Carlos Lopes e a censura.

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Abílio Travessas: Colaborador Dão e Demo - jornal digital

Por: Abílio Travessas

Na rádio, Antena 1, ouvi um apontamento sobre o lançamento de livro,  Bairro Alto, dos tempos gloriosos dos jornais que ali tinham as redacções e tipografias, que davam vida incomum de convivência entre jornalistas, revisores, tipógrafos mas também prostitutas. A Bola é o único resistente. O autor, entrevistado, recordou que o Diário Popular tinha em Carlos Lopes o estafeta que levava  as provas tipográficas à censura, o que fazia correndo pelas ruas, num vaivém constante. E dizia, com humor, que tinham contribuído para formar um campeão olímpico.

As estórias com Carlos Lopes protagonista são muitas. Umas mais conhecidas do público é a conquista da medalha d’ouro na maratona de Los Angeles, 1984. Mas o que aconteceu duas semanas antes da partida para a América, já não o é tanto: ”Atropelado por comandante (da TAP) que queria ser presidente do Sporting, ainda o salvei de tareia…”, palavras do campeão. Nesse dia ia a caminho de Monsanto pela 2ª circular. “…de repente estava no ar, as pernas a subirem, a cabeça por baixo”. Fora atropelado pelo carro de Lobato Faria, atrasado, a caminho do aeroporto, para entrar ao serviço.

É conhecida a rivalidade entre Lopes e Mamede, dois enormes atletas. Mamede era “a máquina mais perfeita” que o prof Moniz Pereira treinou; Lopes suplantava-o em consistência psicológica. Nesses Jogos Olímpicos começámos por ter uma desilusão quando Mamede, claramente o melhor nos 10 000 m, desistiu por não suportar o favoritismo. Não sendo tão dotado fisicamente, Lopes assumiu-se favorito. “À entrada do estádio: Pressão? Medo? 15 m antes do tiro (de partida), tinha 46 pulsações por minuto…Moniz Pereira comentou para a Teresa (mulher de Lopes): Como é isto possível? Nós numa pilha de nervos e este gajo como se fosse para uma festa” (A Bola –António Simões, Nos trinta anos da medalha de ouro na maratona de Los Angeles).

Outra estória é a conquista do tri campeonato do mundo de corta-mato, realizado nos terrenos do Jamor. “Carlos Lopes “enganou” toda a gente. Ele não fez bluff  mas se o tivesse querido fazer não o conseguiria mais perfeito”. Sigo a “revista Atletismo”, de Abril de 1985 nesta memória. O bluff  justificava-se porque no Campeonato Nacional de corta-mato ficara a 53 s do vencedor, Mamede. Lembro-me bem desta inesperada vitória de Lopes que alterara o esquema dos treinos após o “desastre” no CN, em Troia, por sua iniciativa. Conta a mulher que, já muito perto da data da prova, Lopes chegou a casa depois de mais um treino, a assobiar. “Temos homem”, pensou.

Retomemos o relato da revista, pela pena de Arons de Carvalho, director, para percebermos a última volta e o esforço do nosso atleta: “A dada altura apenas os etíopes Bulti, Debele e Balcha e o queniano Kipkoech aguentam o seu andamento, mas Lopes vai acelerando cada vez mais, a certa altura começa a ganhar vantagem, um, dois, cinco, dez, vinte, trinta metros. A meta está à vista, o campeão sofre (poucas vezes terá chegado em tão difíceis condições) mas a vitória não lhe escapa. Era o 3º título mundial. Aos 38 anos!”

Também sofri como nunca no apoio a Lopes na luta para manter a magra vantagem obtida metro a metro, sobre aquela “armada” africana. Venceu com 4 s de vantagem. Para a história: Lopes foi o último atleta branco a vencer os africanos em provas de fundo, maratonas e campeonatos do mundo de corta-mato.

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