As lendas do Vale das Abelhas e das Mainhas

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(Foto: Hugo Baptista)

Por: Hugo Baptista – arqueólogo (*)

A LENDA DO VALE DE ABELHAS

“No vale de abelhas há um grande haver, há-de ser achado por rasto de ovelha, ponta de relho ou menina em guedelha.”

A LENDA DAS MAINHAS

“Contam as pessoas mais idosas do Avelal que até há uns quarenta anos, numa encosta rochosa, junto à ribeira no sítio chamado Mainhas, ouviam-se explosões acompanhadas de borburinhos e poeiras que agitavam os pinheiros. As pessoas que por ali trabalhavam fugiam assustadas. Conta uma lenda antiga que esse ruído era produzido por uma alma penada que, devido aos crimes cometidos em vida, foi condenado a arrastar sobre os penedos grades de ferro por toda a eternidade.”

Hugo Baptista – colaborador Dão e Demo.

O território, onde hoje está implantada a aldeia do Avelal possui vestígios de ocupação que remontam ao Neolítico mas é sobretudo da época romana e medieval que esses são mais evidentes.

A Professora Maria das Dores e a sua irmã, Maria da Piedade Albuquerque, a quem agradecemos a partilha destas lendas e doutras tradições populares, levaram-nos a revisitar um dos lugares mais emblemáticos da sua terra, Santa Velha. Neste lugar podemos encontrar um conjunto de, pelo menos, 6 sepulturas escavadas no granito, incluindo de criança. Estas encontram-se numa zona de pinhal mas no rebordo dos campos agrícolas, onde pontualmente aparecem fragmentos muito rolados de cerâmica romana. Não muito longe deste núcleo, no lugar da Eira ou Vila Cova, num bloco granítico, encontra-se escavado um lagar. É, contudo, a sepultura escavada na rocha o vestígio mais frequente e visível, nesta aldeia. O lugar do Eirô e Chãozinho são disso exemplos, que nos remetem para a época medieval. Dizem-nos que, reza a tradição oral, ”no sítio da Fontela apareceram outrora duas panelas que rapidamente desfizeram na tentativa de encontrar libras”. Este lugar, que é o prolongamento natural da Quinta das Chedas, onde testemunhámos evidências concretas da ocupação romana, diz-se, terem sido encontrados vestígios mas devido à densa vegetação que atualmente cobre os terrenos, impossibilita-nos confirmar a sua existência.

Temos também informação de que, há muito tempo, algures no Avelal, encontrou-se uma moeda romana em muito bom estado de conservação. Na Quinta da Mourinha apareceu um machado de pedra polida, com o gume em bom estado de conservação, que parece ter tido pouca utilização. Terá constituído parte do espólio de um enterramento? No limite desta povoação com Decermilo, num lugar chamado Vele de Abelhas, contíguo ao lugar da Cerca e Ourigos, a lenda remete-nos para vestígios concretos de campas, de um lagar, de imensa telha, cerâmica de uso doméstico e escórias que denunciam a prática da fundição de metal. Vários blocos graníticos nesta área estão envoltos em lendas que poderão denunciar uma ancestral ocupação humana, como sejam o penedo do pé touro ou o penedo dos mouros.

(*) Hugo Baptista | hugosatao@gmail.com | www.facebook.com/arqueosatao

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