bem pode aquela figura esguia levantar-se do seu banco de pedra a recomendar respeito de uns pelos outros ou a ensinar aos mais pequenos como se deve ganhar o jogo e chutar à baliza sem ferir as canelas de ninguém.

Bem pode agitar o chapéu e o cigarro aos namorados que passam, em gesto paternal.

Eles não estão dispostos a ouvi-lo dizer e repetir: “antes que cases, vê o que fazes”.

A capacidade de escolher e decidir perde-se em jogadas do meio campo.

E é pena. Porque se hipotecou o sentido da responsabilidade, da decisão e do dever.

Até as contas e orçamentos nacionais andam alinhadas em casamentos de conveniência.

Já ninguém sabe rematar à baliza, criar oportunidades e decidir o jogo com rasgos de audácia.

Navegamos nas águas turvas de não saber ver nem ouvir o vento e a história e na indecisão de quem não sabe fiar nem tecer ou abrir os braços ao tempo para deixar a sua marca.

Sem isso não haverá teares nem lençóis para o enxoval das novas gerações.

E não haverá, tão pouco, forma de arranjar bons ventos e bons casamentos.

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