Cidade inteligente e inclusiva: O projeto “From bubble”

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José Carreira - colaborador Dão e Demo.

Por: José Carreira

“Imaginem o meu sábado: vou de manhã ao meu bairro clandestino, que está a ficar velho e cheio de velhos sozinhos. A velhice na pobreza parte o coração. A velhice na pobreza e com Parkinson ou Alzheimer é desumanidade. Querem fazer voluntariado e salvar o mundo? Não precisam de ir para a Síria, passem nos bairros entre Sacavém e Vila Franca. Há aqui muita gente para ajudar. Precisam de ajuda domiciliária, económica, médica, mas também ajuda mediática e política.”

(Henrique Raposo, Expresso, 25/10/ 2018)

No nosso país, 400.000 idosos vivem sozinhos e 800.000 vivem com outros idosos. Portugal é um dos seis países que envelhece mais depressa. 69,2% dos portugueses com mais de 65 anos considera-se não saudável, em função de fatores como: a dor; o sentimento de solidão; dificuldade em ouvir; dificuldade em ver; perda de memória…

A grande maioria das pessoas idosas, que não se considera saudável, sente-se só.

A SOLIDÃO MATA!

Theresa May chama-lhe a triste realidade da vida moderna”. A solidão no Reino Unido é por muitos considerada uma autêntica epidemia e atinge uma população quase do tamanho da portuguesa. Como resposta à problemática, foi criado o Ministério da Solidão, dirigido pela ministra Tracey Crouch e que tem como missão principal “garantir a maior coordenação possível de todos os ministérios na luta contra o problema”.

Não sei se terá sentido criar um ministério idêntico em Portugal, mas tenho a certeza de que são urgentes políticas públicas consensualizadas e adaptadas à realidade demográfica que carateriza o nosso país.

Quando se soma ao envelhecimento a solidão e a doença, como Parkinson ou Alzheimer, toda a ajuda é bem-vinda.

A ajuda mediática e política, fundamental para um novo paradigma de cuidados, dependerá muito da nossa capacidade para colocarmos o tema na ordem do dia, na agenda política. A Campanha Amigos na Demência visa mudar a forma como o nosso país pensa, age e fala sobre a demência. Um Amigo na Demência é aquele que aprende um pouco mais sobre como é viver com demência e depois transforma essa aprendizagem numa ação em favor das pessoas com demência. Acreditamos que muitas pessoas de boa vontade poderão ajudar os que mais precisam, num bairro de uma grande cidade ou num lugar longínquo e isolado, algures no interior do Portugal profundo.

Estive, em Barcelona, na Conferência Anual da Alzheimer Europe e pude constatar que as autoridades locais compreendem bem que só há cidades inteligentes – Barcelona recebe de 13 a 14 novembro o evento Smart City Expo World Congress – quando estas são inclusivas e garantem as melhores condições a todos os cidadãos. Um bom exemplo é o projeto de arte contemporânea From Bubble, do artista Daniel Bagnon que tem como objetivo consciencializar e sensibilizar a cidadania sobre o que representa a doença de Alzheimer, fazendo uma análise conceptual sobre as estruturas do cérebro que vai perdendo a capacidade de conectar a sua rede neuronal, a partir da deterioração progressiva que origina a doença de Alzheimer e o modo como o cérebro percebe o seu mundo e o meio ambiente que o rodeia. Assim, criou a ideia de “Bubble” como a unidade mínima de informação que um cérebro é capaz de analisar e processar.

Podemos encontrar, nas ruas e praças, mais de de quatro mil “bolhas” que assinalam marcam um percurso de 10 quilómetros que assinalam os centros e os espaços municipais que oferecem, durante dois meses, mais de cem atividades centradas na pessoa com doença de Alzheimer.

Também em Portugal, ainda que de forma lenta, começamos a dar passos na direção certa, para que possamos construir uma Comunidade Amiga das Pessoas com Demência. O Ministério da Saúde apresentou a Estratégia da Saúde na Área das Demências. Até ao final do ano, haverá lugar para a realização de duas grandes conferências, uma em Lisboa (22-23 de novembro) – «Uma Visão Holística sobre as Demências» e outra em Viseu (13-15 de dezembro) – «III Seminário Internacional Alzheimer e outras Demências: Conhecer, Compreender e Intervir».

Em Viseu têm foi dado, recentemente, mais um passo importante para cimentar o trabalho do Centro Apoio Alzheimer Viseu. Refiro-me, concretamente, ao protocolo de cooperação celebrado com o Município, fundamental para que continuemos a apoiar as pessoas com demência, os cuidadores, os familiares e os amigos.

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