[Cinema] Happy End, de Michael Haneke (2017)*

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Por: José Pedro Pinto 

Happy End (2017) | Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant, Mathieu Kassovitz | Realizado por Michael Haneke | 107min.

“É-me sempre útil ver algo em que sinto que posso acreditar, no ecrã ou onde for”

É estranho que um realizador de 75 anos faça um filme que me soe mais contemporâneo do que qualquer longa-metragem que vi até agora. É lento e chato, como seria de esperar de um Haneke ainda mais velho que o de há cinco anos, mas as imagens de Happy End pareceram-me imagens de hoje, e imagens de hoje que pareçam de hoje é uma visão rara e importante: é-me sempre útil ver algo em que sinto que posso acreditar, no ecrã ou onde for – no ar aborrecido de Huppert, nos olhos julgadores de Trintignant, na fotografia fria de Christian Berger, na encenação inquisitiva de Haneke.

Apesar da encenação e argumento realista, há um tom de estranheza nas ações das personagens – nas filmagens de telemóvel da miúda de 13 anos, na indiferença da personagem de Huppert, na desonestidade da de Kassovitz – como se Haneke tivesse desmontado e voltado a montar o puzzle da psicologia humana e forçado um encaixe errado de uma ou outra peça. O realizador também se diverte a enganar a audiência, deixando pistas sobre a narrativa que acabam por se revelar sempre falsas, em alguns casos até trocando a ordem das ações ou saltando no tempo sem aviso. No meio da constante esterilidade e desonestidade das interações entre as personagens, nada ganha impacto emocional, e em boa maneira Hanekiana a morte e o sadismo confundem-se com comodismo e aborrecimento.

Tudo isso soa intencional, o que torna o filme mais misterioso e nos convida a estar atentos e a fazer associações. Não como quem resolve um policial, mas como quem lê um ensaio filosófico sem tese nem conclusão, só com contra-argumentos.

*Artigo originalmente publicado na edição de 3 de Agosto do Jornal do Centro.

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