Carta de uma jovem portuguesa à Europa

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Inês Pina: Colaboradora Dão e Demo

Por: Inês Pina

Querida Europa,

Quem te escreve é uma jovem portuguesa, daquele país que se dizia que não se governa nem se deixa governar. Hoje percebe-se porquê. Somos preguiçosos e temos vidas para além desta coisa a que chamam política. Somos a “ocidental praia Lusitana” e para manter a nossa fama temos de encher os areais, não vá alguém roubar-nos o título, por termos ido, imagine-se, votar!

Contudo, eu escrevo-te, porque te quero pedir desculpa. Somos 10 milhões e 700 mil a votar, mas olha 66,5% destes tinham afazeres importantes, não podiamos tirar cinco minutos para votar! Sim, eu demorei apenas 5 minutos a cumprir a minha obrigação. Vá, com as deslocações talvez seja justo falar em 15 minutos do meu dia. Não fui para a praia, porque sou do interior do país, mas fui dar um passeio que aqui também há coisas bonitas para ver e fazer.

Sabemos que nos pedes para votarmos de cinco em cinco anos, nem é muito, mas olha é uma maçada! É sempre no dia em que o primo casa, a viagem está marcada, em que há almoço de família…

Ouve-se dizer que nós não votamos porque somos desligados. Porém nós gostamos da europa. A sério. Se houver fundos para a nossa ferrovia, (que é coisa que precisamos melhorar) nós somos todos ouvidos! Até achamos mal que os londrinos queiram sair desta comunidade fantástica que nos dá uns valentes milhões.

Sabes, se tivessem juntado as eleições legislativas de outubro a estas, como fez a Espanha e a Holanda, talvez tivesse corrido melhor. Que nós somos gente despachadinha e, que põe uma cruz põe duas, mesmo que em papéis diferentes. Aliás ainda bem que é só colocar uma cruz, porque assim como assim, nem sabemos os nomes dos eurodeputados, nem o que fazem. Aparentemente, ouvimos falar que o parlamento europeu tem apenas, funções legislativas para TODOS, decide sobre acordos internacionais, decide se alargamos ou não…. Se acharmos mal a Turquia ser abrangida pelos fundos chorudos, nem se manifestem, pois não votaram! Ah e depois tem poder de supervisão até sobre o Banco Central Europeu…o que lhe dá também poder orçamental. Portanto aspetos que mexem pouco com o nosso quotidiano, isso é para burocratas!

Por falar em juntar eleições, acho que foi isso que nos nossos candidatos fizeram. Colaram a campanha das eleições europeias às próximas. Uma espécie de antecâmara para as legislativas. Um aquecimento. Conclusão o que se reteve foi: uns a pedirem cartões vermelhos, outros a pedirem moções de confianças. Pelo meio, fizerem uma novela com os professores e olha lá ganhou o PS. Assim como assim, se calhar nem nos chateavam em outubro!

Cara Europa, não foi má vontade política, claro está, que os senhores fizeram o que podiam. Almoços, bonés, arruadas. Até facilitaram o antecipar do voto, eliminaram o velhinho cartão de eleitor, agora até com a carta de condução se pode votar. Ah e em Évora (se menos apressados, devia correr melhor) colocaram o projeto piloto do voto eletrónico. Foi só mesmo, um lazy Sunday!

Porém repara, minha grande amiga, nós não elegemos extrema direita ao contrário da França, nem deixamos que a mesma ficasse em quatro lugar como a Alemanha. Por isso, olha cumprimos o mínimo. Até porque sabes que temos sido os bons alunos nos últimos tempos. Sempre fizemos os trabalhos de casa sem questionar muito.

Por falar em trabalhos de casa, tu agora tens alguns para fazer. O teu Centro de Direta perdeu 60 lugares, tal como os Socialistas Democratas, que perdem 46 deputados. Por isso, agora tens de pôr nova malta a fazer novos acordos. É que a extrema direita cresceu e é malta que não acredita no teu potencial, mas querem o teu ordenado, ou então querem minar-te por dentro…ainda estamos para perceber! Nem tudo é mau. Tens novos alunos que são mais verdes, estão aí por uma causa maior…pela nossa casa. Sabes, são novas forças políticas que cada vez mais conquistam novos participantes. Em calhando estamos mesmo todos fartos dos burocratas e queremos mesmo defesa de causas, como o ambiente, a qualidade de vida, a imigração, pronto, temas que sejam maiores que as fronteiras e as tricas partidárias. Afinal somos uma comunidade!

Eu, acredito em ti. Não pertenço aos velhos adamastores que dizem que estás moribunda. Nós estamos a matar-te com esta pouca participação. E a culpa é toda nossa. Por isso desculpa! Mas tu sabes o que ainda tens para nos dar e soubéssemos nós explorar o teu real potencial e hoje estávamos a viver no nosso auge, mas muitos dos que te conduzem querem apenas que estejas a meio gás. Já te deveriam ter colocado na vanguarda da revolução ecológica, aquela que todos têm empurrado com a barriga, já te deviam ter elevado a uma forma de vida, mas de quando em quando vêm falar em fronteiras e tu tens de te retrair.

Desculpa, lá. Tem paciência connosco, daqui a cinco anos vamos tentar mudar, pode ser?

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