[Cinema] Ida, de Pawel Pawlikowski

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Por: José Pedro Pinto*

Ida (2013) | Agata Trzebuchowska, Agata Kulesza, David Ogrodnik | Realizado por Pawel Pawlikowski | 82min.

“Pawlikowski adia, e no adiar dá-nos tempo.”

O novo filme de Pawel Pawlikowski estreou em Portugal no passado dia 20 de Setembro. Não veio para Viseu. Antes, o polaco realizou Ida, que veio pelo Cine Clube. Enquanto não vem o Cold War, Ida lembra que Pawlikowski é muito bom. Há um plano em que a atriz Agata Trzebuchowska abre a boca ligeiramente e veem-se dois ou três dentes e tem o poder erótico de um abrir de soutien. É um minimalismo que tem o efeito de maximizar: no meio dos planos cheios de silêncio, quietude e espaço negativo, o que se mexe puxa uma atenção superior.

Aplica-se também à história: duas personagens, a freira e a sua tia, e mais uma: o rapaz. A freira é a protagonista, a tia é a catalisadora de mudança, o rapaz está lá porque a ideia de sexo é interessante, ainda mais quando a rapariga é uma freira, e ruiva e bonita como Ida. A freira quer saber onde está enterrada a sua família, a tia quer desmotivá-la de fazer os votos, o rapaz quer sexo. Há quatro ou cinco espaços: o convento, a casa da tia, o bar, o mato. É tudo tão pouco que o mínimo tem força. Aplica-se também na narração: cenas acabam cedo, as personagens não falam, e o que fica por explicar fica do nosso lado. A freira decide não fazer os votos, a câmara acompanha-a até à cerimónia, mas corta antes de sabermos se ela desistiu ou não. Isto é suspense. No mato, um homem escava a terra, de repente pára, e tira o chapéu. Achou alguma coisa ou está a lamentar não ter achado nada? Pawlikowski adia, e no adiar dá-nos tempo.

*Artigo originalmente publicado na edição de 28 de Setembro do Jornal do Centro.

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