Assimetrias

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

No início de qualquer conversa, convém esclarecer o sentido das palavras para que não restem dúvidas a ninguém e o entendimento se possa estender ao longo da discussão, por mais longa e diversa que ela possa ser. Evitam-se, assim, mal entendidos e discussões inúteis, tempo perdido e esclarecimentos adicionais pouco convincentes.

Sabendo que as assimetrias são a negação da harmonia e do equilíbrio, das formas e tamanho, da localização de pontos e combinações que conduzem a pontos de encontro que se possam traduzir em harmonia e bom entendimento entre as partes, começamos a entender os desvios do trato social e as gritantes situações de desigualdade que a geometria política vai traduzindo e consolidando em muros e fronteiras, em pátios e barreiras inconcebíveis.

Nem precisamos de contabilizar os custos dos muros e barreiras levantados para impedir a satisfação das mais elementares necessidades dos povos e o acesso à livre determinação de cada um e compará-los com os gastos em bens produtivos e essenciais.

Nem tão pouco de pensar nas vidas que se perdem no mar, quando se tenta fugir de ambientes de guerra e de pobreza extrema. Nem também dos meninos retirados da escola para engrossar fileiras de guerrilha, em troca de pão. Nem sequer dos impedimentos que bloqueiam apoios internacionais para disfarçar carências no combate à fome e ao sofrimento.

Mas divertem-nos as festas e desperdício nas prisões, onde nada falta, mas, supostamente, há  fraca vigilância e excesso de telemóveis não autorizados. E ficamos entre o riso e a dúvida pela indignação de figuras públicas apresentadas na audição do tribunal enfeitadas com algemas.

Parece que a igualdade de tratamento, a simetria de processos, só pode ser aplicada a indiciados “comuns”. As elites sociais e políticas movem-se e tratam-se noutros patamares e considerandos. As ordens e sindicatos são corporações que não largam o osso da tertúlia.

A falta de hábito, a suposição, a fé quase absoluta de que gente de alto gabarito, algum dia, possa estar envolvida em jogos de fortuna e de poder ou manobrar os cordelinhos da justiça e da alta finança, em proveito próprio, obrigam-nos a sentir o frio do rei que vai nu e se rebola e pavoneia na avenida, desafiando a ingenuidade de quem nunca duvidou da compostura de reis e governantes.

Depois disso, tudo pode acontecer. Tudo se aceita. Nada se estranha ou questiona.

O Zé povinho treina novos gestos e, em vez do manguito solene e vigoroso, avança com sorrisos duvidosos e olhos de carneiro mal morto, parecendo acreditar em tudo e não ter dúvidas de que os novos tempos admitem todo e qualquer tipo de comportamento, sem que nada de anormal se possa apontar a ninguém. Tudo é lícito e conforme.

E os polícias terão de pedir licença para andar na rua a fazer respeitar a lei. Os médicos e enfermeiros, juízes e professores terão direito a consultas prévias para escolher turnos, lugares e processos, disponibilidade e determinação dos seus momentos de lucidez e isenção.

Porque a requisição civil ou o sentido de serviço já se esqueceram de todas as concertações e não se compadecem nem acreditam nos contratos e conversas que ninguém sabe respeitar.

Todos gostam de posturas convenientes e, mesmo sabendo da pouca força dos argumentos, juram sempre que não é o pilim que move e orienta tantas marchas de protesto.

Se lhe conseguirem juntar beijos e abraços milagrosos em fotografia sorridente com figuras públicas, maior a força da exigência e melhor o argumento para segurar prebendas.

O surto de gripes, na convivência permanente com o nariz constipado, obriga a lembrar que aquele marco saliente, ali bem no centro da face, não distingue nenhum lado da cara. É ele que a faz simétrica, na diferença de cada uma.

A correcção de tanto desequilíbrio social precisa de vacinas rápidas e eficazes para eliminar os vírus persistentes que arrastam e mantêm estas gripes, tosses e convulsões.

Não faltam sinais e diagnósticos da epidemia. Só falta entendê-los e atalhá-los rapidamente. O nariz já aprendeu a distingui-los e reconhece-os à distância. Terá que saber torcer-se e assoar-se, quando a geringonça da vida assobia nas curvas ou cheira a esturro.

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