Caminho para casa.

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António Fernandes Silva - colaborador Dão e Demo jornal digital

Por: António Fernandes Silva

Quando acontece alguma tragédia ou percalço de viagem menos favorável, o que mais nos preocupa e salta ao pensamento é o regresso a casa.

Nesses momentos de dúvida e indecisão, ficamos atordoados. Foge-nos o terreno debaixo dos pés e dificilmente atinamos com o caminho, tantas vezes percorrido e que conhecemos de cor.

As rotinas e memórias perdem-se na surpresa e confusão de acontecimentos marcantes.

Restam as emoções que, quase nunca, se assumem como boas conselheiras. E falta serenidade para distinguir e separar o momento e a decisão. Será preciso parar o tempo e o coração, esse cavalo à solta, para decidir e avançar, para saber o local exacto e a posição real do acidente.

A modernidade do GPS e de tantas outras técnicas ainda não conseguiu penetrar nos segredos da mente humana ou indicar e substituir as suas coordenadas e preocupações

Mas vivemos num tempo em que não conseguimos localizar bem a “nossa casa” e começamos a ter medo de lá regressar. Essa casa já não é bem nossa, nem é só nossa. É a casa da nossa infância, dos nossos pais e avós, da nossa família de outros tempos e modos, de recordações, sabores e aromas que nos atiram para saudosos caminhos e carreiros, para festas e lareiras, onde se mastigavam dores e cansaço e celebravam alegrias e crescimentos.

Temos medo de sair de casa e, quando saímos, medo de não regressar. Porque é o lugar seguro de refúgio, porque conhecemos os “cantos à casa”.

Talvez por isso as donas de casa, quando saem, gostem de a deixar composta e arrumada. Porque não sabem se voltam.

Este medo é já uma herança comum e transversal. Os meninos não vão sozinhos para a escola nem para lado nenhum. E não regressam sem que alguém de confiança os receba no portão e leve pela mão. E não brincam na rua e no jardim com os colegas e vizinhos, às escondidas, ao berlinde ou ao pião. Parece que desaprenderam o caminho para casa.

As aves e animais do campo sabem todas o caminho e as horas de recolher ao seu lugar seguro. E regressam, num ritual instintivo, ao convívio dos que conhecem.

No entanto, fala-se, com desprezo, na lei da selva como uma coisa bizarra.

A liberdade de não semear nem colher e a certeza de ocupar o seu lugar sem pisar terrenos estranhos dá-lhes tranquilidade natural. Embora a lei da selva seja imposta por abusadores, que se julgam reis e senhores daquele território e da liberdade dos outros, todos aprenderam a dar-lhes a distância e o desprezo natural que os deixe no seu trono a uivar sozinhos.

As feras isoladas são as mais violentas. E a violência gera desprezo, isolamento e distância.

A segregação, desprezo e isolamento geram mais violência e crescimento de ódio e separação.

O caminho para casa, para nossa casa, obriga-nos a passar pela porta de muitas outras casa, de que sabemos o cheiro e o sussurro, e a conhecer as ruas e os buracos que temos de atravessar.

Para percorrer esses caminhos sem medo nem perigo basta aprender e ensinar o menino que temos dentro de nós e o que levamos pela mão a cultivar o respeito e amizade pelos seus colegas do bairro, da rua ou da escola, da sua idade ou de qualquer tempo.

Um sorriso, uma carícia ou um simples gesto de simpatia abrem mais portas que uma gravata colorida ou um carro de alta cilindrada.

E o caminho para casa, no regresso à casa de outros tempos, sem medo nem portões cerrados a sete chaves, será cada vez mais seguro e tranquilo.

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